As Fronteiras Invisíveis da Europa: a Catalunha

Caros leitores, depois de um breve hiato, retomo hoje, como prometido, a série Fronteiras Invisíveis da Europa. Será o primeiro post no novo layout do blog, comemorativo de um ano de Xadrez Verbal. Se nos últimos dois textos falei de Espanha e de França, então, hoje falarei de uma região conhecida, que está em sua maior parte dentro do país ibérico, mas com um pedacinho na França. Refiro-me à Catalunha, no nordeste espanhol, cuja capital, Barcelona, é das cidades mais metropolitanas do mundo.

Garoto com a Estrelada, a bandeira da Catalunha independente.

Garoto com a Estrelada, a bandeira da Catalunha independente.

Numa breve retrospectiva histórica, a Catalunha era um condado carolíngio, na Alta Idade Média. Em 1162, a região entra em união dinástica com o Reino de Aragão; em um processo gradual, a Coroa de Aragão associa-se com a Coroa de Castela em 1469. Sob o reinado de Felipe II, em 1556 é formado o Reino de Espanha. Dessa data até os dias contemporâneos, sob diversas formas de governo e variados graus de autoritarismo, existe uma Espanha unificada; ou seja, a última vez em que a Catalunha existiu como estado independente de facto foi ainda na Idade Média.

Em verde, a região dos Països Catalans

Em verde, a região dos Països Catalans

Qual seria, então, a origem do nacionalismo catalão contemporâneo? No século XIX (chocante um movimento nacionalista no século XIX, não?) surge o movimento romântico catalão, que defende a identidade nacional catalã, baseado não apenas na questão territorial, mas também no idioma próprio (o catalão) e em aspectos culturais particulares da região.

O início de um movimento separatista organizado e institucionalizado na Catalunha se dá nos primeiros dias do século XX. Em 1914 é criada a Mancomunitat de Catalunya (Comunidade Catalã), que buscava concertar ações políticas nas quatro províncias espanholas historicamente catalãs. O movimento foi banido em 1925, durante a ditadura de Primo de Rivera. Em 1922 foi fundado o Estat Català (Estado Catalão), partido cujo objetivo explícito era preservar a unidade catalã durante a ditadura; o partido pioneiro existe até hoje, embora mais como símbolo político histórico, sem força política real.

Membros do Estat Català fundaram um novo partido, o Esquerra Republicana de Catalunya (Esquerda Republicana da Catalunha), principal partido da região durante a crise que antecedeu a Guerra Civil Espanhola, em 1936; por duas vezes, em 1931 e 1934, foi proclamada a República Catalana, sacramentando a autonomia da região.

A causa republicana e, consequentemente, as perspectivas de autonomia regional ou de separatismo, foram elemento importante durante o período da Guerra Civil. A maioria dos voluntários catalães lutou contra o regime de Franco. O principal líder catalão, Lluís Companys, Presidente da comunidade catalã (uma espécie de governador estadual), foi preso pelos alemães e entregue ao regime franquista, para ser fuzilado.

A Catalunha foi uma das regiões que mais sofreu sob o autoritarismo de franco. Como nas outras regiões, o idioma regional foi proibido. Diversos grupos políticos de resistência surgiram, como o Front Nacional de Catalunya e o Partit Socialista d’Alliberament Nacional. Após a nova constituição de 1978 e a transição democrática, diversos outros grupos políticos e populares se estabeleceram como defensores da autonomia ou da independência catalã. Além disso, houve forte renascimento das tradições da Catalunha, como o resgate do idioma em escolas em universidades.

Hoje, além da Esquerra Republicana de Catalunya, que defende a independência catalã e possui filial no território francês, existem outros três partidos representativos com demandas regionais. A Convergència Democràtica de Catalunya, maior partido da região, que defende a autonomia total catalã, com uma postura moderada de independência. O Unió Democràtica de Catalunya, que defende a autonomia da Catalunha, e a Iniciativa per Catalunya Verds, o partido verde local, que mantém uma postura mista. Juntos, possuem 84 cadeiras no Parlamento regional (de 135), além de três Senadores e três representantes no Parlamento Europeu.

Além dos partidos, como a ideia é percebida na opinião popular? Houve três grandes demonstrações populares recentes pela autonomia ou independência regional. Em 2010, uma manifestação que contou com um número entre 1.1 milhão e um milhão e meio de pessoas, contra uma decisão da Corte Constitucional da Espanha, que anulava itens do Estatuto de Autonomia da Catalunha, de 2006. Em 2012, no dia 11 de Setembro, Dia Nacional da Catalunha, outra manifestação, com cerca de 1.5 milhão de pessoas, exigia um referendo pela independência catalã, com o slogan Catalunya, nou estat d’Europa (“Catalunha, o novo Estado da Europa”).

Manifestação pela independência em Barcelona

Manifestação pela independência em Barcelona

A terceira grande demonstração popular foi a Via Catalã, uma corrente humana de 480 quilômetros de extensão, inspirada na Via Báltica, de 1989, durante a separação lituana da União Soviética. A Via Catalã também ocorreu no Dia Nacional e também exigia a independência catalã. Um grande fator de inspiração desses protestos foi, além da política, a economia. Para certos segmentos da sociedade catalã, a região paga para ser reprimida pela Espanha; a comunidade da Catalunha seria superavitária, de forma autônoma, mas sua economia seria apropriada pelo governo de Madri, que utiliza mal esses recursos.

