Desqualificação: ONU “mentirosa” e a fome no Brasil

Agora o Xadrez Verbal terá conteúdo novo todo dia, leia mais no editorial sobre esse importante passo no blog e também podem ter o desprazer de acompanhar o blogueiro no meu perfil pessoal do Twitter, @FilipeNFig

Caros leitores, como muitos de vocês devem saber, no último 16 de Setembro, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (conhecida pela sigla em inglês FAO), publicou o seu Mapa da Fome anual. Pela primeira vez, o Brasil não está no grupo de países destacados, significando que a fome, como condição estrutural, está restrita a menos de cinco por cento da população. O fato é motivo de comemoração e, logicamente (e, até certo ponto, justamente), foi apropriado no atual contexto eleitoral brasileiro. A reação, seja na mídia, seja no debate, se deu por tentativas diversas de desqualificar a notícia, o que, além de lamentável, não se sustenta.

fome

A primeira forma de desqualificação, mais presente e mais óbvia, é desqualificar a FAO (chamada até de “mentirosa”) pelo seu Diretor-Geral, José Graziano da Silva, ex-ministro por dois anos do primeiro mandato de Lula. Sendo assim, por sua ligação com o Partido dos Trabalhadores, Graziano teria manobrado as estatísticas para agradar o governo brasileiro, uma manobra eleitoreira motivada por razões ideológicas. Graziano iniciou seus trabalhos na FAO em 2006. Tornou-se Diretor-Geral em Junho de 2011, três anos atrás, com noventa e dois votos no segundo turno, contra os oitenta e oito votos do espanhol Miguel Ángel Moratinos; ambos derrotaram outros quatro candidatos no primeiro turno.

Eleito pela maioria, o mandato de Graziano vai até Julho de 2015, o primeiro de menor duração. Anteriormente, os mandatos eram de cerca de seis anos. De 1994 até 2011, a FAO foi dirigida pelo senegalês Jacques Diouf, muitas vezes candidato único. Qual a razão para essa mudança, para uma situação com mandatos menores e uma disputa acirrada? Justamente a crise de abastecimento e dos preços dos alimentos, tema de reunião dos ministros do G20 durante o processo eleitoral. O G20 articulou um plano comum para tentar combater a crise.

Esse contexto de crise e o debate de ideias sobre como solucioná-la cria o ambiente de disputa eleitoral; Graziano foi eleito, em sua maioria, pelos votos de países em desenvolvimento. Em contraste, os países desenvolvidos formam o maior grupo do G20 e o grupo dos principais financiadores da FAO, ou seja, seria exigida de Graziano uma gestão conciliadora. O fato de o brasileiro ter conseguido lidar com a diminuição do orçamento da FAO, que caía constantemente até 2005 (já que a FAO não era considerada, anteriormente, necessária de fundos emergenciais), com a participação essencial de Estados Unidos e da União Europeia, demonstra que essa concertação está sendo conseguida. O orçamento da FAO, comparados os biênios 2012-13 e 2014-15, inclusive aumentou.

Além dessa articulação por motivos financeiros, existe um enquadro de metas. A gestão de Graziano, embora tenha liberdade de ação e anunciado ideias próprias na posse, e uma reforma de paradigmas orçamentários (endossada, em parte, pela União Europeia), está inserida no contexto de cumprimento das chamadas Metas do Milênio, oito objetivos traçados em 2000. Concluindo, Graziano não poderia, “por ser petista”, fazer alguma grande manobra eleitoreira ou fraudulenta, já que está comprometido em um contexto mais amplo, com seu orçamento atrelado aos países desenvolvidos. A segunda desqualificação está ligada ao diretor-geral, mas de forma indireta. Teria sido responsabilidade de Graziano se “auto elogiar”, já que o relatório sobre o Brasil menciona o programa Fome Zero, que foi de sua direção.

