Queda do Muro 25 anos – Gorbachev, a injustiça do herói e seus fracassos

Esse é o quarto texto sobre a queda do Muro de Berlim. O primeiro, Xadrez Dominical com cinco dicas de filmes, e o segundo, Queda do Muro 25 Anos – Introdução, e o terceiro, Berlim foi vítima, e não só de quem você pensa.

Nas comemorações do aniversário de vinte e cinco anos da queda do Muro de Berlim, quem abriu as cerimônias foi Mikhail Gorbachev, último líder da União Soviética, Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética de 1985 a 1991. Gorbachev também foi homenageado na cerimônia. Suas mãos foram gravadas em concreto no memorial do Muro. Ele estava ali como o pai da abertura do antigo bloco comunista. O responsável pelo fim da União Soviética, do autoritarismo no leste europeu e, indiretamente, pela própria derrubada do Muro de Berlim. Um “herói da liberdade”, como o ex-Presidente dos EUA, Ronald Reagan, o caracterizou, quando agraciou Gorbachev com o Prêmio da Liberdade que leva seu nome. Essa caracterização que marca a imagem de Gorbachev no Ocidente não é falsa, mas também não é totalmente verdadeira.

Muito colabora para essa imagem internacional de Gorbachev o fato de suas realizações serem na política externa da então URSS. Internacionalmente, diplomaticamente, Gorbachev foi um estadista de primeira grandeza. Iniciou uma reaproximação comercial com o Ocidente e uma série de longas conversas com Ronald Reagan, seu amigo, e George Bush sobre temas estratégicos. Gorbachev tinha o plano, ambicioso, de abolir todo armamento nuclear até o ano 2000; obviamente, isso não aconteceu, mas foi graças às suas iniciativas que os arsenais nucleares das duas superpotências começaram a ser controlados. Um país fiscalizaria a quantidade de armamento nuclear do outro, armamentos foram desativados e mísseis de médio alcance, abolidos. Por essa postura frente ao perigo nuclear, enquanto liderava a maior potência atômica do mundo, que Gorbachev recebeu o Nobel da Paz de 1990.

Ronald Reagan e Gorbachev reunidos em Genebra, para conversas sobre armamento nuclear.

Ronald Reagan e Gorbachev reunidos em Genebra, para conversas sobre armamento nuclear.

Gorbachev também iniciou o processo de retirada soviética do Afeganistão, concluído em 1989, após mais de nove anos de guerra. Além da reaproximação comercial (Margaret Thatcher, a Dama de Ferro do Reino Unido, disse “Eu gosto do Sr. Gorbachev, podemos fazer negócios juntos”), da estabilização militar e do diálogo nuclear, talvez o mais importante ato de Gorbachev no cenário internacional tenha sido a abolição da Doutrina Brejnev, nome do líder soviético de 1964 a 1982. A doutrina foi a resposta soviética à doutrina Truman e objetivava garantir a esfera de influência geopolítica soviética. Limitava a autonomia dos países do leste europeu, colocando os partidos comunistas locais sob direta influência do Comitê Central do Partido Comunista soviético. Além disso, legitimava intervenções em assuntos internos, como foi o caso da citada invasão soviética no Afeganistão.

Ao abolir a Doutrina Brejnev, Gorbachev permitiu que cada país do Pacto de Varsóvia renovasse seus quadros políticos. Movimentos orgânicos de oposição surgiram ou se fortaleceram. Um dos maiores exemplos talvez seja o do sindicato polonês Solidariedade, fundado em 1980. Reprimido por anos, já que era a primeira entidade política não controlada pelo Partido Comunista, o grupo liderado por Lech Walesa foi a primeira oposição em um país do leste europeu. No parlamento polonês, Walesa articulou a eleição de um primeiro-ministro que não era do Partido Comunista, fato inédito na Polônia do pós-guerra e no Pacto de Varsóvia como um todo. Isso em Agosto de 1989, meses antes da queda do Muro. Posteriormente, Walesa seria eleito Presidente da Polônia, em 1990, nas primeiras eleições democráticas da história do país.

