As fronteiras invisíveis da Europa: Galícia

Caros leitores,

Decidi fazer do post sobre a situação na Irlanda a inauguração de uma nova série. Infelizmente, ainda estou devendo a conclusão da série sobre Brasil e o senso comum e a continuação sobre a Alemanha no entre-guerras, mas vamos lá. Não ficarei devendo, vide a série inaugural sobre a Iugoslávia que foi até o fim. A razão dessa nova série é a perspectiva, comum, de que problemas de ordem nacionalista ou separatista são características de regiões instáveis, como os Bálcãs ou o leste europeu. A própria Iugoslávia seria um exemplo disso, ou a atual crise na Crimeia. Esse pensamento, entretanto, está errado.

Existem diversas fronteiras europeias que são suprimidas, absorvidas, tensionadas, de acordo com o momento histórico. Nos últimos anos, algumas dessas fronteiras se acalmaram, outras ganharam contraste. São as fronteiras invisíveis da Europa. No caso de hoje, a Galícia. A Galícia é uma região autônoma da Espanha, na costa noroeste do país, ao norte de Portugal. Sua capital é Santiago de Compostela, nome muito conhecido pela peregrinação católica que leva seu nome. Outras grandes cidades da região são Vigo e A Coruña, um dos principais portos europeus. A população da região é de pouco menos de três milhões de pessoas, cuja maioria fala galego em seu cotidiano, uma língua próxima do português.

galiciaComo em vários movimentos políticos, o espectro galego é variado, gradual; basicamente, um grupo defende uma maior autonomia dentro da Espanha (lembro-os que a Espanha não é uma federação), o que eventualmente levaria à independência, de forma gradual. Outro grupo defende uma separação imediata em uma Galícia como Estado soberano. É uma discussão inclusive conceitual, válida para diversas outras regiões: alguns defendem a “nacionalidade”, outros, a “nação”. Além disso, varia também a forma de integração e diálogo com Portugal, pela proximidade geográfica e linguística. Existem galegos que defendem a Galícia como parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

As origens do nacionalismo galego estão, como a maioria dos sentimentos nacionalistas, no século XIX. Seu resultado seria o Estatuto de Autonomia de 1936, que foi suprimido pela Guerra Civil Espanhola e a subsequente ditadura franquista. O governo de Francisco Franco foi o maior incentivador dos nacionalismos e regionalismos espanhóis, justamente pela sua incompetência e autoritarismo do regime. Ao proibir as expressões culturais regionais e os idiomas que não o castelhano, Franco fez crescer a vontade de manter tais aspectos vivos e contribuiu para a radicalização dos movimentos regionais. Se o galego foi proibido nas escolas e nos documentos oficiais, todos então o praticavam dentro de suas casas, o que leva à maioria que fala galego em seu cotidiano hoje.

Após o final do regime franquista, entrou em vigor o Estatuto de Autonomia de 1981 (você pode consultar, na íntegra, aqui. Está em galego, mas dá para compreender). O documento estabelece os parâmetros da autonomia galega, como símbolos, direito do uso do idioma, aspectos administrativos e judiciários locais, além do governo regional: a Xunta de Galícia, que é o executivo e o administrativo; o Parlamento da Galícia, eleito por sufrágio universal; e a Alta Corte da Galícia, do Judiciário. O Parlamento elege o Presidente da Xunta, como em um sistema parlamentarista; como a autonomia galega é um poder derivado, formalmente o Presidente é nomeado pelo Rei da Espanha, o que gera algum desconforto nos setores nacionalistas galegos. Além desses, existem as autoridades municipais e a representação galega no Legislativo nacional espanhol.

Após as últimas eleições, a maioria do Parlamento ficou com o Partido Popular de Galícia, ligado ao Partido Popular nacional, o maior partido de centro-direita da Espanha. A proposta do partido é de uma Galícia autônoma dentro da Espanha, aproximadamente como a situação atual. Outros 24% do Parlamento estão ocupados pelo Partido Socialista de Galícia, ligado ao Partido Socialista Obrero Español, o outro grande partido político espanhol, de centro-esquerda. O PSG defende uma Galícia completamente autônoma dentro de uma Espanha federalista. Outros 22% do Parlamento estão com a Alternativa Galega de Esquerda e o Bloque Nacionalista Galego, que defendem a independência galega. Ou seja, não existe uma posição política homogênea na Galícia; além dos citados, existem outras organizações menores também.

