ONU 2017: O Brexit e Gibraltar

Caros leitores e ouvintes do Xadrez Verbal, ontem, dia Dezenove de Setembro de 2017, iniciou-se mais um Debate Geral da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Buscando retomar o trabalho que foi realizado aqui nesse espaço nos anos de 2013, 2014 e 2015, farei uma cobertura especial dos principais discursos e temas abordados pelos líderes mundiais perante a comunidade internacional. Tudo será compilado em uma categoria especial, tal qual nos anos citados; infelizmente, em 2016, não consegui executar essa cobertura especial.

Eu firmemente acredito que estar bem informado sobre a comunidade internacional é essencial nos tempos que vivemos, e uma ótima circunstância é a AGNU, quando cada país expõe as suas pautas, as suas prioridades e interesses. Os discursos devem ser vistos sempre com um olhar crítico, mas são sempre reveladores. A cobertura é de especial interesse para alunos de cursos como Relações Internacionais e similares, claro; se for seu caso, não esqueça de divulgar os textos.

O texto de hoje analisa a presença do tema Brexit nos discursos. Não sei se teremos mais textos ainda hoje, pois as energias serão centradas no podcast do Xadrez Verbal, que também abordará os temas.

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O BREXIT E GIBRALTAR

Dos discursos dos principais países da Europa Ocidental feitos no Debate Geral da 72ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas até o momento da publicação deste texto, apenas um explicitamente falou do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. O do Ministro de Relações Exteriores da Espanha, Alfonso María Dastis Quecedo. E não se tratava de preocupações econômicas ou do impacto interno na UE, mas de buscar negociações sobre a situação de Gibraltar.

“A União Europeia é uma das mais admiráveis construções legais e políticas a surgir após a Segunda Guerra Mundial. Trouxe paz e prosperidade sem precedentes para a Europa. A decisão do Reino Unido de sair da União nos entristece, mas desejamos trabalhar para que as negociações com um novo relacionamento entre o Reino Unido e a União termine com um acordo que preserve uma relação próxima e frutífera entre ambas as partes.

No contexto do Brexit, a Espanha fez uma generosa proposta para resolver a questão de Gibraltar. Combina a inabalável reivindicação de soberania espanhola sobre a colonia, com um estatuto que beneficia os habitantes da Rocha para que eles continuem a desfrutar das vantagens da associação com a UE. Nós convidamos o Reino Unido a negociar um acordo baseado nesses pontos, que acabe com um anacronismo que parece completamente deslocado no contexto das excelentes relações entre nossos dois países.”

Torna-se uma boa oportunidade para contextualizar a disputa sobre Gibraltar. A estratégica região das Colunas de Hércules, o portão que liga o Mediterrâneo ao Atlântico, é posse britânica desde 1704. Em repetidos tratados, sua cessão pelos espanhóis foi ratificada. O irredentismo espanhol sobre o território ganha força na ditadura fascista de Francisco Franco, general conservador e nacionalista que governou a Espanha de 1936 até sua morte, em 1975. Desde então, o tema permanece na política externa espanhola. Já o Reino Unido descarta uma negociação bilateral sobre o tema, afirmando que a decisão é de soberania da população de Gibraltar.

Gibraltar é um território autônomo. Possui determinado grau de autonomia interna e sua soberania em temas externos, o que inclui defesa, é exercida pelo Reino Unido. Por duas vezes sua população rejeitou, pelo voto, propostas espanholas. Desde 2006 sua Constituição afirma a soberania popular. O parlamento local define o tema como “Gibraltar quer uma relação boa, de vizinhança e Europeia com a Espanha; Gibraltar pertence ao povo de Gibraltar e não é nem uma reivindicação espanhola nem britânica para ser concedida”.

A disputa e a polêmica ganhou força com o Brexit. A maior parte dos trinta mil habitantes de Gibraltar transita livremente e de forma cotidiana para a Espanha; Gibraltar é uma cidade pequena, cuja importância se deve ao seu local geográfico. Sendo assim, seus habitantes votaram de acordo com seus interesses, pela permanência do Reino Unido na União Europeia. Ao ser constatada a vitória pela saída britânica UE, tivemos duas reações. A população gibraltina se viu frente ao possível isolamento geográfico e a Espanha enxergou uma brecha para retomar a pressão por uma negociação que envolva a cessão do território. O Reino Unido continua, e continuará, rejeitando essa negociação, usando a vontade popular dos habitantes como escudo.

E o discurso da Primeira-ministra Theresa May, não abordou o tema do Brexit? Não, sequer de forma indireta. No início, May defendeu o livre comércio e colocou que o protecionismo cria uma falsa crença de que isso defende os interesses do povo, mas apenas isso. A maior parte de seu discurso foi sobre questões de terrorismo e humanitárias, como refugiados, além dos pontos de tensão internacionais, como Síria e Coreia do Norte. Tivemos menções implícitas. O discurso do Premiê italiano, Paolo Gentiloni, mencionou que a UE teve que sair do seu “ambiente controlado” dos últimos dois anos para enfrentar “alguns dos maiores desafios”. Falou de um novo ímpeto europeu e italiano perante a União, e que trarão o projeto europeu próximo aos cidadãos e suas necessidades. E esse projeto fortalecerá o papel mundial da UE.

O Vice-chanceler alemão, Sigmar Gabriel, também falou implicitamente do Brexit; um dos próximos textos dessa cobertura especial será sobre o discurso alemão. A fala comentou das dificuldades de transformar antigos inimigos em amigos, e que isso faz com que a União Europeia hoje seja a fonte da estrutura das políticas alemãs. “Muitas vezes não é um caminho popular, e é necessária considerável coragem política”, uma alfinetada direta. “Nós alemães somos gratos aos corajosos povos da França, Bélgica, Luxemburgo, Itália e outros países na Europa”, uma leve menção ao fortalecimento do núcleo histórico da UE. Mark Rutte, Premiê dos Países Baixos, que derrotou a oposição eurocética, sequer mencionou o tema, assim como Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu. A discussão e tensão do assunto esfriou, não é mais uma preocupação. Um casal que se resignou com o divórcio e aceitou como um fato, restando apenas a negociação jurídica feita por representantes.

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O texto sobre o discurso da Turquia está aqui; o de Israel pode ser lido aqui; o dos EUA está aqui; o do discurso russo pode ser lido aqui.

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Os discursos podem ser lidos, ouvidos e assistidos, na íntegra, no site do Debate Geral.

Os áudios são disponibilizados no idioma original e nos seis idiomas oficiais da ONU; ou seja, uma boa oportunidade também para praticar o aprendizado de línguas.

Caso o leitor fique com dúvidas ou interesse especial, recomendo sempre consultar o discurso original na íntegra.

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Caso queiram consultar as coberturas especiais dos anos anteriores, assim como outras categorias especiais de textos, estão aqui.


assinaturaFilipe Figueiredo é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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