ONU 2017: A política externa neo-otomana de Erdoğan

Caros leitores e ouvintes do Xadrez Verbal, ontem, dia Dezenove de Setembro de 2017, iniciou-se mais um Debate Geral da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Buscando retomar o trabalho que foi realizado aqui nesse espaço nos anos de 2013, 2014 e 2015, farei uma cobertura especial dos principais discursos e temas abordados pelos líderes mundiais perante a comunidade internacional. Tudo será compilado em uma categoria especial, tal qual nos anos citados; infelizmente, em 2016, não consegui executar essa cobertura especial.

Eu firmemente acredito que estar bem informado sobre a comunidade internacional é essencial nos tempos que vivemos, e uma ótima circunstância é a AGNU, quando cada país expõe as suas pautas, as suas prioridades e interesses. Os discursos devem ser vistos sempre com um olhar crítico, mas são sempre reveladores. A cobertura é de especial interesse para alunos de cursos como Relações Internacionais e similares, claro; se for seu caso, não esqueça de divulgar os textos. Abrimos essa cobertura com o discurso da Turquia e, ainda hoje, seguirão textos sobre o discurso de Trump e de Benjamin Netanyahu.

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A POLÍTICA EXTERNA NEO-OTOMANA DE ERDOĞAN

Um dos líderes mundiais que falou no primeiro dia do Debate Geral da 72ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas foi o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan. O país e sua região são foco de atenção constantemente aqui no Xadrez Verbal, especialmente no podcast semanal. Quase três anos atrás, aqui nesse espaço, foi comentado brevemente sobre uma mudança de rumo na política externa turca. Do foco ocidental, como membro da OTAN e candidato à admissão na União Europeia, para o foco regional, o Oriente Médio, os antigos domínios otomanos e uma política externa que busque associar-se com a identidade do Islã. Essa política externa é chamada de neo-otomana; Yeni Osmanlıcılık em turco. Daquele texto para hoje muita coisa mudou, especialmente em consequência dos eventos de Julho de 2016 na Turquia. A política externa neo-otomana, entretanto, não é uma delas, e foi o pilar da fala de Erdoğan.

O discurso turco teve quatro eixos principais. Primeiro, o Islã, mencionado logo nos primeiros momentos, com uma crítica ao sentimento de “animosidade” contra o Islã e xenofobia. Ao se referir ao processo de paz entre Israel e Palestina, Erdoğan expressou seu apoio ao Estado Palestino e chamou atenção para a crise em AI Haram AI Sharif; o mesmo lugar que israelenses chamam de Monte do Templo. Muitos países usam ambas as terminologias, para evitar conflitos, já que, em um choque de narrativas, a nomenclatura usada pode denotar o lado que se favorece, como é o caso turco. O Islã também foi tema ao comentar a perseguição contra os Rohingya, que fogem para Bangladesh fugindo de limpeza étnica pelas forças de Mianmar. O tema foi abordado em detalhes no mais recente podcast; como breve recapitulação, tanto a maior parte da população de Bangladesh quanto os rohingya são muçulmanos, sendo esse um dos fatores de sua perseguição, especialmente por grupos budistas radicais.

O segundo eixo foi de críticas aos organismos e organizações internacionais. A Turquia defendeu sua perspectiva de necessidade de reforma da ONU, repetindo o lema de que “O mundo é maior que 5”, referência aos integrantes permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Sobre as relações com a UE, ao criticar a falta de apoio da comunidade internacional para lidar com a crise dos refugiados sírios e iraquianos, Erdoğan frisou: “Especialmente a UE”. Segundo o presidente turco, seu país já gastou mais de trinta bilhões de dólares em ajuda aos refugiados; Enquanto isso, a UE teria enviado apenas 820 milhões de Euros das duas parcelas, cada uma de três bilhões de Euros, prometidas. Além disso, as Nações Unidas teria contribuído com 520 milhões de dólares. Finalmente, Erdogan citou dados da OCDE sobre a Turquia; ao colaborar com seis bilhões de Dólares em ajuda humanitária em 2016, a Turquia foi o segundo país que mais contribuiu e o maior em relação ao PIB.