Também está presente a resistência armada. Historicamente, a organização armada separatista na Galícia era a Loita Armada Revolucionaria (Loita é luta em galego), formada em 1978 e dissolvida em 1984. Atualmente, existe a Resistência Galega (REGA), formada em 2005. Você pode ler seu manifesto, em galego, aqui. O grupo executou diversos atentados à bomba contra bancos, viaturas policiais e tribunais. De acordo com relatório da polícia do mês passado, a rede da REGA conta com cerca de mil pessoas, com quinze pessoas na liderança do movimento. A situação, considerando feridos e destruição, nem de longe se compara à Irlanda ou outras regiões da Espanha, como o País Basco; mas é digno de nota que é um movimento armado muito recente, o que demonstra que esse tipo de conflito não está “superado”.

regaComo em muitas regiões, a rivalidade política galega é espelhada, simbolizada, no esporte; mais precisamente, no futebol (caro leitor que acredita que futebol é sinônimo de alienação, em breve uma série de textos sobre isso). O Real Club Deportivo de La Coruña é o clube da cidade de Corunã, ligado aos grupos de direita da região, como demonstrado pelo nome “Real”, pela coroa em seu brasão, símbolo de apoio monárquico em sua fundação, além da grafia em castelhano da cidade portuária. Seu principal rival é o Celta de Vigo; oficialmente Real Celta de Vigo, mas o “Real” foi suprimido justamente para evitar laços com a monarquia. O uniforme do Celta é nas cores da bandeira galega, e seu símbolo é a Cruz de São Tiago (Santiago), símbolo muito forte na região.

A Galícia é um ótimo exemplo de região com um pouco conhecido, mas forte, debate entre autonomia regional, independentismo, separacionismo, e a negação dessas correntes políticas. Exatamente por isso a identidade galega serve bem para demonstrar as fronteiras invisíveis da Europa, não tão estabilizadas quanto se acredita. Uma luta armada extremamente recente, um país ainda em situação econômica delicada e elementos característicos da região, como o idioma, fazem com que a Galícia mereça atenção nos anos vindouros, provavelmente marcados por um fortalecimento do nacionalismo e das identidades regionais pelo mundo.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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7 Comentários

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  • beçnedito-carlos lemes

    Sou brasileiro. Já Estive na Galiza em três oportunidades. Conheci e viajei pelas quatro províncias galegas. Adorei todas particularmente os mariscos das Rias Baixas, uma delícia de petiscos. Estive na Coluna de Hércules na Curunha, visitei o Ferrol, deambulei pela muralha romana de Lugo e finalmente adorei, apreciei e ameir Ourense os Cafés e os Restaurantes como San Miguel e Zarampalho o Pingado. Maravilha.

    Em geral, falei sempre o português culto do Brasil, o que no meu caso espécifico é natural por ser luso-descendente pelo lado materno, oriundos de Chaves no TRÁS-OS-MONTES. Não obstante, tive alguns contratempos com um ou outro garçom, em restaurante que recusava entender-me como em Betanzos ondo o sujeito preferiu que falasse alemão ao português. Pode?!!! Só pode ser fascista franquista e esquizóide.Notei que um casal e idosos ao lado ficaram escandalizados. Achei ótimo já que pude mostrar o hitlerzinho toupeira que meu alemão era muito superior ao dele. Isto também aconteceu em Comostela também num restaurante onde o tipinho preferiu falar em spanglês, tal a péssima qualidade de sua (dele) pronúncia.

    Nos fora isto, os passeios foram magníficos, a maioria das pessoas eram simpáticas e ficavam felizes quando eu dirigia-lhes a palavra em português, principalmente nas pequenas cidades povoados onde eu adorava tomar um café ou fazer uma refeição leve. Nunca vou esquecer o Restaurante “A FONTE” creio que fica na província d e Pontevedra, onde a proprietária até serviu-me um licor de brinde, por eu ter falado sempre em português, enquanto outros hóspedes portugueses ou brasileiros GANIAM em portunhol.Ridículos. O lamentável que encontravam muito mais dificuldades em serem compreendidos. AH!AH AH! Grande abraços a todos os galegos honestos e decentes que respeitam suas origens seculares, sua cultura, seus antepassados e que amam a GALIZA.

    Benedito-Carlos L e m e s

  • Eu sou galego, da cidade de Vigo e descobri hoje este blogue. Esta muito bem. Respeito à luta armada, a Resistencia Galega atopa-se algo inativa ultimamente e acho que nao representa perigo na Galiza. À 25 de setembro há eleiçoes legislativas na Galiza e possivelmente darao uma visao mais atual da situaçao do nacionalismo, mas sim, é certo que nao há que esquecer a fronteira existente entre a Galiza e a Espanha.

    Peço desculpa pelo mau português.

  • Quero lembrar também que a luta armada nao é a soluçao a nenhum conflito.

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