As fronteiras invisíveis da Europa: Copa do Mundo, racismo e separatismo

Caros leitores, damos sequência aos textos da série Fronteiras Invisíveis da Europa. O texto de hoje faz uma breve recapitulação dos textos já publicados e visita alguns temas que serão discutidos por aqui. Também faz um paralelo com o evento mais midiático da atualidade e um exercício de imaginação. Considerando que a primeira fase da Copa do Mundo 2014 terminou, como o torneio e as seleções participantes seriam influenciadas e alteradas pelas fronteiras invisíveis da Europa ocidental?

O caso mais gritante talvez seja a Espanha. Isso não é nenhuma surpresa para o leitor que acompanha os textos publicados por aqui. Foram publicados um texto sobre a Galícia e outro sobre a Catalunha, e mais textos sobre o país ibérico serão feitos, especialmente sobre a falta de federalismo no Estado espanhol. Pois bem, dos vinte e três jogadores que fizeram parte da delegação espanhola, onze poderiam representar outras nações.

Embora tenha sido tema de texto, nenhum galego estava na delegação. Os jogadores Pedro e David Silva são das Ilhas Canárias, ainda não tratadas. Sérgio Ramos é da Andaluzia, região onde existe um pequeno movimento de identidade nacional. Xabi Alonso é basco, região que merece um texto próprio. E sete jogadores poderiam ser considerados catalães. Digo poderiam pois, como mencionado no texto próprio, existe a região administrativa da Catalunha, local de nascimento de Piqué, Xavi, Fábregas, Busquets e Jordi Alba; mas também existem os Països Catalans, que engloba a comunidade de Valência, terra-natal de Albiol e Juanfran.

Vamos então para a Itália, cujo movimento da Lega Nord pela independência da Padania foi tema de texto. Dos vinte e três jogadores italianos da Copa do Mundo 2014, oito poderiam defender o hipotético país da Padania. Inclusive o capitão da seleção italiana, o goleiro Gianluigi Buffon, que já se envolveu em polêmicas envolvendo o passado fascista italiano. Outros jogadores importantes também poderiam defender o novo país, como Chiellini, zagueiro mordido pelo uruguaio Suárez, e Andrea Pirlo, principal jogador do time.

Além desses, o atacante Mario Balotelli nasceu em Palermo, na Sicília, e o goleiro Salvatore Sirigu nasceu na Sardenha. Ambas as ilhas possuem movimentos de identidade local, que, em certos extremos, defendem a soberania de cada ilha. Novamente, esse problema de identidade regional exacerbada e uma busca radical por autonomia é derivado de um Estado que não é fundamentado em princípios federalistas.

A França foi tema de um texto, breve, sobre o movimento normando, entretanto, não há jogadores normandos na seleção francesa que disputa a Copa do Mundo. A delegação possui, entretanto, um jogador corso, Rémy Cabella, e um jogador basco, o segundo no torneio. O goleiro Stéphane Ruffier nasceu na pequena região basca que fica dentro das fronteiras francesas. Um dos mais conhecidos jogadores franceses da geração vitoriosa do final dos anos 1990 e começo dos anos 2000 também era basco, o lateral Lizarazu. Tanto o País Basco como a Catalunha estão, em sua maior parte, dentro da Espanha, mas adentram também a França.

A Alemanha será tratada por aqui, em um texto futuro. Não como fonte de movimentos separatistas políticos ou radicais, não temos uma imagem da Alemanha como temos do País Basco ou da Irlanda, por exemplo. Pelo contrário, a Alemanha será tratada como exemplo de Estado nacional que consegue aglomerar diversas regiões com diferenças culturais e históricas. O único movimento nacionalista que possui representação eleitoral na Alemanha está localizado na Bavária. Quatro jogadores são da região: o capitão Phillipp Lahm, Schweinsteiger, Thomas Müller e Mario Götze.

Além disso, podemos mencionar que Toni Kroos seria um Alemão Oriental, caso a República Democrática Alemã ainda existisse. O futebol é muito utilizado como termômetro do ainda presente desequilíbrio entre as regiões da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental. Os clubes da antiga RDA sofreram grande decadência após a reunificação, especialmente pela desproporção do poder aquisitivo e econômico entre os clubes. Finalmente, como mera nota, o atual Melhor Jogador do Mundo e craque da seleção lusitana, Cristiano Ronaldo, nasceu na Ilha da Madeira, não na parte continental do país.

Chegamos então no caso da Bélgica, tema deste texto. A Bélgica se divide em duas regiões, com Bruxelas no meio, quase como uma terceira região do país. A variedade de idiomas e o atual cenário político faz com que não seja coincidência a escolha de Marc Wilmots como técnico da equipe. Wilmots é um político moderado, antigo ídolo da seleção nacional e fluente nos três idiomas falados na Bélgica. Também não é à toa que ele selecionou Vincent Kompany como capitão. Nascido em Bruxelas, descendente de imigrantes, Kompany é ferrenho defensor da unidade belga; nasceram na capital Fellaini e Januzaj, também descendentes de imigrantes.

E sobre a divisão entre flamengos e valões? Seriam seis jogadores valões e catorze jogadores flamengos, em teoria. Digo em teoria, pois trato do local de nascimento desses jogadores, não necessariamente da identidade nacional que cada um toma para si. Por exemplo, entre os jogadores flamengos está Romelu Lukaku, descendente de congolês, nascido em Antuérpia, fluente em cinco idiomas. E negro, o que não é bem visto (para dizer o mínimo) pelo movimento de direita flamengo, que acredita em um componente étnico na identidade local; um povo “holandês”, com feições saxãs.

O que, na verdade, é o grande problema demonstrado em relação a várias seleções nessa Copa do Mundo. A xenofobia e o racismo disfarçados de identidade nacional. São diversos casos. Mario Balotelli, negro, filho de ganeses, nascido na Itália e adotado por uma família italiana. Os brasileiros naturalizados por diversas seleções europeias. Karim Benzema, artilheiro da França, de origem argelina, um pied-noir (termo usado na França para os descendentes das colônias francesas do norte da África), que não canta a Marselhesa em protesto aos casos de xenofobia que ocorrem contra sua comunidade.

Temos também na França os casos de racismo contra os negros, também originários do antigo império colonial francês, países como Senegal. Le Pen afirma que esse time “não é uma seleção francesa”. Na Suíça e na Alemanha temos diversos jogadores filhos de imigrantes balcânicos ou turcos que seguem a religião do Islã, e relatam problemas domésticos em relação ao tema, especialmente na Suíça.

O futebol, ao tornar tais casos explícitos, pode colaborar para a diminuição dessas tensões e do preconceito. Isso requer, entretanto, cuidado, dedicação e muito diálogo. E o racismo e a xenofobia no futebol é um tema muito importante, que merecerá textos próprios. Por hoje, fiquemos nas fronteiras invisíveis da Europa e esse pequeno exercício de imaginação. E a lembrança de que não é um tema tão longe e hipotético assim, vide que demonstrações dele estão ocorrendo aqui, em nosso país.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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