Abrir mão da Doutrina Brejnev teve impacto direto na divisão alemã, o que justifica totalmente a presença de Gorbachev na cerimônia. Em seu governo, Gorbachev foi claro: o Muro de Berlim é um assunto interno da República Democrática Alemã e sua eventual reunificação é pertinente apenas à RDA e à República Federal da Alemanha. Os dirigentes da Alemanha Oriental não estavam mais pressionados pelos interesses, quaisquer que sejam, de uma potência. Puderam então se concentrar nos protestos e na insatisfação popular interna, levando ao menor autoritarismo do regime, o surgimento de oposição política, a queda do Muro e, finalmente, a reunificação das duas repúblicas. Tudo isso em um prazo curtíssimo, como já visto aqui nesse espaço.

E as tão famosas e celebradas Glasnost (“abertura”) e Perestroika (“reestruturação”)? Dois fracassos. Não há outra palavra. E é por isso que colocar Gorbachev como herói do fim do comunismo ou do fim da União Soviética é um erro, é uma injustiça. Primeiro, o erro. Gorbachev, em momento algum, planejava acabar com a União Soviética ou com o regime. Seu intento era realizar mudanças de cima para baixo, tornar a economia soviética mais eficiente e renovar sua composição política. O que Gorbachev conseguiu foi agravar a crise econômica soviética e desagradar tanto os liberais quanto a linha-dura do regime. Sua abertura política não era o suficiente para os grupos liberais e socialdemocratas, ao mesmo tempo, eram abertas demais para a linha-dura autoritária, ligada às forças armadas. Não se trata de uma liderança política que consegue convergir dois grupos antagônicos, buscar um “meio termo”. Gorbachev conseguiu minar, progressivamente, sua autoridade política e radicalizar os dois grupos, que buscavam, cada um, o controle da situação.

Então, a injustiça. O líder do movimento que acabou com o regime soviético e enfrentou a linha-dura comunista não foi Gorbachev, foi Boris Yeltsin. Na segunda metade da década de 1980, Yeltsin era o mais ferrenho opositor de Gorbachev, o líder do grupo que dizia que as reformas não eram o suficiente. Opositor ao ponto da célebre fotografia, já postada aqui, em que coloca o dedo em riste no rosto do então líder soviético, durante um pronunciamento. Yeltsin foi eleito Presidente da Rússia em Julho de 1991, ainda com Gorbachev como líder soviético, cargo que ocupou até Dezembro de 1991. Gorbachev ocupava um cargo praticamente nulo, enquanto a URSS se desmantelava. Foi Yeltsin que subiu em um tanque, em Agosto de 1991, para arregimentar a população e tropas leais ao governo, contra o golpe de estado da linha-dura que objetivava derrubar Gorbachev e anular as reformas.

Esquerda: Boris Yeltsin confronta Gorbachev publicamente. Direita: Yeltsin discursa em cima de um tanque, em frente ao Parlamento, em resistência ao Golpe de Agosto de 1991

Esquerda: Boris Yeltsin confronta Gorbachev publicamente. Direita: Yeltsin discursa em cima de um tanque, em frente ao Parlamento, em resistência ao Golpe de Agosto de 1991

Yeltsin, posteriormente, foi reeleito Presidente da Rússia, em 1996. Na mesma eleição, Gorbachev teve 0.5% dos votos válidos em primeiro turno. Boris Yeltsin ficou com sua imagem ocidental ligada ao seu personagem, quase caricato: fazendo brincadeiras espontâneas, aparecendo bêbado publicamente ou tendo ataques de riso ao lado de Bill Clinton, seu amigo pessoal. O que contrasta com sua imagem doméstica na Rússia, de um líder que cometeu muitos erros, mas que esteve à frente do país em uma de suas situações mais complicadas e, de fato, liderou. Na direção oposta, está Gorbachev. Dentro da Rússia, seu nome implica falta de liderança e indecisão. No cenário internacional, seu grande palco de atuação, Gorbachev é visto como um estadista, um herói. Justamente, mas, às vezes, além de conta.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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