As fronteiras invisíveis da Europa: os mortos da Irlanda

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Caros leitores,

Próximo Sábado, dia 17 de Maio, será o 40º aniversário dos atentados de Dublin e Monaghan, na Irlanda. Em menos de duas horas, quatro carros-bomba explodiram sequencialmente nas duas cidades irlandesas, matando trinta e três pessoas e deixando cerca de trezentas feridas. Foi o dia mais violento do período de conflitos na Irlanda chamado de Troubles (“Problemas”), entre 1966 e 1998, e também foi o maior ataque terrorista da História da Irlanda e do Reino Unido.

ulsterOs conflitos na Irlanda são bem conhecidos mundialmente, inclusive no Brasil. Pelo fato de serem recentes, de terem contado com ampla cobertura jornalística por aqui, e também por serem bem divulgados pelos naturais de lá, como os músicos da banda U2. Um dos maiores sucessos da banda é Sunday Bloody Sunday, que fala sobre o Domingo Sangrento de 30 de Janeiro de 1972, em que vinte e seis pessoas foram baleadas por soldados ingleses, sendo cinco pelas costas. Catorze pessoas morreram.

Apesar de toda essa divulgação, o conflito irlandês ainda é superficialmente compreendido, por um erro grave. Ele é comumente simplificado como conflito religioso, entre católicos e protestantes. Não, esse é apenas um componente do problema. O choque na Irlanda é o desdobramento de um conflito internacional, da disputa entre dois países. Um conflito recente e mal resolvido, muitas vezes deturpado ou reduzido.

De um lado estão os unionistas, que buscam uma integração da Irlanda com a Inglaterra ou, ao menos, do Ulster, a região norte da ilha, onde hoje é a Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido. O lado oposto é formado pelos nacionalistas e republicanos, que defendem uma Irlanda unificada e soberana. A causa unionista é intimamente ligada ao protestantismo, mas a causa nacionalista e republicana, embora seja de maioria católica, não necessariamente levanta uma bandeira religiosa. Seu propósito é político, em contraste ao outro grupo político, mas que também usa a causa religiosa.

Essa causa religiosa da facção protestante está no estopim do período dos Troubles, já que o governo era formado por protestantes e endossava, ao menos de forma tácita, o preconceito contra os setores católicos da sociedade. Diferenças dos índices de postos de trabalho e de condições de moradia, por exemplo, além do controle e uso da força policial (oficialmente, a Irlanda do Norte não possui forças armadas, sua polícia desempenha todas as funções de força estatal) ser monopolizado pelos setores unionistas, ligados aos protestantes.

A gênese real do problema, entretanto, é nacional. Um povo que se vê como britânico, descendente dos colonos ingleses que migraram para a Irlanda e, posteriormente, com o apoio do governo local controlado pela Inglaterra, forçou a expulsão da população irlandesa. A diáspora irlandesa não gerou grandes repercussões no Brasil, pela distância geográfica, mas cerca de quatro milhões de irlandeses migraram para os EUA entre a segunda metade do século XIX e o começo do século XX.

Um dos motivos da queda vertiginosa da migração irlandesa no início do século XX foi justamente a formação de um governo irlandês autônomo, na década de 1920. Em 1922, a maior parte do país se separou, voluntariamente, do Reino Unido, em que toda a ilha era mantida (e, até certo ponto, por coerção), e formou a República da Irlanda. A independência foi conquistada após três anos de conflito contra o Reino Unido, que deixou cerca de dois mil mortos.

A independência não foi absoluta, e gerou a partição da ilha, nas fronteiras como conhecemos. As divisões sociais e políticas, entretanto, permanecem. A esperança era pôr um ponto final no conflito em 1998, com o Acordo de Sexta-Feira Santa. Embora o conflito armado tenha arrefecido consideravelmente, a disputa política, disfarçada ou deturpada como disputa religiosa, permanece. O status da Irlanda e da Irlanda do Norte certamente ainda será bastante debatido.

O aniversário dos atentados de 1974 é muito importante para reflexão sobre a História recente e sobre a atualidade. As fronteiras da Europa ocidental não são consolidadas e aceitas da forma como imaginamos, ou gostaríamos. Em Setembro teremos o referendo sobre a independência da Escócia, além de diversos outros exemplos. A interferência (ou invasões) das grandes potências, os conflitos nacionais e sociais, a discussão sobre o que é uma nacionalidade, tudo isso não é exclusividade dos Bálcãs, do Cáucaso ou da Europa oriental. Os mortos da Irlanda nos lembram disso.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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