As fronteiras invisíveis da Europa: os setenta anos do Dia-D

Caros leitores, o título pareceu estranho? Afinal, o que uma data como os setenta anos do Dia-D teria a ver com as fronteiras invisíveis da Europa, tema de uma série de textos aqui no blog? Aparentemente, nada. Na verdade, não há correlação direta, apenas geográfica. Espero que perdoem essa brincadeira, uma forma de continuar a série publicada sempre às sextas-feiras, e homenagear a data de hoje. Vocês vão entender a ligação.

Para os que andaram em outro planeta, o Dia-D foi em Seis de Junho de 1944. O que foi o Dia-D? A invasão da costa da Normandia, na França, então ocupada pelo III Reich, pelas forças dos Aliados Ocidentais. A operação, codinome Overlord, iniciou a liberação da Europa Ocidental; é certo exagero dizer que foi no Dia-D que a Alemanha nazista “começou a acabar”, já que a União Soviética já estava no meio do seu rolo compressor no leste. Sem dúvidas, entretanto, o Dia-D teve grande importância e valor para a vitória Aliada no conflito. Além disso, estamos falando da maior operação humana da História.

diadExagero do autor? Estamos falando de mais de cinco mil navios, mais de quatro mil aviões, cerca de doze mil veículos de todos os tipos e a travessia de quase um milhão e meio de homens pelo Canal da Mancha, sendo cento e sessenta mil nas primeiras vinte e quatro horas. Uma operação que envolveu todos os espectros; ar, terra, mar, paraquedistas, desembarques anfíbios. Envolve tantos detalhes que seriam impossíveis de serem cobertos aqui.

É difícil dizer quantos veteranos do Dia-D estão vivos. Segundo o Departamento de Veteranos dos EUA, a idade média de um veterano, hoje, é de 95 anos. Muitos desses estão reunidos para diversas cerimônias e celebrações, hoje e nos próximos dias, na Normandia, local dos desembarques, na costa norte da França.

A Normandia, hoje, é dividida em duas regiões administrativas da República Francesa, a Baixa Normandia e a Alta Normandia. Somadas as duas regiões, temos uma Normandia com cerca de trinta mil quilômetros quadrados e três milhões e meio de habitantes, e um PIB, somado, de cerca de 86 bilhões de Euros. A divisão se deu recentemente, em 1957, e até hoje gera certo debate.

O Mouvement normand (Movimento Normando) é um movimento político de direita, formado 1971. Possui algumas ligações com a Frente Nacional, conhecido movimento da direita radical francesa. Seu líder é Didier Patte, ativista ligado aos movimentos culturais pangermânicos e nórdicos, com temas como neopaganismo e rejeição ao Cristianismo. E seriam justamente os elementos nórdicos que tornariam a cultura normanda única, aos olhos do Mouvement normand.

Hipotética bandeira da Normandia, proposta pelo Mouvement normand, com inspiração nórdica.

Hipotética bandeira da Normandia, proposta pelo Mouvement normand, com inspiração nórdica.

Fazendo uma contextualização histórica, a região da Normandia, na Alta Idade Média, era local de ataques e invasões vikings, após a morte de Carlos Magno. A miscigenação entre os escandinavos e a o estabelecimento de um reino vassalo na região (o Ducado da Normandia, em 911) resultou no povo normando, uma mistura de escandinavos, saxões, gauleses e francos. Obviamente, não é fácil comprimir trezentos anos de História em um parágrafo, mas isso explica alguns aspectos pitorescos da sociedade normanda de hoje.

E qual seria a proposta do Mouvement normand? A unificação das duas regiões administrativas atuais em apenas uma região autônoma. O governo local de tal região teria mais autoridade que as regiões administrativas, mas o principal foco do movimento é cultural. O reconhecimento da “cultura normanda” como única e também parte do patrimônio histórico francês, garantindo sua preservação; ou seja, para esses ativistas, ocorre um “aculturamento” da Normandia, eclipsada por elementos gauleses e tipicamente franceses.

O Mouvement normand não é um movimento separatista, portanto. Isso não quer dizer que não exista um regionalismo forte, tampouco que não existem movimentos separatistas franceses. É justamente esse o propósito dessa série de textos, explicitar que as fronteiras da Europa ocidental, normalmente tidas como normalizadas, também possuem suas distensões. E quais seriam os movimentos separatistas na França? Com certa relevância, na Bretanha e na Córsega, ilha mediterrânea. Além desses, dois conhecidos territórios estão partilhados entre França e Espanha; são o País Basco e a Catalunha.

Esses serão temas de textos vindouros. Hoje, todas as homenagens e a lembrança da História para os eventos de setenta anos atrás.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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