1964: entre um golpe e outro.

Caros leitores, se aviso quando um texto é grande, cabe avisar quando um texto é mais curto, como o de hoje. Leitura rápida!

Caros leitores,

Como já sabem ao ponto da exaustão, no dia de hoje, cinquenta anos atrás, foi concluído o processo do golpe militar iniciado no dia 31de Março de 1964. O golpe derrubou o Presidente eleito e instaurou um governo autoritário que duraria mais de duas décadas. O tema, por diversos fatores, desperta grandes paixões, um debate acalorado, recheado de acusações de ambos os “lados”, e a data não poderia ficar de fora do XadrezVerbal. Um argumento, entretanto, é o que mais me desperta a atenção, desde muito tempo. O de que o golpe militar foi um “contragolpe”, que impediu um golpe, esse outro comunista.

Esse argumento pôde ser visto na Câmara dos Deputados, com uma faixa afirmando que os militares “salvaram o Brasil de virar uma Cuba”. Ainda é presente em entrevistas, discursos, debates, etc. É fato de que existia uma esquerda radical no Brasil. É conhecido que grupos armados tinham como projeto de poder um governo também autoritário, mas de outro prisma ideológico, mesmo antes do AI-5 de 1968. Mas tais grupos nunca foram maioria, sequer expressivos. E chega a ser triste que, para impedir um golpe armado que fechasse o Congresso e instaurasse um governo autoritário, os militares fizeram o quê? Um golpe armado que instaurou um governo autoritário.

Ligar uma coisa à outra é extremamente superficial, até desabonador em relação aos próprios militares. O papel constitucional das Forças Armadas é justamente o de manter a ordem constitucional; se há uma tentativa de golpe (que não chegou a ocorrer, sempre bom lembrar), que ela seja suprimida. Que se garanta a Constituição e a democracia, invés dos militares rasgarem a Carta Magna. Como o Marechal Lott fez em duas ocasiões, quando setores militares, sob a mesma justificativa, tentaram antecipar o golpe de 1964, e foram barrados por Lott, que cumpriu com seu dever. Essa consciência do papel constitucional das Forças Armadas estava presente também em 1964; exemplo disso é o Brigadeiro Rui Moreira Lima, herói da Segunda Guerra Mundial que foi cassado pela ditadura por defender a democracia.

Pode-se argumentar que vivíamos em outros tempos, a Guerra Fria e seu embate ideológico, radicalizado e global. O Brasil necessitava tomar um lado naquele conflito adormecido, ou o lado comunista, liderado pela União Soviética, ou o lado dito capitalista, liderado pelos EUA. E os militares executaram a segunda opção. Nesse caso, chega a ser irônico, pois os militares, ao afirmarem que a situação era inevitável, ou pré-determinada, se colocam no centro da teoria de Superestrutura (obviamente resumida por didatismo). De Karl Marx. Como se a relação de forças diminuísse, ou até retirasse, o poder de interferência dos militares.

A ironia continua. Os protagonistas do golpe, ao tomar o lado dos EUA, afirmavam estarem tomando o lado da liberdade, política e econômica, contra a opressão comunista, além de outros conhecidos elementos da retórica da Guerra Fria. Mesmo em 1964, outras ditaduras estavam desse lado do conflito, como Portugal de Salazar, membro-fundador da OCDE e da OTAN, mas a ironia não é essa; é não notar que democracias estavam nesse conflito, e que se os EUA poderiam (e ainda podem) ser tomado como exemplo de superpotência geopolítica e econômica, é justamente porque se trata do único país que, com mais de duzentos anos de História independente, nunca deixou de ser uma democracia (claro que existem diversos níveis de democracia, e alguns fatores, como a escravidão, devem ser discutidos, mas não cabem aqui).

O golpe de 1964 não foi um contragolpe, não impediu o Brasil de “se tornar uma Cuba” nem salvou o país de um governo autoritário comunista. O golpe de 1964 instaurou um governo autoritário. Ceifou vidas. Gerou sequelas sociais e políticas ainda afloradas, mesmo cinquenta anos depois. E, independente das eventuais benesses econômicas dos governos do período (que serão discutidas aqui), não deveria ser motivo de orgulho. Pelo contrário. O ano de 1964 foi quando o Brasil se apequenou no cenário internacional e submeteu-se, passivo, ao conflito ideológico vigente.

*****

Caros leitores, intencionalmente, para melhor fluidez do texto, não coloquei nenhum link no meio dele. Os links ligados ao texto seguem abaixo.

Sobre o Marechal Lott, aqui no XadrezVerbal: O paradoxo da força e Marechal Lott

Sobre o Brigadeiro Rui Moreira Lima, também aqui no XadrezVerbal: Rui Moreira Lima – testemunha, depoente e autor da História

Ainda aqui no blog, sobre a distinção entre os termos golpe e revolução: A agenda do Itaú: Revolução de 1964, qual o problema com o termo?

João Goulart e a ausência de “golpismo” por parte do então Presidente.

Sobre a falta de expressividade popular da luta armada radical, especialmente pré-1968, recomendo esta breve entrevista com o historiador Daniel Aarão Reis Filho.

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12 Comentários

  • Como sempre, o autor brinda seus leitores com um ótimo texto. Conciso e esclarecedor.

