As Fronteiras Invisíveis da Europa – Córsega

Caros leitores, hoje damos sequência na série de textos As Fronteiras Invisíveis da Europa. A região que é tema do texto de hoje é a pequena ilha mediterrânea que pertence à França, a Córsega. A ilha é mais famosa por ser o berço de Napoleão Bonaparte, além de cenário de uma das mais famosas aventuras de Asterix e Obelix. A ilha foi independente por um breve período de tempo, de 1755 até 1769. No período anterior, era parte da República de Gênova, o que está na gênese de um dos aspectos nacionalistas da ilha, a influência cultural italiana. Por exemplo, em seu breve período independente, a constituição da ilha era em italiano e em corso.

A localização da Córsega, entre a França, a Itália e a Sardenha. Ao lado, a bandeira da ilha.

A localização da Córsega, entre a França, a Itália e a Sardenha. Ao lado, a bandeira da ilha.

Em 1769, a ilha foi invadida e anexada pela França, já que Gênova “cedeu” os direitos sobre a ilha para a França; a empreitada militar francesa, entretanto, não foi sem resistência, e foram necessários vinte e quatro mil soldados para completar a anexação. Desde então, a ilha fez parte da França, tanto nos períodos Bourbon, nas Repúblicas francesas e nos Impérios napoleônicos. A partir do final da década de 1950, alguns episódios vão desencadear a explosão nacionalista na ilha. Os planos de construir um local de testes nucleares na ilha e a imigração de milhares de argelinos causada pela crise que levou à independência do país africano resultaram em protestos e confrontos entre locais nacionalistas e a polícia.

A Córsega é uma ilha pequena, de pouco mais de oito mil e quinhentos quilômetros quadrados. Suas principais cidades são Bastia e Ajaccio, capital regional e, no total, a ilha tem cerca de trezentos e vinte mil habitantes. O PIB nominal da ilha seria de cerca de apenas oito bilhões de Euros; um PIB aproximadamente igual ao da Macedônia e menor que o da Albânia. Dada a pequena população da ilha, entretanto, a renda per capita corsa é alta; sua economia é baseada no turismo e na produção mármore, frutas, vinhos, azeite e queijos. Ou seja, ao contrário de outros movimentos separatistas vistos nessa série, as razões econômicas não são as maiores no caso da Córsega.

As principais razões dos movimentos autonomistas e separatistas são culturais. Assim como no caso das ilhas italianas, o idioma corso e seu tratamento perante o governo é fator importante, já que ele não é ensinado nas escolas. A preservação da cultura e dos folclores locais também; em outro paralelo, a bandeira corsa possui o elemento principal em comum com a bandeira da Sardenha, o mouro vendado. Os movimentos locais podem ser divididos em dois. O movimento autonomista é representado pelo U Partitu di a Nazione Corsa (Partido da Nação Corsa, PNC), partido socialdemocrata que defende uma maior autonomia da região, de forma similar ao movimento normando. Rejeita a violência e possui onze cadeiras na Assembleia local. O partido é membro da Aliança Livre Europeia e já teve um representante no Parlamento Europeu.

As placas bilíngues da ilha costumam ter os letreiros em francês pichados.

As placas bilíngues da ilha costumam ter os letreiros em francês pichados.

Os dois grandes grupos políticos da França estão representados na Assembleia da Córsega, o bloco da esquerda, com vinte e quatro cadeiras e o governo da ilha, e a coligação de Sarkozy, ex-Presidente da França, com doze representantes. Ainda restam quatro assentos ao partido Corsica Libre, que defende a independência total da Córsega. O partido surgiu em 2009, com a fusão de três partidos independentistas, a Corsica Nazione, o Rinnovu e a Aliança Nacionalista Corsa. Ao contrário do PNC, o Corsica Libre não condena o uso da violência.

E qual o motivo de uma pequena ilha, que não é independente em quase duzentos e cinquenta anos, não seria uma gigante populacional nem econômica, estar nessa série de textos? Pois a Córsega possui um dos mais ativos movimentos militantes da Europa. No Brasil costuma-se dar muito destaque aos acontecimentos na Irlanda e no País Basco, mas a Córsega é o berço de um dos principais movimentos regionais armados da Europa. Os termos utilizados nessa série de textos costumam serem os mais neutros possíveis, mas a Fronte di Liberazione Naziunale Corsu (Frente de Libertação Nacional Corsa, FLNC) é, frequentemente, classificada como organização terrorista.

Integrantes na FLNC em foto enviada para a imprensa, junto com um manifesto.

Integrantes na FLNC em foto enviada para a imprensa, junto com um manifesto.

A FLNC surgiu em 1976 e está em atividade até hoje, embora algumas fragmentações tenham ocorrido no meio tempo, como a Armata Corsa (Exército Corso) em 1999, que já deixou de existir, e a FLNC-22 de Outubro, mais radical no uso da violência. Pouco mais de mês atrás, em 25 de Junho, a FLNC anunciou que iniciaria um processo de desmilitarização e que se transformaria em um partido político, mas isso ainda é incerto. A FLNC é conhecida principalmente por suas Noites Azuis, quando diversos atentados à bomba e ataques são executados na mesma noite. Um dos motivos da FLNC conseguir arregimentar bastante apoio na ilha é devido seus ataques normalmente terem como alvo instituições e construções.

Desde 1975, a FLNC realizou mais de mil ataques e atentados. No ano de 1980, trezentos e setenta e cinco atentados foram de autoria da FLNC. A Noite Azul de Dezenove de Agosto de 1983 foi a mais violenta, com noventa e nove ataques no total. Os atos costumam ser contra instituições do governo francês na ilha, como prédios administrativos, correios e delegacias; instituições do governo francês nas cidades costeiras, como Toulon e Marselha; contra casas de veraneio de luxo de “continentais”, ou seja, franceses; e contra traficantes de drogas. Na moda da máfia romântica de Hollywood, a FLNC não tolera o tráfico de drogas na ilha, executando quem for flagrado em atividades do tipo.

Em relação às casas de veraneio, os militantes da FLNC costumam retirar as pessoas de dentro da casa antes de detonar as bombas. Ambientalistas afirmam que isso contribuiu para a Córsega não virar uma Cote d’Azur e preservar suas paisagens naturais, evitando a especulação imobiliária. Como se vê, um debate polêmico, afinal, ainda se trata de um ato violento. O caso mais famoso da FLNC foi em 1998, quando Yvan Colonna assassinou o governador da ilha, Claude Érignac, no dia Seis de Fevereiro; ao menos outras sete mortes, desde 1975, foram de autoria política da FLNC. Colonna foi preso em 2003 e condenado à prisão perpétua, mas tornou-se um símbolo da causa corsa. Ele está presto em Toulon e diversos ataques da FLNC tinham como reinvindicação a transferências de presos para a ilha.

Faixa pedindo a libertação de Yvan Colonna.

Faixa pedindo a libertação de Yvan Colonna.

Em 2003 foi realizado um referendo perguntando sobre a autonomia da ilha; a negativa de mudanças venceu com 51% dos votos, contra 49%; uma diferença de 2190 votos. Os nacionalistas afirmam que essa parcela representa justamente os “continentais” que residem na ilha. A autonomia da ilha provavelmente é questão de tempo, já que a presença de políticos autonomistas na Assembleia local provavelmente resultará em mais pressão política ou até mesmo um novo referendo. Resta saber se o histórico movimento armado da ilha se contentará com apenas isso.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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