ONU 2018: Indo além das risadas dos típicos exageros de Trump

Caros leitores e ouvintes do Xadrez Verbal, ontem, dia 25 de Setembro de 2018, iniciou-se mais um Debate Geral da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Buscando retomar o trabalho que foi realizado aqui nesse espaço nos anos anteriores, farei uma cobertura especial dos principais discursos e temas abordados pelos líderes mundiais perante a comunidade internacional. Tudo será compilado em uma categoria especial, tal qual nos anos citados; infelizmente, em 2016, não consegui executar essa cobertura especial.

Eu firmemente acredito que estar bem informado sobre a comunidade internacional é essencial nos tempos que vivemos, e uma ótima circunstância é a AGNU, quando cada país expõe as suas pautas, as suas prioridades e interesses. Os discursos devem ser vistos sempre com um olhar crítico, mas são sempre reveladores. A cobertura é de especial interesse para alunos de cursos como Relações Internacionais e similares, claro; se for seu caso, não esqueça de divulgar os textos.

Abrimos essa cobertura com o discurso dos EUA. Ainda hoje teremos mais textos.

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ONU 2018: Indo além das risadas dos típicos exageros de Trump

A memória engana, tem durabilidade duvidosa e não é completa. Mesmo assim, não há recordação recente de algum líder de uma potência que tenha, sem intenção, despertado risos ao se pronunciar perante a Assembleia Geral da ONU. Foi o que aconteceu com Donald Trump, ontem. Ele foi o quinto ao microfone, após o secretário-geral da ONU, a presidente da 73ª Sessão da Assembleia Geral, a diplomata equatoriana María Fernanda Espinosa Garcés, o presidente brasileiro, Michel Temer, país que tradicionalmente abre a Assembleia, e do presidente equatoriano, Lenin Moreno. Habitualmente, a representação dos EUA segue a do Brasil, mas não em 2018.

Atraso e exageros

A comitiva de Trump se atrasou em sua rota nova-iorquina. Seja intencional ou mero atraso causado por condições de segurança, por exemplo, foi interpretado como sinal da prioridade que Trump dá à AGNU; pouca, na realidade. E foi logo no início que Trump despertou o humor dos diplomatas e dignitários presentes. Após as apresentações protocolares, Trump dizia que “em menos de dois anos, minha administração realizou mais do que a maioria de quaisquer administrações na História de nosso país.” Antes de emendar a continuação da frase, risos altos.

Trump, midiático como poucos, se saiu bem. Sorriu e disse que “não esperava essa reação, mas está ok”. Mais risos, agora com aplausos. Afinal, o exagero estava explícito. Trump está no cargo desde Janeiro de 2017, um ano e oito meses de presidência. Sequer enfrentou uma eleição de midterm ainda, quando sua vantagem no Congresso pode ser abalada. Não se trata de negar as realizações e o desempenho de sua presidência, positivas ou negativas, mas de apontar o óbvio: vinte meses não são suficientes para se declarar uma das melhores administrações da História dos EUA. Nem de longe. Nem na mesa de bar, quanto mais perante o mundo inteiro.

E esse é o estilo de Trump. Exagerado, se auto elogiando, tudo em enormidade ou destruindo paradigmas. Seu discurso foi recheado de exemplos desses. “Hoje os EUA tem seu maior orçamento da História”. Oras, tirando a hipótese de uma grave recessão, é claro que, quanto mais uma economia cresce, maior será seu orçamento em números brutos. Porém, em números relativos, tão importantes quanto, talvez mais, o orçamento militar dos EUA já foi bem maior. Hoje, flutua em 3% do PIB; em 2010, era 4.7%. Na década de 1960, durante a Guerra Fria, era em torno de 8.5% do PIB dos EUA, com picos em 9%. Trump não está errado no que disse, mas o recorte é obviamente o mais inchado possível.

Outro exemplo é quando Trump afirma que seu país é o maior doador de fundos internacionais. Em números brutos, sim, trata-se da maior economia do mundo. Em números relativos? Sequer está nos vinte países do topo; em 25º, para ser preciso. Contribuiu com 0.18% de seu PNB, enquanto a Suécia, por exemplo, forneceu 1.1% do seu PNB em ajuda internacional. Não se trata de mera “pegação no pé”, pois o discurso de Trump usou tais números inflados, em diversos exemplos, para justificar suas políticas e a postura de seu governo. Ou seja, justificativas em alicerces discutíveis.

