As Fronteiras Invisíveis da Europa: as ilhas italianas

Caros leitores, como prometido na sexta-feira passada, dou sequência à série Fronteiras Invisíveis da Europa. O texto de hoje não falará de uma região específica, mas de dois movimentos separados, que possuem características em comum. As causas dos movimentos, o país atual e a geografia. São as ilhas italianas do Mediterrâneo: Sardenha e Sicília.

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A Sicília é uma das ilhas mais conhecidas na cultura ocidental. Tanto na História, como, por exemplo, local de conflitos entre romanos, gregos e cartagineses, quanto na cultura popular, já que foi o berço de muitos dos imigrantes que vieram para a América, no século XIX e XX; movimento migratório constantemente mostrado em filmes de mafiosos ou em novelas, dentre outras referências.

Essa diáspora de sicilianos, inclusive, é um dos argumentos dos nacionalistas locais: a comunidade siciliana seria muito maior, e muito mais rica, do que se considerarmos apenas os moradores atuais da ilha. Seria necessário, e justificado, então, um movimento que representasse essa grande comunidade.

A Sicília é uma ilha de pouco mais de vinte e cinco mil quilômetros quadrados, com uma população de apenas cerca de cinco milhões de pessoas. Oficialmente, é parte da Itália desde 1861. Seu PIB nominal é de pouco menos de noventa bilhões de Euros. Economicamente, a ilha é notável por sua agricultura, graças aos seus solos férteis, e pelas indústrias petrolíferas e navais. Além disso, os setores tecnológicos e turísticos são importantes na economia siciliana; de qualquer forma, não se trataria de um titã econômico, caso independente.

Bandeira proposta da Sicília independente

Bandeira proposta da Sicília independente

Qual seria então a base do nacionalismo siciliano? Como visto em outro texto, o confuso e obsoleto Estado italiano, que acaba fomentando demandas de autonomia regional. No caso da Sicília, a base dessa demanda é cultural. O idioma siciliano, assim como tradições e folclores locais. Não existe um movimento armado nas ilhas italianas, e a representação partidária do nacionalismo siciliano é principalmente partidária.

De 2008 até 2012, o Presidente da Sicília (equivalente ao nosso governador estadual) foi Raffaele Lombardo, do Partido dos Sicilianos (Partito dei Siciliani), um partido autonomista de direita. O partido separatista da Sicília é o Movimento pela Independência da Sicília (Movimento per l’Indipendenza della Sicilia), cuja origem está na década de 1940, quando teve votações expressivas. Nas últimas eleições, em 2012, cerca de 18% do eleitorado votou em partidos regionalistas.

Na Sardenha, a situação política é mais intensa, assim como fragmentada. Do final da Idade Média até a unificação italiana, em 1860, a Sardenha passou por diversas soberanias, além de diversos conflitos com os povos árabes do norte da África. A ilha foi parte dos impérios da Espanha e, posteriormente, da Áustria. Foi invadida pela França em mais de uma ocasião, e, posteriormente, foi da Casa de Savóia, até a unificação italiana.

A Sardenha é uma ilha de cerca de vinte e quatro mil quilômetros quadrados, com uma população de aproximadamente um milhão e setecentos mil habitantes. Seu PIB nominal é de cerca de trinta e quatro bilhões de euros. Em outras palavras, a Sardenha seria um país pequeno, em todos esses parâmetros; entretanto, seu PIB per capita é maior que o da Sicília, cerca de vinte e dois mil euros. Sua economia é baseada no turismo e nos serviços, ligados de forma direta ou indireta ao turismo.

A raiz do nacionalismo sardenho também é cultural. O sardu é o principal idioma falado na ilha, que também têm regiões onde são falados o corso e o catalão. As demandas por autonomia e regionalismo também são muito semelhantes às sicilianas, com um detalhe histórico. O movimento regionalista foi duramente reprimido pela ditadura fascista de Mussolini, o que gerou um histórico de lutas de esquerda e deu mais força aos movimentos regionalistas e separatistas na ilha.

Tradicional bandeira sardenha, que consiste da cruz de São Jorge com quatro mouros vendados, representando os conflitos contra os árabes, virados para a esquerda. A bandeira atual possui os mouros virados para a direita.

Tradicional bandeira sardenha, que consiste da cruz de São Jorge com quatro mouros vendados, representando os conflitos contra os árabes, virados para a esquerda. A bandeira atual possui os mouros virados para a direita.

O principal partido regionalista sardenho é o Partido da Ação Sardenha (Partito Sardo d’Azione), que tinha mais de 30% dos votos na década de 1920. Retornou ao cenário político nos anos 1980 e, em 1984, teve 13,8% dos votos para o conselho regional e elegeu o Presidente, Mario Melis, que ficou no cargo até 1989. Hoje, de acordo com a Universidade de Cagliari (cidade capital da ilha), cerca de 60% dos sardenhos defendem autonomia da ilha, e quase 40% defendem a independência da Sardenha. A parcela da população que não possui objeções à situação atual é quase ínfima.

Isso, entretanto, não se transfere numa representação política em massa. Os partidos locais costumam ser “nanicos”, e não conseguem competir com os grandes partidos nacionais. Além disso, a fragmentação do espectro político, com diversos partidos representando causas regionalistas ou independentistas, contribui para esse cenário de baixa representação. Dezessete partidos das eleições de 2014 tinham causas regionais, mas apenas oito conseguiram eleger representantes para o conselho. Alguns dos partidos

Na Sardenha, assim como na Sicília, não há movimento armado regional. Se compararmos com a Padania, o outro movimento italiano analisado nessa série, veremos que os motivos são diferentes. No norte italiano, as razões do regionalismo são em maior parte, de ordem econômica. Nas ilhas mediterrâneas, a repressão ou supressão das identidades regionais, como idiomas, é o principal motor por trás desses movimentos. Em comum, novamente, a necessidade de uma Itália federalista.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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