Assembleia Geral da ONU – Netanyahu e o Irã, erros e acertos

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Finalizando a análise do Debate da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, vamos ao sétimo, e último, dia, Primeiro de Outubro. E quem melhor para encerrar esse Debate, o último discurso do último dia? Benjamin Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel. Enquanto escrevo, seu discurso não está transcrito no site da ONU; sendo assim, minha fonte é a transcrição, em inglês e na íntegra, disponível no site do jornal israelense Haaretz.

Benjamin Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel, no Debate da Assembleia Geral da ONU, Primeiro de Outubro de 2013 UN Photo/Evan Schneider

Benjamin Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel, no Debate da Assembleia Geral da ONU, Primeiro de Outubro de 2013
UN Photo/Evan Schneider

Netanyahu falou bastante, por cerca de meia hora; por isso, este post é um pouco mais longo, peço sua paciência e que leia até o final. Ao contrário do que pode imaginar o leitor, a situação Síria tomou pouco mais de um parágrafo de seu discurso (basicamente, chamou Assad de assassino, só). Dois terços de seu pronunciamento foram sobre o Irã, outro terço sobre a Palestina. Aqui, tratarei da parte sobre o Irã; a Palestina será analisada em outro texto, exclusivo, e cruzarei o discurso de Netanyahu com algumas perspectivas bem interessantes que tive o prazer de ouvir ontem à noite.

Voltando ao Irã, se eu tivesse que sintetizar as palavras do Primeiro-Ministro sobre o tema, seria da seguinte forma: Para Netanyahu, o Irã não é confiável, o novo discurso conciliador esconde uma agenda armamentista, o país é a maior ameaça à paz no mundo, deve ser enfrentado com sanções e uma postura rígida e, se necessário, Israel está pronto para se defender sozinho. Desenvolvo o raciocínio.

Após uma introdução que busca legitimidade na História, afirmando que foi um rei persa, Ciro, que encerrou o exílio do povo judeu na Babilônia e possibilitou a volta dos judeus à Terra Santa e a reconstrução do Templo de Jerusalém, e que isso denota uma amizade milenar entre os dois povos, Netanyahu coloca como ruptura o ano de 1979, o ano da Revolução Islâmica no Irã, que iniciou um regime radical. De fato, pensando no Estado moderno de Israel, pós 1948, não havia distensões entre Israel e Irã, cujos maiores inimigos eram seus vizinhos árabes.

Netanyahu parte então para uma crítica que é poucas vezes feita na sociedade brasileira, e que concordo plenamente. É extremamente difícil avaliar os representantes do governo iraniano, sejam eles presidentes moderados ou linha-dura, pois todos eles, em maior ou menor grau, são leais ao Supremo Líder do país (Khomeini até 1989, Khamenei desde então; Khamenei é capa da atual edição da revista Foreign Affairs, inclusive).

Embora o Supremo Líder seja eleito, de forma extremamente indireta, não se pode considerar como um Chefe de Estado democraticamente eleito, e ele detém um poder executivo muito desproporcional, inclusive sobre o Judiciário e o Legislativo. E, finalmente, é ele que aprova, ou não, eventuais candidatos às eleições presidenciais. Por essas razões que Netanyahu está correto em sua crítica e sobre a dificuldade de análise dos representantes iranianos, já que são todos leais ao mesmo sistema teocrático. E eu, embora ferrenho defensor da autodeterminação dos povos, pessoalmente abomino qualquer mistura de governo com religião, especialmente uma rotulada como teocracia.

Ainda nessa linha, Netanyahu coloca que Rouhani foi chefe do Supremo Conselho Nacional de Segurança do Irã, de 1989 até 2003, e cita atentados e incidentes comprovadamente, ou alegados, relacionados ao governo do Irã. Tal exemplo apenas reforça o argumento anterior: como você pode avaliar o discurso conciliador de um Presidente que serviu como chefe de segurança e inteligência por quatorze anos, em um período carregado de exemplos negativos referentes ao tema? Por mais que eu me oponha ao Likud, partido do Primeiro-Ministro israelense, e me oponha ao seu governo, seu argumento, nesse ponto, é impecável. E cito intencionalmente minhas perspectivas particulares, que poderiam ser contrastantes, pois é esta a proposta do blog, o confronto de ideias.

Caro leitor, note que não se trata de deslegitimar ou condenar por antecipação, mas de constatar a dificuldade imposta ao avaliar um discurso cujos antecedentes são totalmente contrastantes. Seguindo em frente, Netanyahu citou quatro passagens do discurso de Rouhani na ONU, dias atrás, e deu exemplos que desmentiriam tais passagens: o apoio iraniano aos “assassinatos” na Síria, o financiamento do Irã de atentados terroristas, o fomento de guerras internas na região e uma falsa proximidade construtiva que busca apenas ganhar tempo para o programa de armamento nuclear do país. Sua intenção ficou clara: querer mostrar que Rouhani seria “lobo em pele de cordeiro”, que fala uma coisa, mas ocorre outra; no caso, a nebulosidade não se aplica somente ao Irã, já que toda a região é conturbada e Israel também possui boa parcela de financiamento e fomento de conflitos em vizinhos; maior exemplo disso é o Líbano.

