Queda do Muro 25 anos – Berlim foi vítima, e não só de quem você pensa

Esse é o terceiro texto sobre a queda do Muro de Berlim. O primeiro, Xadrez Dominical com cinco dicas de filmes, e o segundo, Queda do Muro 25 Anos – Introdução.

Nesse aniversário de vinte e cinco anos da queda do Muro de Berlim, a data é marcada mais pela comemoração de uma Alemanha unificada do que pela memória de um país dividido. Uma divisão que, no microcosmo da cidade de Berlim, representava a cisão mundial que marcou a segunda metade do século XX. E a comemoração é totalmente apropriada, já que temos a primeira geração de adultos nascida e formada dentro da Alemanha unida. Na última Copa do Mundo, por exemplo, pela primeira vez a Alemanha (campeã) teve um atleta nascido após a reunificação. A celebração, entretanto, não pode eclipsar a necessidade da memória. De lembrar que o povo alemão, especificamente o povo berlinense, foi, também, vítima. E não apenas dos que são mencionados habitualmente.

A divisão da Alemanha e de Berlim se deu ao final da Segunda Guerra Mundial, com a ocupação do país pelas quatro principais potências aliadas. Torna-se nebuloso falar em “vítima” um país que foi tratado como espólio de guerra, especialmente após a guerra que mais matou na História. Causada por um regime que perverteu todo o ideário que embasa um país. Falar em vítimas implica em julgar, por isso é nebuloso. Na segunda metade da década de 1940, a Alemanha era apenas espólio de guerra. No máximo, para os que já previam o conflito entre a União Soviética e os Estados Unidos, era um espaço no tabuleiro, que deveria ser aproveitado da melhor maneira possível.

Para Winston Churchill, Primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha deveria ser reduzida à ocupação em condições agrárias, totalmente despida de suas indústrias e instituições. Para George Patton, famoso general dos EUA durante a guerra, deveriam aproveitar os alemães e já iniciarem a nova guerra contra a URSS. De qualquer forma, a Alemanha Ocidental e Berlim Ocidental foram usadas pelos EUA e pela Europa Ocidental para seus próprios interesses. Tanto quanto Berlim Oriental. O Muro da Vergonha será, para sempre, uma obra de um regime autoritário, para impedir que pessoas que viviam dentro de suas fronteiras fugissem em busca de uma vida melhor ou por traumas pessoais, como famílias separadas. Sempre se deve deixar claro: a Alemanha Oriental era um estado autoritário.

Em Berlim Ocidental, entretanto, as pessoas também estavam aprisionadas, e isso é frequentemente esquecido. Coloca-se o Muro da Vergonha ou o autoritarismo como as causas exclusivas desse isolamento, quando isso é apenas, literalmente, metade da História. Em uma simples olhadela num mapa, nota-se que Berlim era um ponto isolado dentro de outro território. Em uma comparação vulgar, é como se uma cidade importante brasileira estivesse incrustada dentro da Argentina. Mesmo que os dois países tivessem ótimas relações, o que não era o caso entre as duas Alemanhas, ainda existiriam os problemas inerentes ao tráfego fronteiriço. E por qual motivo Berlim Ocidental estava ali, isolada? Interesses e geopolítica.

mapaalemanhaoriental

Em azul, o território da República Federal da Alemanha. Em vermelho, o território da República Democrática Alemã. Note Berlim Ocidental em azul, dentro de território da RDA.

Se a Alemanha era o espólio maior ao final da Segunda Guerra Mundial, Berlim seria a joia da coroa, o prêmio máximo. A então capital do III Reich alemão foi tomada pelo Exército Vermelho em Maio de 1945 e estava totalmente dentro do território destinado à ocupação soviética após a guerra. As demais potências aliadas, entretanto, insistiram que Berlim, pelo seu alto valor simbólico, deveria ser repartida em quatro zonas de ocupação, tal qual a Alemanha como um todo. Esse arranjo durou, oficialmente, até 1949, quando são formadas as duas repúblicas alemãs. As três zonas ocupadas por potências ocidentais tornaram-se Berlim Ocidental e de fato parte da República Federal da Alemanha. Em teoria, Berlim era uma zona especial, fora da esfera de ambas as repúblicas, mas apenas em teoria.

