Dezesseis guerreiros: Erdoğan e o neo-otomano

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O texto de hoje do Xadrez Verbal tratará de um evento do mesmo dia, Doze de janeiro de 2015. Retornando de sua viagem à França, o Presidente da Palestina, Mahmoud Abbas foi recebido, em visita oficial, pelo Presidente da Turquia, Recep Erdoğan. A cerimônia que marcou o inicío do encontro foi no Ak Saray, o Palácio Branco, a nova residência oficial da presidência turca. O palácio, de arquitetura seljúcida, o império turco-persa medieval, é extravagante; ocupa uma área de cerca de trezentos quilômetros quadrados, possui mais de mil aposentos e uma mesquita com capacidade para quatro mil pessoas. Sua construção foi alvo de muitas críticas, dados seus custos igualmente faraônicos (ou sultânicos) e seu terreno ser protegido por leis ambientais locais. Um detalhe, porém, chamou muita atenção na recepção de Abbas: Erdoğan estava ladeado por dezesseis homens caracterizados como guerreiros turcos, de diversas épocas. O que aparenta ser apenas uma extravagância ou excêntrico, na verdade, é um indicativo da política de Erdoğan.

Foto: The Guardian

Foto: The Guardian

A política externa do Partido Justiça e Desenvolvimento (Adalet ve Kalkınma Partisi, conhecido pela sigla AKP), que chegou ao poder em 2002, com Erdoğan como primeiro-ministro, é conhecida como neo-otomana; Yeni Osmanlıcılık, em turco. Como política externa, ela defendia uma reaproximação da Turquia com os países e regiões anteriormente parte do Império Turco-Otomano, que existiu de 1299 até 1923, oficialmente; na prática, o império acabou com a derrota na Primeira Guerra Mundial. A proposta seria a de colocar a Turquia como líder regional, em contraste ao seu papel internacional típico da segunda metade do século XX, um parceiro júnior da OTAN e candidato a União Europeia. Oficialmente, o governo turco coloca que a participação na União Europeia ainda é seu principal foco na política externa, embora essa integração fique cada vez mais difícil (o assunto foi tema de coluna desse autor no Opera Mundi).

A maior demonstração, talvez, dessa nova política externa turca, neo-otomana, é sua distensão com Israel; os dois países sempre tiveram relações próximas, especialmente pela proximidade de ambos com o chamado Ocidente, e a Turquia, diversas vezes, fez a mediação entre Israel e o “mundo árabe”. O conflito em Gaza, em 2009; no mesmo ano, Erdoğan abandona um debate sobre Gaza no Fórum Econômico Mundial em Davos, após discutir com Shimon Peres, então Presidente de Israel; o ataque à flotilha de Gaza em 2010 e a reaproximação entre Turquia e Irã são alguns dos exemplos do desgaste dessa relação. As mudanças na política externa são apenas um exemplo no distanciamento da Turquia do século XXI em relação aos princípios do Ataturquismo, de Mustafa Kemal Atatürk, fundador da Turquia republicana. Chega-se então à recepção de Abbas em Ancara.

O pensamento neo-otomano, Yeni Osmanlıcılık, está deixando de ser apenas um norteador de política externa e começa a ser exibido nos símbolos nacionais turcos e em sua política doméstica. Receber um chefe de Estado estrangeiro com uma comitiva de guerreiros otomanos torna-se um símbolo do país; mais ainda, a Palestina era parte do referido império, e os guerreiros eram em dezesseis por representarem, cada um, uma região do império. Um novo palácio que resgata valores estéticos e arquitetônicos do período medieval. A revalorização do selo presidencial turco, com dezesseis estrelas, cada uma simbolizando uma das regiões do Império Turco-Otomano, e a agenda desenvolvimentista chamada de “Visão 2023”, centenário da República Turca. Não se deve esquecer também dos episódios que ferem as estruturas democráticas. A prisão de jornalistas, suspensão da internet, suspeitas de fraudes eleitorais, o combate aos movimentos curdos (o que beneficia, indiretamente, o chamado Estado Islâmico) e a concentração de muito poder em apenas uma figura. Recep Erdoğan certamente está mudando a política e até mesmo o Estado turco, resta saber o resultado.


assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

 


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2 comentários

  • Olá Filipe,

    Parabéns pelo artigo, resumiu muito bem o “significado real” dessas figuras de soldados.
    Realmente Erdogan tem ambições para ser “novo sultão da nova Turquia (como ele chama) neo-otomana” e “novo califa do mundo muçulmano”. Diversas ações mostram isso claro.

    As ambições pessoais do Erdogan, em consequência disso as políticas internas e externas erradíssimas, fizeram com que a Turquia perdesse sua democracia, a boa relação com vizinhança, o respeito no cenário internacional -principalmente diante da UE-, e até esperanças de melhoria na região.

    Espero que ele vá embora na forma democrática, do jeito que viera. A manipulação da grande parte da população pela mídia controlada por Erdogan, faz termos poucas esperanças para esse fim.

    Apenas quero corrigir que, as 16 estrelas no brasão da república e o número daqueles soldados no novo palácio faraônico do Erdogan, representam os 16 estados turcos que existiram na história, e não regiões do Otomano.

    Abraços.

  • Pingback: Xadrez Verbal Podcast #56 – Golpe na Turquia, Trump e Alemanha | Xadrez Verbal

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