Além disso, o Fome Zero seria algo “inexistente” ou um “fracasso”. De fato, o nome Fome Zero foi gradualmente retirado, sendo substituído pelos nomes dos programas que o compunham, como o Bolsa-Família e o Programa Nacional de Acesso à Alimentação. O Fome Zero, como meta, é reconhecido internacionalmente. Além disso, o responsável pelo relatório final sobre o Brasil sequer foi Graziano, já que ele é o Diretor-Geral; o relator é Alan Bojanic, chefe do escritório brasileiro da FAO, que já chefiou a representação para América Latina e o Caribe. Finalmente, ocorre também a manobra de desqualificar as fontes dos dados contidos nos relatórios.

Diversos dos dados dos relatórios da FAO são provenientes de agências nacionais, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística no Brasil ou o Departamento de Agricultura do governo dos EUA (USDA, em inglês). Dadas as recentes polêmicas envolvendo o IBGE ou também o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, acusam-se os dados de serem falsos ou errados. Na metodologia utilizada, para afirmar que houve uma queda na fome estrutural, existe um trabalho comparativo; por exemplo, ao discutir obesidade no Brasil, resgatam-se dados do IBGE colhidos na década de 1970. Tal sequência histórica de dados dificilmente poderia ser maquiada. E a produção atual de dados?

Podem-se contestar dados do IBGE ou do IPEA, mas apenas desconsiderá-los, sem provas, ou presumir que são maquiados é tão torpe quanto seria a própria maquiagem de dados. Além disso, outras organizações monitoram dados similares, como o preço dos alimentos, tal qual o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), órgão que faz o diálogo entre governo federal e FAO, é composto, em dois terços, por membros da sociedade civil.

O principal, entretanto, é que a própria FAO monitora e checa os dados. O relatório sobre o estudo de caso brasileiro contém quatro páginas de referências bibliográficas, incluindo trabalhos acadêmicos e relatórios da própria FAO. Não é despropositado que, no Mapa da Fome, está grafado “FAO” como fonte dos dados. A FAO possui uma das principais divisões estatísticas das Nações Unidas, reunida em um portal interativo (que atualmente está em migração, nem todos os dados estão lá; você pode acessar o antigo também). Um dado fornecido pelo governo é checado, tanto metodologicamente (uma das razões da mudança de números, já que houve mudança metodológica) quanto o resultado.

O relatório de 2014, O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil, Um retrato multidimensional, contém sete, das noventa, páginas que comentam debates correntes e soluções ainda necessárias no Brasil. Além disso, afirma que 3.4 milhões de pessoas ainda passam fome no Brasil, cerca de 1.7% da população. Não se trata de afirmar que o Brasil tornou-se um país de primeiro mundo ou que não existem problemas ainda por resolver. Um dos problemas, entretanto, a fome, está sendo erradicado.

O que o relatório da FAO deve proporcionar é o reconhecimento e observação de que, entre 1990 e 2014, o percentual de queda da fome estrutural brasileira foi de 84,7%. Que programas como Bolsa-Família, Programa Nacional de Alimentação Escolar (que é de 1955, diga-se) e o Programa Nacional de Fortalecimento da agricultura Familiar aumentaram, em dez anos, a oferta de calorias para a população em 10%. Diversas outras conquistas podem ser citadas, e estão elencadas no relatório. O Brasil conseguiu, em pouco mais de uma década, sair do quadro da fome estrutural. Isso deve ser comemorado e, o mérito, reconhecido. Como diz o ditado, o resto é intriga.

*****

O leitor pode acessar o Mapa da Fome, em alta resolução, e seus dados interativos aqui neste portal. Tanto o relatório sobre o estudo de caso brasileiro, na íntegra e em português, e o relatório mundial, em inglês, podem ser baixados ao final desta página. Um dos capítulos do relatório mundial trata do Brasil.

*****

Como sempre, comentários são bem vindos. Leitor, não esqueça de visitar o canal do XadrezVerbal no Youtube e se inscrever.

*****

Caso tenha gostado, que tal compartilhar o link ou seguir o blog?

Acompanhe o blog no Facebook e no Twitter e receba notificações de novos textos e posts, além de outra plataforma de interação, ou assine o blog com seu email, na barra à direita da página inicial. E veja esse importante aviso sobre as redes sociais.

Anúncios

4 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s