Na esquerda, as zonas de ocupação da Alemanha. Na direita, a reprodução dessa ocupação dentro de Berlim.

Na esquerda, as zonas de ocupação da Alemanha. Na direita, a reprodução dessa ocupação dentro de Berlim.

Além do valor simbólico, Berlim Ocidental permitia um rápido canal de inteligência e contato com o “bloco soviético”, seja por meios oficiais ou extraoficiais. A enxurrada de filmes de espionagem da Guerra Fria é uma demonstração cultural disso, e não distante da verdade. E, claro, também permitia o uso político dos atritos entre os dois países. Poucas imagens teriam tanta força na época quanto tanques dos EUA e da União Soviética mirando uns nos outros, em linha reta, na mesma avenida, no famoso Checkpoint Charlie. A natureza de ocupação do território, depois embasada em alianças militares, a OTAN e o Pacto de Varsóvia, fez da Alemanha a zona de maior concentração militar do planeta e futuro campo de batalha da maior guerra que o homem disputaria. As duas fronteiras, entre as duas Alemanhas e as duas Berlim, permitiam que cada lado testasse os limites do outro.

Em primeiro plano, tanques do Exército dos EUA, em Berlim Ocidental; no meio, as cancelas rodoviárias de controle de acesso

Em primeiro plano, tanques do Exército dos EUA, em Berlim Ocidental; no meio, as cancelas rodoviárias de controle de acesso entre as duas partes da cidade. Em segundo plano, na mesma avenida, tanques do Exército Vermelho.

A população alemã, como derrotada e habitante de um tabuleiro geopolítico, não importava tanto assim. Na antiga capital da Prússia, Königsberg, a população germânica foi expulsa e a cidade ocupada por russos e poloneses. A atual Kaliningrado é território russo, cravado dentro da Polônia, e ainda possui alta concentração de forças militares. Uma base avançada disfarçada de cidade. Em Berlim, a população foi confinada. Seja por um muro, em Berlim Oriental, seja por fronteiras, em Berlim Ocidental. Existiam meios de tráfego entre Berlim Ocidental e o restante da RFA, assim como os pontos de controle dentro de Berlim. Todas as formas, entretanto, eram bem controladas e impediam um uso cotidiano pela população civil.

O cabo de guerra entre as potências começou logo depois da guerra, já em 1948, quando Stálin ordena o bloqueio das vias terrestres de acesso à Berlim, sob a justificativa de que ali é território ocupado pela URSS, logo, ele que controla quem entra e quem sai. O Ocidente não cedeu e manteve Berlim Ocidental, suprindo-a por via aérea, a ponte-aérea de Berlim. Tratava-se da Berlim ainda em ruínas, então absolutamente tudo tinha que ir pela via aérea, como alimentos e água. A economia de Berlim ocidental dependeu, durante toda sua existência, de subsídios do governo federal. Quais empresas iriam se estabelecer, ou sequer se manter, em um território diminuto e isolado? Os jovens de Berlim ocidental não cumpriam o serviço militar, na época obrigatório em toda a Alemanha. Em parte pela ocupação militar, em parte pela inviabilidade disso. O processo de formação da cidadania alemã era diferente se o indivíduo residia em Berlim ocidental ou no restante da Alemanha ocidental.

A construção do Muro se deu em 1961, acompanhada da fortificação e enrijecimento de toda a fronteira entre as duas Alemanhas. Na época, alguns políticos da Alemanha ocidental protestaram, pedindo alguma intervenção dos EUA ou do Reino Unido; ao contrário da crença popular, ambas as potências ficaram tranquilizadas com o Muro, pois significava que o bloco oriental não tentaria tomar o controle de toda Berlim pela força. O tráfego na região só seria melhor regulamentado, do ponto de vista da população, em um acordo entre as quatro potências ocupantes, em 1972, onze anos depois do Muro. O Muro de Berlim foi, realmente, o Muro da Vergonha, obra de um regime autoritário e isso nunca deve ser esquecido. Assim como não deve ser esquecida a responsabilidade das potências ocidentais. A população berlinense era apenas um peão no tabuleiro. Berlim e a Alemanha que eram o foco de interesse, tratadas como espólio dos vencedores.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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