De volta ao Oriente Médio: Israel, os vizinhos e violência

Caros leitores, hoje seria continuada a série de textos que debate a Alemanha no período entreguerras e a ascensão do nazismo, entretanto, os acontecimentos recentes obrigam o blog a retomar a discussão sobre o Oriente Médio. O texto está dividido em dois tópicos, um sobre o Egito e o outro sobre Israel, cobrindo alguns eventos recentes e referenciando alguns textos antigos como ponto de partida. Posteriormente será publicado um texto sobre Síria e sobre o Iraque, no mesmo formato. As citações serão, sempre que possível, de sites em português, para facilitar ao leitor.

Egito: mais uma interrupção da democracia

John Kerry e Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, em encontro no Egito

John Kerry e Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, em encontro no Egito

Tratei do Egito, de forma direta, em dois textos. Um sobre a falta de pensamento democrático no Egito e outro sobre a fala do representante egípcio na 68ª Assembleia Geral da ONU. Após a derrubada de Mursi, eleito de forma democrática, o Egito viveu um período de exceção, que culminou, no dia Três de Junho, com a eleição do ex-comandante do Exército egípcio Abdel Fatah al-Sisi para a presidência do país. Uma eleição democrática?

Considerando que ela ocorreu após um período de exceção; que o candidato eleito comandava as forças que depuseram o presidente anterior; que um dos principais partidos do país, a Irmandade Muçulmana, foi declarado ilegal; e que o novo presidente foi eleito com 96,9% dos votos, em um pleito que teve 53% de abstenção, então, dificilmente se pode falar em democracia no Egito atual.

Al-Sisi apontou como seu primeiro-ministro, ao menos até as eleições legislativas (ainda não marcadas), Ibrahim Mehleb, um engenheiro visto como tecnocrata que fazia parte do partido justamente do ex-ditador deposto em 2011, Hosni Mubarak. Ambos tiveram proeminência no “período de emergência” que se estendeu da deposição de Mursi, em Junho de 2013, até o agendamento das novas eleições. No período autoritário, cerca de seiscentos militantes foram mortos por tropas egípcias, mais de quatro mil feridos, além de um número entre dezesseis e quarenta mil presos políticos.

E mesmo com as eleições marcadas, o autoritarismo não diminuiu. Jornalistas da Al-Jazeera foram condenados à prisão por “espalhar informações falsas”, 183 militantes da Irmandade Muçulmana foram condenados à morte, incluindo Mohammed Badia, o líder do partido em um processo que passa longe de ser legal. E tudo isso com um renovado fôlego na economia e nos gastos militares, já que o governo dos EUA liberou os aportes financeiros bloqueados desde a deposição de Mursi.

Pode-se argumentar que a máquina do estado egípcio, tradicionalmente militarista, é secular e combate o radicalismo islâmico, como apontado no primeiro link desse texto. A realidade, entretanto, é ao contrário. A Irmandade Muçulmana era uma das poucas representações partidárias e moderadas da população egípcia em relação à prática religiosa. É um tema delicado, mas fica evidente que a violência do Estado não vai resolver o problema. Pelo contrário, novas organizações, mais radicais e mais violentas, como a jihadista Agnad Masr, já começam a escalar a violência.

Palestina: Israel, ódio e violência

Ataque aéreo de Israel na Faixa de Gaza

Ataque aéreo de Israel na Faixa de Gaza

A situação na Palestina e em Israel é calamitosa. Ainda não é calamitosa nos números de mortos ou de dias ou de tropas mobilizadas. É calamitosa de espírito. Um espírito de vingança, de ódio, de sede de sangue, que emanou da sociedade israelense e tomou conta do governo de Israel. Que emanou da sociedade palestina e é canalizado no Hamas.

No Xadrez Verbal, Palestina e Israel já foram debatidos muitas vezes. Retomo alguns dos principais pontos. Ao analisar o discurso de Mahmoud Abbas, Presidente do Estado da Palestina, na 68ª Assembleia Geral da ONU, comentou-se que a Palestina estava disposta à paz e que a atual, na época, rodada de negociações parecia ser a “última chance” para uma paz duradoura.