O terceiro eixo foi de enfatizar a cooperação regional turca, que se soma e se confunde com o quarto eixo, a garantia dos interesses do governo e do Estado turco. Ao comentar a participação turca nas conversas de Astana para solução da Guerra Civil Síria, o líder turco também comentou que “uma civilização está sendo aniquilada”; provável referência aos turcomanos, povo etnicamente próximo aos turcos. Ao comentar o combate ao Daesh e ao terrorismo, Erdoğan colocou as organizações curdas, como o PKK, no mesmo patamar, além de usar a sigla FETO em relação ao movimento Hizmet, de Fethullah Gülen. Cabem duas ressalvas. O PKK, assim como diversas outras organizações curdas que adotam a bandeira da independência ou autonomia, são considerados terroristas especificamente pelo governo turco. E a sigla FETO, que significaria algo como “Organização Terrorista dos Fethullahistas/seguidores de Fethullah”, é usada exclusivamente pelo governo, não pela própria organização.

Continuando, ao defender a solução pacífica de conflitos, citou que a integridade territorial de Geórgia e do Azerbaijão são chave para a estabilidade do Sul do Cáucaso. A aliança entre azeris e turcos não é recente, e ao citar o conflito de Nagorno-Karabakh, a postura turca não é de apenas apoiar um aliado, mas também de rejeitar o fortalecimento de um adversário histórico, a Armênia (caso queira entender mais sobre essa questão, ouça o podcast especial sobre a Armênia). Ao citar a Abcázia e a Ossétia do Sul, conflitos que envolvem a Geórgia, a Turquia abre margem para uma interpretação contraditória. Por um lado, o interesse em evitar legitimar ações que são vistas como agressões russas e também não criar o precedente de reconhecer uma região que se separe de forma unilateral; e isso, futuramente, seja usado contra a Turquia no caso curdo. Ao mesmo tempo, a Turquia mantém relações extra-oficiais com ambas as regiões. No caso da Abcázia, relações bastante próximas, já que, como herança do período otomano, a maior comunidade de abcázios no exterior reside na Turquia.

Retomando o discurso turco, o friso de “integridade territorial” foi feito repetidas vezes, clara preocupação com a questão curda. Uma das menções foi justo sobre os curdos iraquianos, que anunciaram um referendo simbólico para breve. As palavras utilizadas pode até ser interpretadas como ameaça: “Passos como demandas por independências que podem causar novas crises e conflitos na região devem ser evitados. Nós, então, chamamos ao Governo Regional Curdo no Iraque para abortar a iniciativa que eles lançaram nessa direção. Ignorar essa postura clara e determinada da Turquia no assunto pode levar ao processo que deprivará o Governo Regional Curdo no Iraque até das oportunidades que eles desfrutam atualmente.” Erdoğan também destacou o papel de seu país na crise do Qatar; simultaneamente, afirmou esperar que a Arábia Saudita, “que vemos como o irmão mais velho da região do Golfo”, mostre sincera vontade sobre o problema. Também lamentou o fracasso do processo de paz cipriota, pela “postura incompreensível” dos cipriotas gregos. Em suma, a esmagadora maioria do discurso de Erdoğan foi sobre o entorno da Turquia e os interesses regionais do país. Nenhuma palavra sobre entrada na UE ou temas “Ocidentais”. Uma linha-mestra de política externa clara e concisa.

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Os discursos podem ser lidos, ouvidos e assistidos, na íntegra, no site do Debate Geral.

Os áudios são disponibilizados no idioma original e nos seis idiomas oficiais da ONU; ou seja, uma boa oportunidade também para praticar o aprendizado de línguas.

Caso o leitor fique com dúvidas ou interesse especial, recomendo sempre consultar o discurso original na íntegra.

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Caso queiram consultar as coberturas especiais dos anos anteriores, assim como outras categorias especiais de textos, estão aqui.


assinaturaFilipe Figueiredo é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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