Finalmente, o foco principal de seu discurso, o programa nuclear iraniano. Afirmou que, ele mesmo, ali naquele púlpito, ano passado, traçou uma linha que o Irã não poderia cruzar, e o governo iraniano estaria fazendo de tudo para chegar bem perto dessa linha sem cruzá-la. Forneceu diversas informações de inteligência, como estruturas subterrâneas, desenvolvimento de centrífugas poderosas para o enriquecimento de urânio (tudo isso o leitor pode acessar no link no início do texto), construção de uma usina de água pesada e que o Irã, mais de uma vez, foi pego de “calças na mão” mentindo sobre seu programa nuclear.

Traçou também um paralelo com a Coréia do Norte, que durante cerca de um ano tomou uma postura apaziguadora e um discurso de cooperação e, subitamente, fez um teste nuclear. O paralelo, mesmo que distante, procede. Ainda nessas comparações, afirma que o Irã não precisaria desenvolver um programa de foguetes caso seu programa nuclear fosse pacífico, pois um ICBM (Míssil Balístico Intercontinental) tem como único propósito projetar um artefato nuclear. E faz algumas considerações muito válidas, sobre o funcionamento das sanções econômicas ao país, que são uma boa solução, desde que mantidas, pois a economia local está começando a pagar o preço da aventura nuclear e a população estaria cansada; algumas das sanções impostas ao Irã de fato foram justificadas pelos erros do governo local e fazem parte de punições diplomáticas.

Netanyahu afirma que são necessários quatro pontos para desmantelar completamente o programa nuclear iraniano e poderem considerar o Irã um país confiável; não irei transcrever aqui por objetividade. Faz um argumento, no mínimo, plausível, sobre a suposta necessidade de energia nuclear por um país dos mais ricos em recursos energéticos naturais no planeta. Mas, no meio desses pontos e dessas observações, Netanyahu começa a carregar nas tintas e, em minha avaliação, errar. Ele erra, pois toma uma postura exacerbada e, principalmente, moral. Coloca que um Irã nuclear iria poder “estrangular o mundo” controlando o fornecimento de energia, que poderia iniciar uma “corrida nuclear” no Oriente Médio, que o terrorismo nuclear se tornaria uma ameaça crível e que Israel “não vai permitir” um Irã nuclear.

Como já mencionei aqui no blog algumas vezes, o Estado de Israel não ratificou a Convenção de Armas Químicas, tampouco assinou a Convenção de Armas Biológicas, muito menos assinou nenhum tratado sobre armamento nuclear, nem o básico Tratado de Não Proliferação, que o Irã é signatário. O fato de seu programa nuclear ter sido desenvolvido, em boa parte, durante a década de 1970 com o regime do apartheid na África do Sul (o incidente de Vela, em 1979, única explosão nuclear não assumida da História, perto da costa da África do Sul, seria de realização dos dois países), fez com que muitas informações viessem à público após a queda do regime racista no país africano.

Também já mencionei aqui, mas o próprio Congresso dos EUA classifica Israel como possuidor de capacidade de guerra química; existem indícios de ser possuidor de capacidade de guerra biológica; Israel também testou, recentemente, novos (família Jericho de mísseis, caso o leitor queira buscar) mísseis de longo alcance, que teriam as mesmas funções que Netanyahu acusa sobre os mísseis iranianos; Israel teria capacidade ofensiva de first strike (primeiro ataque) de uso de armamento nuclear; ainda em 1986, Mordechai Vanunu, whistleblower (que não sei como me esqueci quando abordei o tema) israelense, forneceu fotos e informações ao Sunday Times que comprovavam o programa nuclear israelense, e até hoje é constantemente vigiado, quando não está preso.

Resumindo essa enxurrada de informações, Netanyahu não tem autoridade moral para usar o tom que usou. Primeiro, seu país, seu governo, deve fazer sua lição de casa e participar da governança internacional sobre o assunto, assinando tratados que ignora. E se faço restrições ao governo teocrático do Irã, também não acho de bom tom encerrar o discurso com citações bíblicas e profecias em hebraico, em um rompante religioso de ufanismo sobre “uma nação próspera com capacidade de se defender”. O Primeiro-Ministro israelense foi muito bem enquanto manteve seu raciocínio lógico e seu argumento embasado, com críticas precisas e bem direcionadas. Ao tomar uma postura moral, deslegitimando essa postura com as próprias contradições de seu país, Netanyahu perdeu o rumo em suas profecias.

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