Alguns dias depois, ainda na AGNU, Benjamin Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel, usou um tom moralista e agressivo perante alguns de seus vizinhos, como o Irã e a própria Palestina. Um tom moralista infundado, como debatido no texto. E, hoje, pode-se concluir, um tom também hipócrita. Por exemplo, Netanyahu comentava que o diálogo com Abbas era difícil, já que ele não representava o Hamas, apenas a Autoridade Palestina.

Após Abbas formar um governo de coalizão com o Hamas, o que fez Netanyahu? Disse que não podia dialogar com uma coalização que incluísse o Hamas. Posteriormente, aqui nesse espaço, comparou-se os discursos de ambos na ONU com uma aula-magna proferida por José Ramos-Horta, Nobel da Paz e ex-Presidente do Timor Leste.

A conclusão de Ramos-Horta era clara: falta uma atitude magnânima do governo de Israel, detentor do poder regional, que conceda aos palestinos o seu país e garanta a legitimidade do seu próprio lar. Falta um líder com visão e força de vontade, e que evite que se rendam ao ódio. Os atuais líderes de Israel não possuem essa visão.

O início da crise atual foi com o sequestro e a morte de três adolescentes judeus ortodoxos na região de Hebron. Deve-se deixar claro que o ocorrido é deplorável e os criminosos responsáveis devem pagar por isso. Isso é inquestionável por qualquer pessoa sã, entretanto, não havia qualquer indício de crime por motivações políticas. Nenhum grupo militante ou organização palestina assumiu autoria e não havia provas de crime político.

E o que a liderança israelense fez? Netanyahu solta uma declaração falando em Satanás, afirmando que o ato é de responsabilidade do Hamas, e que o Hamas irá pagar. O Presidente Shimon Peres, que um dia recebeu o Nobel da Paz, afirma que o “troco” será pesado. O Ministro da Defesa afirma que isso deve motivar um “ataque mortal” contra o Hamas. Todas essas declarações o leitor pode conferir, em inglês, no site do jornal israelense Haaretz. Posteriormente, Netanyahu tentou consertar as palavras ditas anteriormente, sem sucesso.

O link do Haaretz também é interessante por demonstrar que sim, existem vozes lúcidas em Israel. Isaac Herzog, do Partido do Trabalho, e Zahava Gal-On, do Meretz, afirmaram que o crime deve ser punido, mas como ação da Justiça, não dos militares. O diálogo com os moderados palestinos deveria ser “fortalecido” em uma ocasião como essas.

Isso, na verdade, aumenta mais a irresponsabilidade das ações irracionais dos líderes do governo israelense, justamente quem deveria agir com serenidade. Uma operação de busca pelos corpos dos adolescentes deixou seis palestinos mortos e 560 detenções arbitrárias. Posteriormente, após retaliação do Hamas pela morte de um adolescente palestino, sequestrado em vingança por judeus ortodoxos radicais, ataques aéreos já mataram cinquenta e sete pessoas, incluindo sete mulheres e catorze crianças.

E o espírito de vingança alimentado por Netanyahu e seu governo não parou aí. Jovens israelenses postam fotos alimentando o ódio e a vingança e Shimon Peres já comentou que possivelmente haverá também uma operação terrestre contra a Faixa de Gaza, com mais brutalidade e violência. O exército israelense já convocou reservistas.

Abbas afirmou que o que está ocorrendo é o início de uma política de genocídio por parte de Israel. Pode-se dizer que ele usa de um tom emocional, ou um tom exagerado, mas a liderança israelense é certamente a culpada por essas hostilidades. Foi o governo do Likud que alimentou a violência, após negar repetidas vezes o diálogo, e aproveita o assassinato de três jovens para finalidades políticas, apenas semanas após o acordo entre as duas principais entidades palestinas. E, enquanto isso, aumentou o número de assentamentos israelenses em território palestino e elege um novo Presidente contra o reconhecimento do Estado da Palestina. 

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