Princípios e consequências

O verdadeiro erro seria se ater aos números ou aos risos. Indo além, o que foi exposto por Trump? Em suma: Dois méritos, dois debates e dois problemas. Um dos méritos foi a exposição clara sobre sua perspectiva de mundo separada entre amigos e não-amigos; podem ser inimigos, amigos que não contribuem muito na relação, países distantes, estão todos no mesmo barco. E isso é um mérito pois mostra não apenas como funciona a mentalidade de Trump, mas que ele transpõe essa mentalidade para temas internacionais. Citou Israel, a Arábia Saudita e a Polônia nesse grupo de amigos. Ao mesmo tempo, cobrou dos países vistos como “amigos pero no mucho”.

Outro mérito foi a abordagem sobre a Coreia do Norte e seu programa nuclear. Embora com um claro componente de ego em suas palavras, esteve distante das bravatas do ano passado no mesmo lugar; bravatas essas que a mera cronologia mostra que não adiantaram muito. Foi centrado, apontou seus próximos passos, afirmou que as sanções continuam em vigor, que é um processo difícil, mas demonstrou confiança nesse mesmo processo e elogiou seus interlocutores, dividindo os méritos dos esforços realizados: Coreia do Norte, Coreia do Sul, China e Japão.

Uma das críticas é centrada nas contradições do “Realismo com princípios” (Principled realism, também chamada de Doutrina Trump, na tradição da política externa dos EUA), sua plataforma de relações externas. Ao mesmo tempo em que Trump aponta suas prioridades nacionais, de proteger os interesses econômicos de sua nação, critica organizações e países por fazerem o mesmo. Então, em questão de segundos, por exemplo, Trump afirma que seu país é “o maior produtor de energia em qualquer lugar da face da Terra” e que estão “prontos para exportar nosso abundante e acessível suprimento de petróleo, carvão e gás natural”.

Em seguida, critica a OPEP e os países-membro por “roubarem o resto do mundo”, e “eu não gosto disso”; sim, em primeira pessoa. “Ninguém deveria gostar disso. Defendemos muitas dessas nações por nada, e eles tiram vantagem de nós cobrando altos preços por petróleo”. Oras, mas é a exata mesma coisa, em perspectivas diferentes. Os países produtores de petróleo usam o recurso como fonte de divisas, de financiamento e como arma de pressão política internacional. Vide o Choque do Petróleo, de 1973. Na visão desses países, eles estão apenas defendendo seus interesses, tal como Trump faria.

A questão aqui é que Trump alterna entre a defesa da soberania unilateral das nações e a crítica do que essas nações fazem com essa soberania de acordo com a conveniência. Oras, ou elas são soberanas unilateralmente ou elas estão vinculadas à comunidades e acordos maiores. Trump elogia a Polônia por fazer um gasoduto pelo Báltico enquanto critica a Alemanha por comprar gás russo, afirmando que os alemães estarão sujeitos à pressão e chantagem russa; por mais que esse seja um debate válido, sobre a dependência energética, é uma decisão soberana alemã, por mais que ela desagrade Trump e diminua o mercado potencial para a importação de gás dos EUA.

Contradições herdadas

A outra crítica também é sobre as contradições do discurso, mas, nesse caso, as herdadas por Trump, no qual ele não tem responsabilidade direta. E isso é algo sempre comentado aqui no Xadrez Verbal quando é analisado algum discurso de política externa dos EUA, seja com Obama, seja com Trump. Não é razoável, pra dizer o mínimo, defender democracia, liberdade e direitos humanos no mesmo discurso em que se elogia a Arábia Saudita. Chega a ser de péssimo gosto elogiar o papel saudita em “ajudar o povo do Iêmen” e em “seguir múltiplas vias para encerrar a horrível e bárbara guerra civil no Iêmen”. Oras, são os aviões sauditas que estão jogando bombas em ônibus escolares!

No caso do Oriente Médio, a lógica, contraditória, é: contra o Irã, vale. Trump teceu diversas críticas (merecidas) ao regime teocrático iraniano, enquanto elogiava os aliados dos EUA, rivais do Irã e muitas vezes tão criticáveis quanto. E aí entra um exemplo da política sustentada em exageros. Trump afirmou que “muitos países no Oriente Médio apoiaram fortemente” a decisão de sair do acordo nuclear com o Irã.

Trump também deixou nas entrelinhas que o foco de um novo acordo não seria apenas a produção nuclear, mas também a capacidade do programa de mísseis iraniano. A questão é: sauditas, Emirados Árabes Unidos, Barein e Israel elogiaram a decisão dos EUA. Só. O restante, na melhor das hipóteses, como no caso egípcio, demonstrou preocupação. Outros, como a Jordânia, várias vezes elogiada por Trump, criticaram a saída dos EUA. E o tema do acordo nuclear voltará aqui nesse espaço em breve, após o discurso do Irã.

