Os erros da imprensa brasileira e o radicalismo: A direita europeia não cresceu

Caros leitores, no último final de semana foi realizada a eleição dos representantes no Parlamento da União Europeia. Foram eleitos 751 representantes nos vinte e oito países atualmente membros, de forma proporcional a cada população. A Alemanha, por exemplo, elegeu 96 parlamentares, enquanto Chipre, Estônia, Luxemburgo e Malta elegeram seis parlamentares cada. O índice de participação eleitoral foi de 43,09%. Você pode acessar as informações da eleição no portal da UE, em português, aqui. Alguns jornais e meios de comunicação afirmaram que a eleição sacramentou um crescimento da direita europeia. Isso não apenas está simplesmente errado, como ocorreu o contrário.

EUeleicaoSomando o gráfico acima, cuja fonte é o portal citado na introdução, com as notícias de filiação dos partidos novos no portal de notícias EurActiv, nota-se que a centro-direita (Liberais) e a direita (Conservadores, Antifederalistas e direita radical) somam 362 representantes. Comparado com os resultados de 2009, também disponíveis em português, o mesmo bloco somava 445 representantes em 2009, de um total de 766. A representação da direita no Parlamento Europeu sofreu justamente o contrário, ela diminuiu. O que houve não foi seu crescimento, mas a radicalização da representação política. O grupo com maior queda na representação foi o dos Conservadores, que perderam 55 assentos, seguidos dos liberais, que perderam 26; em contraste, a direita radical subiu de 31 para 40.

Em comparação, a esquerda; verdes, sociais-democratas, socialistas e radicais. Em 2009, o bloco tinha 288 assentos, agora terá 284. Exceção aos verdes, que perderam cinco assentos, os outros grupos vieram sua representação aumentar. Os sociais-democratas viram seu número diminuir, de 196 para 192, mas proporcionalmente a representação aumentou, dada a diferença da totalidade de eleitos. A esquerda radical saltou de 35 para 50 representantes. Justamente o grupo com maior crescimento!

Finalmente, foram eleitos ainda 41 representantes sem partido e 54 representantes de partidos novos. Normalmente são candidatos de partidos nacionais pequenos, ou até mesmo de partidos europeus. Pelas regras da União Europeia, para ser formado um bloco no Parlamento, se faz necessária a presença mínima de 25 deputados de ao menos sete países diferentes. Esses pequenos grupos variam por todos os espectros políticos. São 95 representantes que não estão em nenhum bloco ainda.

Alguns deles provavelmente somar-se-ão aos blocos radicais (como os representantes da Frente Nacional francesa, de Jean-Marie Le Pen, de direita, ou o representante do espanhol EPyD, de esquerda. Correção: o EPyD é de centro), mas habitualmente esses eleitos transitam de acordo com as circunstâncias. O caso mais curioso é o do Partido das Cinco Estrelas italiano, que elegeu dezessete representantes, no bloco dos partidos novos. O partido foi fundado recentemente, em 2009, e suas cinco estrelas representam abastecimento público de água, transporte sustentável, desenvolvimento sustentável, conectividade na Internet e ambientalismo; o movimento não se classifica como de “esquerda” no espectro europeu, afirmando ser uma nova esquerda. Ou seja, ao contrário do senso comum demonstrado na grande mídia brasileira, não é possível dizer que os novos partidos são em sua maioria de direita.

Antes de continuar a análise, cabe uma breve explanação. O espectro político europeu é extremamente amplo. Afinal, trata-se de vinte e oito países, cada um com sua dinâmica partidária. Somam-se a isso os problemas e debates particulares ao Parlamento Europeu. Dois partidos que se identifiquem como sociais-democratas, por exemplo, podem ter posturas diferentes em relação à Eurozona ou políticas migratórias. No bloco da direita, foram citados os Antifederalistas. São partidos com diferentes características, mas em comum a luta contra a formação de uma Federação dentro da União Europeia. Esse é um tema extremamente complexo, que merece um longo texto próprio, mas, resumidamente, existem partidos e indivíduos que defendem um processo gradual de supranacionalidade na União Europeia que culmine com o estabelecimento de uma federação. A Europa como única entidade.

Continuemos. A parcela de votantes foi baixa, 43,09%. Não muito abaixo da parcela de 2009, 43,24%. Essa “pouca atratividade” das eleições parlamentares europeias (como comparação, nas últimas eleições federais alemãs, em 2013, 71,5% do eleitorado votou) faz com que, proporcionalmente, o voto “militante” ganhe mais poder, o que ajuda a explicar partidos menores ou radicais conseguirem eleger representantes. Isso cria a ilusão de que o sistema político europeu foge ao sistema tradicional quase bipolarizado, que opõe partidos nacionais de centro-esquerda (S&D, sociais-democratas ou trabalhistas) aos partidos nacionais de centro-direita (EPP, democratas e democratas-cristãos). Embora o sistema político europeu seja mais complexo que os sistemas políticos nacionais, ele ainda é dominado por esses dois grandes grupos, tais quais os cenários políticos locais.

A conclusão mais importante das eleições europeias é que ela explicita o que já era notado tem alguns anos, e dito várias vezes nesse blog: a volta do radicalismo. Isolando os grupos de extrema-direita e extrema-esquerda, ambos tiveram crescimento. Nove representantes a mais para a direita, e quinze novos representantes de extrema-esquerda. Boa parte da extrema-direita vem do Reino Unido, com vinte e quatro eleitos pelo UKIP (Partido da Independência do Reino Unido), um partido populista-nacionalista cuja principal perspectiva em relação à União Europeia é que o Reino Unido deixe a UE, por mais paradoxal que seja.

Na extrema-esquerda, boa parte dos novos representantes é proveniente dos países que mais sofreram com a crise econômica, como Irlanda, Espanha e, principalmente, Grécia, com oito dos vinte e um representantes do país sendo de extrema-esquerda. Seis são da SYRIZA, a Coalizão de Extrema-Esquerda, que prega um calote grego em sua dívida externa, algo que também conflita com os parâmetros da UE. A participação grande de partidos com propostas radicais é mais um demonstrativo da importância do voto militante, citada anteriormente.

A existência de partidos radicais de direita, com agendas anti-imigrantes e xenófobas, racistas, nacionalistas e até mesmo esbarrando no nazifascismo, não é novidade na Europa. Seu crescimento é preocupante e demonstrativo da radicalização política dos últimos anos; entretanto, no geral, a direita europeia tradicional recuou, assim como a esquerda tradicional. O crescimento da extrema esquerda também é preocupante para a existência da União Europeia. O que não é compreensível é a falta de análise e os erros de interpretação presentes em grandes meios de comunicação. No final das contas, tais erros (se não intencionais, claro) apenas servem para transmitir uma mensagem errada e dar ainda mais crédito ao senso-comum que sustenta os radicalismos.

Atualização, 28/05, 17:00 : O bloco conservador conta agora com 49 assentos, com as adesões do búlgaro BBTs e do eslovaco OL’aNO; com isso, a extrema-direita cai para 39 assentos. Além disso, a extrema-esquerda subiu para 51, com a adesão do alemão TIERSCHUTZ.

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