Tal pensamento foi desencadeado pela crise de 2008, que afetou profundamente a economia espanhola. Mais uma demonstração da opinião popular se deu em pesquisa do Centre d’Estudis d’Opinió, em Setembro de 2013. Nas entrevistas feitas na comunidade da Catalunha, 54,7% dos que opinaram votariam favoravelmente a independência catalã e apenas 22,1% votariam pelo não; o restante é ou indiferente, ou defende apenas autonomia regional, um problema derivado do fato da Espanha não ser uma federação, como mencionado no texto sobre a Galícia.

E é necessário fazer um esclarecimento aqui. Muito do falado até agora se passou no centro da Catalunha histórica, cuja capital é Barcelona e a região hoje é uma comunidade espanhola. Para muitos nacionalistas catalães, entretanto, a Catalunha independente seria formada por todas as regiões que falam catalão e que faziam parte da Catalunha histórica; são os Països Catalans.

E se a Catalunha fosse realmente um país independente? Para isso, vamos somar todas as regiões dos Països Catalans, a região que, para os nacionalistas catalães, corresponderia à eventual República Catalã e onde se fala o catalão. São as comunidades espanholas da Catalunha, Valência, ilhas Baleares e La Franja de Aragão, mais o departamento francês de Pyrénées-Orientales e o Principado de Andorra. O novo país teria uma população de mais de 14 milhões de habitantes, em um território de cerca de 64 mil quilômetros quadrados; aproximadamente, a área da Estônia com uma população um pouco menor que a da Zâmbia.

Economicamente, teria um PIB aproximado de meio trilhão de dólares, uma economia maior que a da Noruega, a 23ª economia mundial. Falando em economia, a comunidade espanhola da Catalunha, sede dos protestos citados, cuja capital é Barcelona, possui a maior economia dentre as comunidades do estado espanhol contemporâneo. Sozinha, sua economia é maior do que a do Egito, e quase 19% de toda a economia espanhola. Os símbolos dessa Catalunha certamente seriam aurirrubros, sendo que o vermelho e o amarelo estão presentes nos símbolos de todas as regiões citadas.

Cores que, não por acaso, estão presentes no brasão do FC Barcelona, o mundialmente conhecido clube de futebol da cidade catalã, que carrega a identidade local em suas cores e seu lema: més que um club, “mais que um clube”, por representar toda a nacionalidade catalã. E, assim como na Galícia, a rivalidade política é espelhada na rivalidade esportiva. O Reial Club Deportiu Espanyol de Barcelona, ou Espanyol, é o rival do Barcelona não apenas nos campos.

O nome do clube explicita tanto o patrocínio real quanto sua perspectiva de uma nação espanhola (“espanyol”) e, em seus primórdios, o clube classificava o Barcelona como um time de “estrangeiros”. Seus membros fizeram uma petição antiautonomia em 1918 e, na Guerra Civil, combateram ao lado dos falangistas de franco. O Barcelona, por sua vez, durante a ditadura, via no Espanyol e seus torcedores uma cumplicidade com o regime autoritário de Madri, uma cicatriz que permanece até hoje.

E existe um movimento radical armado pela independência catalã? Na Espanha, não; a região é caso raro em que a autonomia, ou independência, é amplamente apoiada pela opinião popular e sem a existência de um movimento radical. Tais grupos armados, entretanto, existiram, mas, progressivamente, seus integrantes abandonaram a luta armada e se juntaram aos movimentos políticos pela independência.

Os movimentos armados foram Front d’Alliberament Català (Frente de Libertação Catalã), Exèrcit Roig Català d’Alliberament (Exército Vermelho de Libertação Catalã), o Exèrcit Popular Català (Exército Popular Catalão) e, principalmente, o Terra Lliure (Terra Livre), formado em 1978 e dissolvido em 1995; vários de seus membros se juntaram ao ETA, movimento armado basco. Tais grupos realizaram uma série de atentados à bomba, em que morreram pelo menos três pessoas, um deles um marinheiro dos EUA.

Grafite do Terra Lliure

Grafite do Terra Lliure

A falta de federalismo na Espanha e sua diversificada identidade histórica cria diversos movimentos regionais em busca de autonomia. O caso catalão é simbólico disso e muito especial. Especial pois não se trata uma ideia de uma minoria radical, ou derivada de uma guerra interna violenta. Trata-se de uma proposta com amplo apoio popular e que extrapola as fronteiras da região, abrangendo um território em dois países e cinco regiões diferentes, com um único idioma. E, o principal: essa população busca realizar seu desejo de forma democrática e pacífica. E talvez estejam muito perto de conseguir isso. Apenas uma grande reforma do Estado espanhol pode preservar o país como é hoje.

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Falando em reforma do Estado espanhol, leia aqui um relato em primeira mão das manifestações em Madri após a renúncia de Juan Carlos

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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