O que ler sobre Mandela para não esquecer que ele era um homem?

No mais recente Nerdologia de História, sobre o apartheid e o centenário de Nelson Mandela, alguns comentários críticos foram feitos. Todos eles podem ser vistos no vídeo original, e falo dos comentários com críticas críveis; infelizmente, alguns foram racistas ou apologistas do regime de apartheid, mas foram poucos. Tanto por compromisso ao Nerdologia, quanto por desejo de fomentar a informação e a compreensão da História, decidi fazer este post, complementar, com algumas respostas aos questionamentos mais comuns e, principalmente, muitas fontes onde você mesmo pode se aprofundar.

Em curiosa ironia, muitos dos comentários mais agressivos encaixam exatamente no espírito desse texto que escrevi antes do vídeo. Na verdade, que escrevi cinco anos atrás.

Quando escrevi o roteiro do vídeo, tive dois pontos de partida. Primeiro, o capítulo 10 do volume IX da coleção História Geral da África, organizada pela UNESCO, que ser acessada na íntegra e gratuitamente. Depois, o livro Nelson Mandela, da coleção de livros de bolso Oxford Very Short Introductions, que sempre recomendo. Nesse caso, o livro é de autoria de Elleke Boehmer. Uma boa fonte online é o ótimo portal South African History Online. 

Friso que o Nerdologia é uma introdução, sempre é, é impossível esgotar um tema em sete, oito minutos. Infelizmente, sei que algumas referências estão no idioma inglês, o que pode prejudicar seu alcance. Caso você prefira uma leitura mais rápida e em português, deixo estes dois links; o artigo Justiça Transicional na África do Sul: Restaurando o Passado, Construindo o Futuro, de Simone Martins Rodrigues Pinto, muito didático e abrangente; e uma pequena introdução no Educabras. Outra sugestão de leitura são as próprias palavras de Mandela, no discurso quando de seu julgamento, I Am Prepared to Die, que pode ser lido, traduzido, iniciando aqui. 

Pensando em livros em português, recomendo duas opções. A obra África do Sul: História, Estado e Sociedade, de Paulo Fagundes Visentini e Analúcia Danilevicz Pereira, professores autores do Manual do Candidato, matéria História Mundial Contemporânea, para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata do Instituto Rio Branco. A outra opção é, novamente, irmos para as palavras de Mandela, com sua autobiografia, Longa Caminhada Até a Liberdade.

Deixo também o pedido para lembrarmos que Mandela era um ser humano, não um deus ou um diabo. O vídeo não passa nenhuma dessas duas mensagens, tampouco passaria. Seu ativismo e seu governo podem ser analisados com diversas críticas, como a pandemia de HIV que pouco recebeu atenção do governo.

Mandela agiu no mundo em que vivia, e foi criticado tanto por setores de esquerda quanto por de direita, algo que é passado no vídeo. Qualquer tentativa de enquadrá-lo como infalível ou como nefasto é radicalização ideológica. Motivada seja pelas políticas da Guerra Fria ou, algumas vezes, pelo próprio legado do racismo do apartheid, que foi, independente de perspectivas ideológicas, um regime racista, violento e tirânico.

Além disso, é importante tirar a aura de “querem sufocar a verdade” sobre alguns aspectos da vida de Mandela. Sua luta armada não é segredo algum. Suas relações familiares conturbadas, os casos de corrupção em seu governo, nada disso é segredo, está presente em livros, artigos e meios de comunicação famosos. Essa aura, esse tom, apenas colabora para exageros e teorias da conspiração. É importante notar que, em uma realidade em que a supremacia branca era a norma, Mandela foi um dos poucos pluralistas, desejando uma sociedade multirracial.

Sobre a orientação comunista de Mandela, ela pode ser dividida em três pontos. Em sua juventude, quando de fato ele militou no Partido Comunista e fundou seu movimento inspirado na luta cubana de Che e de Fidel; na sua vida adulta, quando ele torna-se mais um social-democrata e se aproxima de líderes socialistas e autoritários, como Castro, por terem ambos um inimigo em comum, o regime do apartheid; finalmente, seu governo, marcado por privatizações do aparato estatal pesado (legado do apartheid) e abertura à investimentos estrangeiros, com os fins das sanções internacionais. Isso é até mostrado no filme Invictus, quando Mandela acompanha um jogo de rúgbi durante uma reunião com investidores de Taiwan.

Sobre a violência, o Nerdologia deixa claro que Mandela fundou um movimento armado. O vídeo também deixa claro que havia violência entre negros, não apenas racial. E os números dessa violência estão nas fontes, discriminadas por grupos políticos e por demografia. Além disso, os maiores atentados do grupo Umkhonto we Sizwe ocorreram durante o período em que Mandela esteve preso, não é possível confirmar (ou seja, pode ser que sim, pode ser que não) que Mandela teve papel ativo em algum assassinato.

Sobre a questão dos diamantes, é uma indústria vital da África do Sul. Sendo assim, é óbvio e esperado o envolvimento da presidência do país no tema. E foi a África do Sul pós-apartheid, em um projeto ainda do governo Mandela, em parceria com o Canadá, que estabeleceu o Conselho Mundial de Diamantes e o Processo Kimberley, para diminuir e coibir o tráfico de pedras preciosas. A maior empresa de diamantes da África do Sul é a De Beers, fundada ainda no século XIX. Culpar Mandela ou seu governo pela existência desse tráfico, que o antecede e o sucede, não é razoável.

Sobre a atual violência contra brancos, já existiam fontes na descrição do vídeo, com o relatório da Comissão de Direitos Humanos da África do Sul sobre violência rural no país, e também um artigo crítico ao governo sobre violência rural, Rural Safety and the Disbandment of the Commando Units in South Africa. A África do Sul é o décimo país com mais homicídios do mundo, supera o Brasil em violência. O número de homicídios é altíssimo, mas não existe uma correlação racial neles, ou um genocídio branco, como também pode ser visto neste estudo.

Um abraço para todos que chegaram aqui. Caso queira ainda mais, outro texto de minha autoria que fala de Mandela pode ser lido aqui. E tem também um podcast de uma hora sobre a História sul-africana.


assinaturaFilipe Figueiredo é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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5 Comentários

  • Depois que o pessoal lê a “Historia politicamente incorreta” e descobre que tudo que é certo é errado e o errado é certo não tem mais volta. Infelizmente já ouço os comentaristas recusando as fontes “esquerdistas”.

  • Caio Rodrigo Parrela Vieira

    Gostei pelo simples fato de você tentar o máximo possível ser imparcial e isento. Parabéns!

  • Parabéns pelo trabalho Felipe, no Xadrez Verbal e no Nerdologia. Conteúdo de muita qualidade e totalmente didático.

    O post atual está muito bom, as críticas atuais estão com ideologias muito fortes e me parece que você tem conseguido manter isso de lado, mais uma vez parabéns.

  • Olá caro Felipe Figueiredo. Costumo acompanhar seus vídeos e textos. Muito bons. Parabéns.
    Gostaria de indicar que o volume da coleção História Geral da África com o capítulo sobre a África do Sul é o volume VIII, não? Não há um volume IX.

  • Alexandre Miranda

    Muito boa sua análise e gostei que você foi imparcial. Isso é importante e raro nos dias de hoje.

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