A Ucrânia foi para o espaço

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Caros leitores, depois de algum tempo, retomo o assunto da Ucrânia aqui no blog escrito. No começo de Abril, a Agência Espacial dos EUA (NASA) iniciou um processo de corte de relações de cooperação com a Rússia, como parte das sanções em relação à crise na Ucrânia. Outras medidas foram adotadas desde então. O único aspecto “poupado” dessas sanções foi a cooperação entre os países no que concerne a Estação Espacial Internacional (ISS). No último mês, a Rússia decidiu retaliar. Negou o uso futuro, por parte de empresas dos EUA, de motores de foguetes de tecnologia russa, e, de acordo com a imprensa, “negou o uso” da ISS por parte dos EUA depois de 2020. O que tudo isso significa?

O astronauta Thomas P. Stafford e o cosmonauta Aleksei A. Leonov se cumprimentam no espaço em 17 de Julho de 1975, durante a acoplagem da Soyuz soviética com uma Apollo dos EUA. Foto: NASA

O astronauta Thomas P. Stafford e o cosmonauta Aleksei A. Leonov se cumprimentam no espaço em 17 de Julho de 1975, durante a acoplagem da Soyuz soviética com uma Apollo dos EUA. Foto: NASA

Num primeiro momento, causa estranhamento que a Rússia “negue” o uso da ISS pelos EUA depois de 2020. Afinal, qual a lógica de uma retaliação russa daqui a seis anos, contra sanções atuais? O ano de 2020 é nada mais que a data prevista de encerramento das atividades da ISS; porém, como seu funcionamento está excelente, assim como sua manutenção, os países parte do consórcio planejavam estender a vida útil da estação para além dessa data. O uso até 2020 já está acordado e assinado, não é possível alterar isso. O que a Rússia fez foi declarar que não tem interesse em participar dessa prorrogação da ISS. Por isso, retirará seus módulos da estação, o que inviabiliza seu funcionamento, já que a área russa é justamente a área de acesso para a ISS.

Na verdade é pior que isso. Na altitude que a ISS orbita, cerca de 370 Km, ainda existe algum resquício de arrasto aerodinâmico, ainda que muito pequeno. Com o tempo, isso vai desacelerando a estação, o que diminui sua altitude, e com isso o arrasto aumenta ainda mais. Por isso ela precisa regularmente de impulsos de aceleração para manter sua orbita. Isso é feito pela parte russa, a única com motores potentes o suficiente pra isso. Existem ainda outras funções executadas pelos russos, que é a parte operacional da estação, onde está o suporte de vida, banheiro e cozinha. Desses, todos podem ser feitos, com menor eficácia, por outras partes da estação. O que realmente não tem como substituir sem lançar um novo módulo (com grande custo, inclusive pela pressa) é o controle de altitude. Sem o módulo orbital russo, a ISS tem poucos meses antes que reentre na atmosfera.

A Rússia então descartaria seus módulos? Não necessariamente. A Rússia poderia formar uma estação espacial nova, autônoma, tal como a MIR, a primeira estação espacial do tipo, construída ainda pela União Soviética. Existe até o projeto da OPSEK. Vladimir Putin, recentemente, anunciou um cheque bem gordo para as verbas espaciais russas (ou seja, dinheiro não seria necessariamente um problema), em contraste aos gastos orçamentários na NASA. A NASA ainda seria, mesmo com esse aumento orçamentário da Roscosmos, de longe a agência espacial com maior verba do mundo. A NASA, entretanto, faz de tudo (exploração espacial, sondas, pesquisa, etc). Então às vezes não sobra tanto dinheiro pra projetos específicos. Outra possibilidade considerável é a colaboração com a China para a formação da estação espacial. A China possui um programa espacial bem ambicioso, colocou astronautas em órbita de forma autônoma, operou recentemente um rover lunar, além de verbas e disponibilidade material. Isso somado à expertise russa na área pode resultar uma combinação proveitosa para ambos. Além disso, a cooperação entre os países apenas cresceu na última década. Nessa semana, os países iniciaram manobras militares conjuntas inéditas e assinaram um acordo energético recorde, válido por 30 anos e de quatrocentos bilhões de dólares.

