As lições da História: Um aniversário sombrio

Caros leitores e amigos, em homenagem aos fiéis leitores e seguidores, estou fazendo uma pequena promoção na página do blog no Facebook, hoje é o último dia, caso queira participar, veja aqui.

Este é o primeiro de uma série de textos sobre a Alemanha do período entre guerras, com algumas reflexões sobre a contemporaneidade. Hoje a tentativa de golpe do Putsch da Cervejaria, a primeira tentativa de Adolf Hitler e o partido nazista tomarem o poder na Alemanha, completa 90 anos.  Em Oito de Novembro de 1923, Hitler e cerca de dois mil de seus partidários marcharam rumo ao centro de Munique, capital da Bavária. Podem ser citados diversos motivos para o ato, mas estão todos ligados ao mesmo contexto de divisão política radical, de distúrbios econômicos e políticos, e esse panorama maior que será o objeto destes posts.

Na época, o Putsch parecia apenas mais um dentre diversos episódios de conflito e convulsão política. O primeiro objetivo seria derrubar o governo bávaro, arregimentar todas as diversas milícias paramilitares (Freikorps) da região e, então, marchar rumo à Berlim, tal qual Mussolini marchou para Roma, derrubar o governo social-democrata e instaurar um novo governo, que faria frente às supostas ameaças ao povo alemão, como os judeus e o comunismo. O golpe fracassou em seus primeiros estágios. Morreram vinte pessoas, incluindo quatro policiais, e a tentativa de golpe fracassou. Hitler foi preso dois dias depois, e condenado a cinco anos de prisão; cumpriu apenas nove meses da sentença, período em que escreveu Minha Luta, e o Putsch rendeu uma grande oportunidade de propaganda, tanto para Hitler quanto para o Partido e seus “mártires”.

Militantes do primeiro núcleo do Partido Nazista, no Putsch de 1923 Foto: Bundesarchiv

Militantes do primeiro núcleo do Partido Nazista, no Putsch de 1923
Foto: Bundesarchiv

Curiosamente, exatamente cinco anos antes do Putsch, fazendo aniversário de 95 anos hoje, a Bavária foi o primeiro Estado do II Reich alemão a se declarar como um “estado livre” e republicano; Ludwig III, o último Rei da Bavária, fugiu da revolução popular no dia 7 de Novembro, fazendo da dinastia Wittelsbach a primeira a renunciar no Império Alemão que se esfacelava após a derrota na Primeira Guerra Mundial. Quem declarou a Bavária como livre e como uma república (existiam diversos movimentos regionais na Alemanha, inclusive partidários de uma Bavária independente, soberana e monárquica; retomarei isso em textos vindouros) foi o intelectual e ativista de esquerda Kurt Eisner.

Eisner não era comunista radical, nem um social-democrata como os fundadores da República de Weimar; era de uma esquerda moderada, como Rosa Luxemburgo, e assumiu como primeiro Ministro Presidente bávaro. Alguns meses depois, em 21 de Fevereiro de 1919, Eisner ia entregar sua renúncia ao Parlamento bávaro, decorrente de sua derrota eleitoral. No caminho, rua onde hoje há um memorial, foi assassinado pelo conde Anton von Arco auf Valley, nacionalista de extrema direita. O assassinato gerou conflitos abertos entre as latentes extremas de direita e de esquerda; parte da consequência desses conflitos foi o estabelecimento da República Soviética da Bavária (fato pouco conhecido, já que o estado comunista, reconhecido por Lênin, durou menos de um mês). Outra parte foi o surgimento de mais movimentos de extrema direita e nacionalistas na região, como justamente o Partido Nazista.

Esquerda: Anton Graf von Arco auf Valley, o assassino. Direita: Kurt Eisner, o assassinado.

Esquerda: Anton Graf von Arco auf Valley, o assassino. Direita: Kurt Eisner, o assassinado.

Retomo o assassino de Eisner, conde Anton. Foi julgado em Janeiro de 1920 e condenado à pena capital. Teve sua pena reduzida para cinco anos de prisão, cumpriu parte dessa pena e foi perdoado em 1927. O judiciário conservador (lembrando que conservador, nesse período e nesse momento, pode ter diversos significados, como nacionalista, monarquista, etc.) reduziu sua pena pelas razões ideológicas da vítima, e a postura do assassino foi até elogiada, no radical espectro político da época. E, outra coincidência, que fecha o círculo: a cela que Anton ocupou em Stadelheim é a mesma cela 70 que foi ocupada por Adolf Hitler.

Em 1920, um assassino de extrema-direita foi perdoado e até mesmo elogiado por sua postura em “evitar um mal maior”, ao matar um suposto comunista (Eisner não era). Seu ato desencadeou um estágio de guerra-civil e instabilidade política. Anos depois, no mesmo local, o líder um movimento revolucionário (e, antes que algum leitor diga que o nazismo é de esquerda, aviso que será tema de um post vindouro, não se apresse) também é perdoado e glorificado, pois, independente de seus atos, eram contra os “inimigos” ditados pelo senso comum do período e do lugar, os judeus e o bolchevismo. Em tempos fraturados, passíveis de enfrentamentos radicais, alimentar uma postura ou unir-se a um lado com o único objetivo de evitar um suposto mal, uma união visando não à construção, mas meramente o inimigo comum, pode exatamente gerar o mal que pretendia evitar. Criem corvos, e comerão seus olhos. Lição frequentemente esquecida.

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