    Os EUA lançaram o ultimato: Ou vocês estão com a gente ou estão contra a nós. Tanto que já estavam com a Frota do Caribe a caminho do Brasil para dar uma mão aos milicos golpistas.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Opera%C3%A7%C3%A3o_Brother_Sam

  • Parabéns pelo texto!
    Não entendo essa mania de quando tem algumas pessoas revoltadas com o sistema, é porque são comunistas ou é culpa do Comunismo etc…
    O Comunismo parece que virou bode expiatório pra toda revolta o.O

    Vou esperar por outros post do golpe militar 🙂

  • Entendo que não é o caso de “se orgulhar” do golpe, contragolpe, revolução ou movimento de 1964, mas é errado classificar o risco de, na época, o Brasil se tornar uma ditadura do estilo cubano. O fato é que a “terrível máquina da ditadura” matou cerca de trezentos e tantos brasileiros, e a “insignificante esquerda radical” matou cerca de duzentos… a conta não fecha, essa história só vai ser devidamente contada quando os interessados nela já não estiverem vivos e, principalmente, quando não estiverem no poder e na cabeça dos meios de comunicação e acadêmicos. Até lá, infelizmente, vai ser uma história contada por apenas um dos lado. Provavelmente daqui a mais cinquenta anos essa história será contada com maior proximidade da verdade dos fatos.

  • Corrigindo: “é errado DESCLASSIFICAR o risco…”

    • Caro Eduardo, se havia tal risco, como mencionei os grupos armados radicais, que se suprimisse o referido risco, e não executarem a mesma ação teoricamente combatida.

      E sobre a conta dos mortos, de fato, a conta não fecha, pois o número de mortos pela repressão não é de “trezentos e tantos”; por exemplo, apenas agora está vindo à tona o número de mortos indígenas.

      Um abraço

      • Considerar que “executaram a mesma ação” é ignorar solenemente a época em que os fatos se deram, além de igualar coisas diametralmente diferentes. Se a ditadura cubana ou soviética tivessem, como na ditadura brasileira, eleições diretas para prefeitos de 95% das cidades, para vereadores, deputados e senadores, partido de oposição, congresso em funcionamento, alternância no poder por eleições (ainda que indiretas) poderíamos falar de “mesma ação teoricamente combatida”, caso contrário trata-se apenas de mais uma simplificação desproposital, Se estudarmos as teorias positivistas de Augusto Comte, base do pensamento dos militares brasileiros desde o século XIX, poderemos entender melhor a base teórica do golpe, sem cair nessa “cilada” ideológica cometida na conclusão acima.

        E para a conta fechar para classificarmos como “terrível máquina da ditadura” e “insignificante esquerda radical” precisariam ter morrido milhares de indígenas…
        Os números continuam contrariando a estória que tenta se contar.

      • Caro Eduardo, acredito que a cilada ideológica está em fazer inferências. “Executar a mesma ação” se refere, e se limita, a dar um golpe para “impedir um golpe”.

        Comparar os graus de autoritarismo entre governos da época que é desproposital; de “não ser o propósito” do texto.

        E, sobre fechar a conta, acredito que as aspas não são necessárias, já que nenhum dos termos foi utilizado no texto, novamente, uma inferência. E sim, milhares de indígenas morreram.

        http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FDireitos-Humanos%2F-Houve-exterminio-sistematico-de-aldeias-indigenas-na-ditadura-%2F5%2F25583

        Um abraço

  • As aspas são colocadas justamente para representar uma ideia, apresentada no texto, pois se “O golpe de 1964 não foi um contragolpe, não impediu o Brasil de “se tornar uma Cuba” ” conclui-se que essa possibilidade não existia, pois sobre os grupos da lula armada ” tais grupos nunca foram maioria, sequer expressivos” (referências literais do texto), daí a expressão “insignificante esquerda radical”, uma frase minha cunhada entre aspas que por sintetizar o meu resumo da ideia acima descrita. Da mesma forma o texto diz “O golpe de 1964 instaurou um governo autoritário. Ceifou vidas. Gerou sequelas sociais e políticas ainda afloradas, mesmo cinquenta anos depois.” , o que foi por mim resumido como a “terrível máquina da ditadura” por motivos óbvios.
    A comparação de graus de autoritarismo não só é relevante como primordial para a discussão apresentada, pois na hipótese de se impedir um golpe que instituiria uma ditadura ferrenha, cruel e de caráter permanente com um contragolpe que institua uma outra ditadura, mais branda e com duração menor, isso explicaria, sem sombra de dúvidas, o motivo da atitude tomada. Não é preciso concordar, mas apenas compreender.

    E sobre a questão indígena, o link apresentado é suficiente para mostrar inverossímil a versão dos “milhares” de indígenas mortos. Primeiro porque na história do Brasil quando se fala em “extinção” de raças indígenas, muitas vezes está se falando de grupos e grupos de silvícolas que abriram mão de suas aldeias e suas culturas para, por motivos diversos, assumirem o estilo de vida judaico-cristão da sociedade branca brasileira. Outra questão é simplesmente logística: com que estrutura militar seriam realizados os supostos assassinatos, aos milhares? No meio da selva? Seria isso possível? A ditadura estaria, então, mais preocupada com as tribos indígenas que com as células subversivas da luta armada, colocando contra eles uma estrutura cerca de dez vezes maior?
    Se isso realmente ocorreu (e não há sequer uma evidência real ainda) a história mudará completamente de rumo, os militares, na verdade, não deram o golpe contra a ameaça comunista, nem queriam governar o país por 21 nos, esqueçamos aquele tal interesse norte-americano, a guerra fria e a operação condor, na verdade eles só desejavam uma coisa: exterminar os índios.

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  • Radicalismo sempre cega. Este é o risco de ter que defender tudo só por que se escolheu um lado. Pode-se entender o golpe para além de um simples massacre premeditado e poder pelo poder, mas isso não exige que compremos outra lenda no lugar da anterior. Houve erros, excessos e injustiças. Quase nenhuma delas justificáveis, mas muitas “entendíveis”. E que realmente a entendamos para não as cometamos novamente.

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