Debates

Restam os dois aspectos que despertam debates importantes contemporâneos no discurso de Trump. O primeiro sobre refugiados e imigrantes. Trump defendeu que refugiados deveriam ser acolhidos perto de seu país de origem, e deveriam retornar o mais cedo possível. Sim, essa é uma perspectiva válida em alguns aspectos, com uma miríade de estudos mostrando que refugiados desejam retornar ao seu lar o mais cedo possível. Frisa-se, entretanto, a palavra “possível”. Não é possível falar em retorno de sírios para seu país hoje.

Além disso, Trump elogia a Jordânia por receber centenas de milhares de refugiados. Sim, a Jordânia tem um papel louvável nessa crise, mas ela já mostra sinais de desgaste, dado seu diminuto tamanho e quantidade de recursos, incluso água. E, novamente, caberia algum comentário de Trump sobre os sauditas não receberem refugiados. Novamente, Trump foi bastante seletivo em sua argumentação sobre imigração e refugiados, para sustentar suas posições sobre o tema, que são claras.

O outro debate é sobre a repetição de Trump, assim como ano passado, de que ele repudia o “globalismo” e abraça o patriotismo. Essa linha argumentativa, que descende de Steve Bannon e possui todos os componentes sedutores das teorias da conspiração, pode ser aproveitada em debates mais sérios: entre unilateralismo e multilateralismo, entre Realismo e Idealismo. O que não deixa de ser curioso, como já afirmado no podcast algumas vezes, é ver um presidente de um país denunciar uma “ordem global” que foi formada com enorme participação, e de acordo com as prioridades, do seu próprio Estado.

E a seletividade e exagero, novamente, sustentam a argumentação de Trump. No exemplo mais radical, Trump disse que seu país “não apoiará o reconhecimento do Tribunal Penal Internacional. No que concerne os EUA, o TPI não possui jurisdição, legitimidade ou autoridade. (…) Nunca iremos render a soberania americana para uma burocracia global não eleita e que não presta satisfações”. O temor dos EUA e de sua administração é que, por pedido do Afeganistão, militares dos EUA sejam investigados por tortura cometidas no país asiático. Ou seja, é uma agressiva defesa prévia.

Segundo, algo que une os EUA, a Somália, os sauditas, a Índia e a China é o fato de não serem signatários do Estatuto de Roma, que fundamenta o TPI. Ou seja, o país não faz parte do TPI de qualquer maneira. Por sua escolha. Assim como outros países escolheram fazer parte. Algo que deveria ser simples de entender: não é uma violação de soberania quando um Estado decide, voluntariamente e, ironicamente, de forma soberana, fazer parte de uma organização. É como um associado de um clube reclamar das regras do clube que ele aceitou quando se tornou sócio.

E os juízes do TPI são eleitos, ao contrário do que foi dito. Pelos Estados-membros, de acordo com critérios expostos. Seus mandatos possuem prazo para encerramento. Finalmente, é extremamente contraproducente ver o presidente do país mais influente do mundo condenar um órgão que investiga e julga violações de Direitos Humanos. Ao olhar a lista de indiciados no órgão e suas biografias, que deixariam qualquer tirano com inveja, nota-se que o trabalho, na verdade, é diminuto. Deveria ser mais amplo, não ocorre a caça generalizada “denunciada” por Trump para delírio dos críticos do suposto “globalismo”.

Tais temas devem ser debatidos, mas em bases concretas, argumentativas, não mero descarte ideológico ou, pior, exageros e falsificações. Usar a justificativa da hipérbole em uma conversa entre amigos é uma coisa; para justificar políticas ou sustentar tentativas de argumento, é outra, bem mais vazia. Trump, ao tentar falar de forma “simples” suas bases ideológicas e para suas bases de apoio, na verdade acaba abrindo brechas para críticas e o rápido desmonte de suas palavras. Além dos risos e gracejos, existem boas ideias e temas importantes ali, mas que acabam eclipsados pelas bravatas e pelo simplismo.

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Outros temas do discurso de Trump, como a guerra comercial com a China e a Venezuela, ficaram intencionalmente de fora desse texto. Primeiro, por uma questão de tamanho, segundo, para aguardar os pronunciamentos de outros envolvidos. Como sempre, sugiro a leitura do discurso na íntegra.

Os discursos podem ser lidos, ouvidos e assistidos, na íntegra, no site do Debate Geral.

Os áudios são disponibilizados no idioma original e nos seis idiomas oficiais da ONU; ou seja, uma boa oportunidade também para praticar o aprendizado de línguas.

Caso o leitor fique com dúvidas ou interesse especial, recomendo sempre consultar o discurso original na íntegra.

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Caso queiram consultar as coberturas especiais dos anos anteriores, assim como outras categorias especiais de textos, estão aqui.


assinaturaFilipe Figueiredo é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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