Um indício interessante para essa colaboração é a construção do novo cosmódromo russo de Vostochny, justamente perto da fronteira com a China. A construção desse novo polo espacial possui dois objetivos. O primeiro é sediar a nova família russa de foguetes, Angara, de última geração. As instalações serão todas feitas especificamente para os novos veículos. O segundo motivo é diminuir a dependência russa do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão. Antigo polo espacial soviético, Baikonur é de vital importância até hoje. É justamente de lá que partem os astronautas e cosmonautas da ISS, inclusive os dos EUA e europeus. Por razões geográficas, o cosmódromo foi construído no Cazaquistão, para ficar mais perto da linha do Equador. Após a dissolução da União Soviética, o cosmódromo ainda é propriedade russa, mas em território cazaque; ou seja, depende da relação bilateral dos países, tal quais as bases russas na Crimeia.

Uma eventual parceria desse nível entre Rússia e China poderia indicar uma orquestração entre os BRICS na área espacial? Difícil dizer. A Índia certamente teria interesse na área, já que também possui um programa espacial interessante, mas certamente encararia certa pressão internacional, já que participar de um programa espacial pode sugerir o desenvolvimento de mísseis balísticos intercontinentais de longo alcance. Lembro-os que a Índia possui ogivas nucleares e mísseis de curto alcance, e, por exemplo, os EUA não veriam tal desenvolvimento com bons olhos. Recentemente, Obama deu apoio ao pleito indiano de uma reforma do Conselho de Segurança.

No caso da África do Sul, o interesse provavelmente seria mínimo. Chegamos então ao Brasil. O país possui programa espacial e interesse na área, mas não dispõe de verbas e ainda não se recuperou da explosão de Alcântara, que vitimou os principais cérebros do país na área. Além disso, possui acordo espacial justamente com a Ucrânia, pivô de toda essa crise. A maior contribuição brasileira, hoje, para qualquer programa espacial, seja ucraniano, russo ou dos EUA, é sua posição geográfica. O país pode lançar um foguete diretamente da linha do Equador, em Alcântara, o que aumenta de forma substancial a produtividade do foguete; um mesmo foguete pode carregar 1.1 tonelada extra, comparando Baikonur com a linha do Equador. Um eventual rompimento do acordo com a Ucrânia é muito improvável, vide que já está tudo assinado e dinheiro já foi investido.

A única possível falha no diálogo entre os países deriva do uso, por parte dos motores ucranianos, de um combustível altamente tóxico, que também ainda é utilizado pelos motores russos no Cazaquistão, origem de gastos russos como contrapartida. Os componentes do referido combustível são proibidos pela legislação ambiental brasileira, das mais progressistas do mundo. A retirada do uso desses materiais tóxicos também está relacionada com a nova família de foguetes russos; já os motores russos fornecidos aos EUA não usam esse combustível.

A interrupção do fornecimento e de manutenção desses motores para empresas dos EUA, incluindo aí empresas privadas, como a SpaceX, pode ou não pode ser um problema para o país americano. O motor em questão é o RD-180, motor de origem soviética altamente eficiente, vendido para os EUA nos fim dos anos 1990, e usado em um de seus principais foguetes comerciais, o Atlas V. Os russos dizem que não permitirão que esse motor seja usado para lançamentos com fins militares dos EUA, o que causa um problema, já que todos os lançamentos militares americanos são feitos hoje pela empresa que opera esses motores, seja pelo Atlas V, que usa o motor em questão, seja pelo mais caro Delta IV que usa motores americanos. Ou seja, o problema é mais econômico do que estratégico. Os americanos não dependem totalmente do Atlas V para seus lançamentos militares, e podem começar desde já a só usar os RD-180 que já estão em território americano (dizem eles ter estoque para 2 anos de operações normais) para lançamentos militares, repassando cargas civis para outros foguetes ou para a SpaceX, que usa motores americanos. Pode ocorrer, entretanto, um grande aumento do custo operacional.

As sanções espaciais iniciadas pela NASA e pelo governo dos EUA foram criticadas até pelo seu pessoal, como essa carta aberta de um astronauta. Mesmo no auge da Guerra Fria, o espaço era visto como um território neutro, em que a cooperação era mais importante, como no simbólico episódio do aperto de mão entre um astronauta e um cosmonauta. Com o colapso soviético, o espaço foi visto como o lugar ideal para fundar as novas relações de cooperação e amizade internacionais, cujo ápice é justamente a ISS. Ao politizar o uso do espaço, Obama deu mais um tiro no pé, que já parece um queijo suíço. Esqueceu que seu país também depende da cooperação. E a Rússia não se fez de rogada. Reagiu como reagiu no episódio de sua expulsão do G8: demonstrando que o foco de suas parcerias pode ser outro fórum.

Texto de Filipe Figueiredo e Rodrigo Oliveira

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