Mandela e os homens que fundaram um novo mundo

Nos últimos dias, temos acompanhado o desenrolar do estado de saúde do ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela. Aos 94 anos e com uma infecção pulmonar que o aflige desde 2011, as últimas notícias quando da redação deste post eram de que ele estava inconsciente e dependente de aparelhos médicos. Independente de a situação médica ser contornada agora, ou não, Mandela está no fim do curso natural da vida, e certamente seu falecimento será de comoção mundial e provavelmente, em seu país, sem precedentes. Farto material foi produzido, e ainda serão produzidos por muito tempo, sobre um dos personagens mais importantes da História recente, e seria impossível escrever sobre isso num mero blogue. Este post não será biográfico, mas para mostrar e contextualizar Mandela num seleto grupo que, em um panorama internacional extremamente delicado, fundou um novo mundo.

Nelson Mandela é o maior símbolo do fim do apartheid sul-africano. Seu ativismo político começou em 1952, em diversas organizações políticas (como o Partido Comunista local) e militantes (incluindo ai algumas que defendiam o uso da violência, a transição sul-africana não foi totalmente pacífica). Passou vinte e sete anos aprisionado por razões políticas. Após campanha internacional, recuperou seus direitos políticos em 1990. Atuou como presidente da África do Sul entre 1994 e 1999. Ele foi o primeiro Sul-africano negro no cargo, e o primeiro presidente eleito em uma eleição multirracial de voto plenamente democrático. Seu governo social-democrata focou-se em desmantelar o legado do apartheid institucionalizado, combatendo o racismo, a pobreza, a desigualdade, além de promover a reconciliação racial (iniciativa que foi possível essencialmente pelo seu caráter pacifista e sua personalidade). No panorama político internacional, é associado ao pan-africanismo. Mandela tornou-se o rosto de uma nova África, independente e igualitária.

O fato da campanha internacional pela libertação de Mandela ter ganho força no fim dos anos 1980 e lograr êxito em 1990 não é uma coincidência ou um fato desconexo. O mundo passava por profundas mudanças e incertezas políticas. O início do fim da União Soviética e seu bloco causou um efeito dominó de eventos e desdobramentos. E enquanto é certo que tais acontecimentos estão ligados à uma estrutura, também é certo que alguns indivíduos tiveram papel decisivo em como os eventos se desenrolaram. Contemporâneos de Mandela, não apenas cronologicamente, mas quando protagonizaram o palco internacional.

Helmut Kohl, que governou, incluindo RFA e Alemanha unificada, por dezesseis anos, gerenciou a unificação alemã, com uma política de conciliação, incluindo a destinação de vastos recursos econômicos para o equilíbrio entre as duas regiões anteriormente separadas. François Mitterrand, falecido em 1996, foi o primeiro presidente socialista da França e, em seus catorze anos de governo, contribuiu para a desfragmentação do espectro político local e, juntamente com Kohl, arquitetou grandes avanços na integração europeia. Defendia um novo modelo social-democrata, a terceira via, como sucessão do mundo dividido de forma bipolar na Guerra Fria. Outro defensor dessa ideia e articulador do fim da OTAN como uma aliança “anticomunista” foi Václav Havel, falecido em 2011, o último presidente da Checoslováquia e o primeiro presidente da República Checa. Assim como Mandela, Havel é ligado ao pacifismo (também foi preso por suas convicções políticas) e, por isso, tornou-se ícone da Revolução de Veludo, a transição pacífica do governo comunista pró-soviético para uma democracia auto-determinada, que possibilitou a dissolução do país (que Havel não apoiava, diga-se).

Todos os eventos, e pessoas, citados estão intimamente ligados ao fim da União Soviética e seu “bloco”. No Ocidente, reputa-se Mikhail Gorbachev como o protagonista e facilitador dessa dissolução e da adoção de democracias federativas na Rússia e demais países ex-soviéticos. Essa ideia não é errada, já que Gorbachev, como líder soviético, teve a iniciativa de reformas políticas e económicas, as famosas Glasnost e Perestroica. Mas essa noção é incompleta. Ambas as reformas falharam (Gorbachev futuramente concorreria para Presidente da Rússia, recebendo apenas 0.5% dos votos). Para os democratas, eram brandas demais. Para a linha-dura soviética, eram muito liberais. O maior protagonista da situação foi Boris Yeltsin, falecido em 2007. Infelizmente, Yeltsin é visto no Ocidente como um personagem caricato, por seu gosto pela bebida e falta de protocolo (Yeltsin será tema de um post exclusivo um dia). Mas foi Yeltsin que desafiou Gorbachev, mostrando que as reformas não eram suficientes. Foi Yeltsin que desafiou a linha-dura, resistindo ao golpe de Estado do Exército Vermelho em 1991, que tinha como objetivo derrubar Gorbachev. Foi Yeltsin o primeiro Chefe de Estado democraticamente eleito em uma Rússia republicana.

Yeltsin desafia Gorbachev no Parlamento Soviético, em 1991

Yeltsin desafia Gorbachev publicamente, no Parlamento Soviético, em 1991

Como, infelizmente, o leitor pôde notar, a maioria dos citados já faleceu, todos na casa dos setenta anos. Kohl já está na casa dos oitenta anos, e a saúde frágil de Nelson Mandela não permite muitos otimismos, apenas a compreensão do curso natural da vida. Esse grupo seleto que está acabando nos deixa duas lições, mesmo em um texto resumidíssimo com esse. Primeiro, a de pessoas que viram oportunidades de mudança e abraçaram a chance, defenderam suas ideias e contribuíram para uma mudança da ordem estabelecida, subvertendo fatores de opressão, como a segregação racial. Segundo, que, individualmente, não importam os motivos ou o momento de nossa morte. Ela é inevitável, a única certeza que temos. O legado e o impacto de nossas ações sim, importam. Especialmente em nossa vida política.

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