ONU 2018: O discurso monotemático do Irã

Caros leitores e ouvintes do Xadrez Verbal, ontem, dia 25 de Setembro de 2018, iniciou-se mais um Debate Geral da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Buscando retomar o trabalho que foi realizado aqui nesse espaço nos anos anteriores, farei uma cobertura especial dos principais discursos e temas abordados pelos líderes mundiais perante a comunidade internacional. Tudo será compilado em uma categoria especial, tal qual nos anos citados; infelizmente, em 2016, não consegui executar essa cobertura especial.

Eu firmemente acredito que estar bem informado sobre a comunidade internacional é essencial nos tempos que vivemos, e uma ótima circunstância é a AGNU, quando cada país expõe as suas pautas, as suas prioridades e interesses. Os discursos devem ser vistos sempre com um olhar crítico, mas são sempre reveladores. A cobertura é de especial interesse para alunos de cursos como Relações Internacionais e similares, claro; se for seu caso, não esqueça de divulgar os textos.

Após o texto sobre o discurso de Trump, seguimos essa cobertura com o discurso do Irã. Ainda teremos mais textos.

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ONU 2018: O discurso monotemático do Irã

Ontem, Hassan Rouhani, o Presidente do Irã, também falou perante a Assembleia Geral. Em quase meia hora de fala, Rouhani abordou apenas um tema: as relações entre seu país e os EUA. Foi o primeiro discurso iraniano após a saída do governo Trump do Plano de Ação Integral Conjunto, conhecido pela sigla em inglês JCPOA e habitualmente resumido como “acordo nuclear com o Irã”. E esse foi um dos pontos levantados por Rouhani: o governo Trump não cumpriu algo que o Estado dos Estados Unidos da América assinou.

Notem a importante separação entre governo e Estado. Internacionalmente, quem dialoga são Estados. Claro, governos podem alterar prioridades, modificar situações, mas, quando um acordo é assinado, ele está valendo independente daqueles governos. Continuidade da responsabilidade do Estado, em termos mais exatos. Podem vir outros partidos, outros mandatários, que aquele tratado continuará em vigor; podem vir até mesmo outros Estados, caso exista uma sucessão jurídica.

Por exemplo, quando da mudança do Império do Brasil para os Estados Unidos do Brasil, em 1889, as fronteiras foram herdadas, não foram necessárias novas tratativas sobre temas já consolidados. A acusação de Rouhani é a de que Trump não pode ser confiado, pois não age de acordo com um líder de um Estado, mas de acordo com interesses “mesquinhos” de governo e eleitorais. E, por isso, não cabe ao governo do Irã aceitar uma nova negociação, mas, sim, cabe ao governo Trump simplesmente retornar ao ponto em que deixou o acordo e, dentro dele, fazer alguma eventual renegociação.

Ao exigir que o Irã sente na mesa de negociações, o governo Trump estaria dizendo que pode abandonar uma situação assim que lhe for conveniente. Mais ainda: ao instar sanções contra os países que continuarem no acordo e fazem negócios com empresas iranianas, Rouhani afirma que o governo Trump está fazendo “convites ao ilegal” e “punindo os que cumprem seus acordos”, algo que seria ilógico. Rouhani também lembrou que, por doze relatórios consecutivos, a AIEA afirmou que o Irã está cumprindo seu acordo.

Os outros quatro pontos do discurso de Rouhani também giraram em torno da relação com os EUA: a saída unilateral do acordo é um “bullying” internacional, usando a força no lugar da negociação, e enfraquecendo o multilateralismo, algo que não deve ser aceito; que o uso de sanções unilaterais pelos EUA é um ato terrorista que viola o direito ao desenvolvimento e transforma o povo iraniano em reféns de políticas imperiais, além de insinuar o financiamento direto de ações terroristas pelos EUA.

Seguiu elaborando que a situação regional no Oriente Médio está progressivamente se estabilizando graças à cooperação de Rússia, Turquia e Irã, junto com outros parceiros regionais, independente das tentativas externas de interferência. Uma referência velada aos sauditas, rivais do Irã e aliados dos EUA. Rouhani citou a Síria, o Iêmen e a Palestina, condenando o derramamento de sangue e a catástrofe humanitária.

Nesse âmbito, ele criticou a “repugnante” decisão dos EUA de transferir sua capital em Israel para Jerusalém, assim como afirmou que o poder da “ocupação sionista” vêm do apoio militar e de propaganda dos EUA. Aqui deve-se fazer o mesmo apontamento que foi feito no texto de ontem aqui nesse espaço: se não é razoável louvar os sauditas pelo seu papel no Iêmen, também não é nem um pouco razoável que Rouhani se coloque como “salvador da pátria” em um conflito em que seu país é interessado direto e participante da escalada de violência.

Sobre o terrorismo, Rouhani questionou o financiamento de “grupos anti-iranianos” como a al-Qaeda, o Daesh e a al-Nusra por Estados nacionais. Também colocou que o Irã lamenta “o martírio de dezenas de pessoas inocentes” assassinados por terroristas que “reivindicaram a responsabilidade” a partir de diversas “capitais ocidentais” em entrevistas com a mídia “baseada no Ocidente”. Isso foi uma referência ao ataque armado contra uma parada militar em Ahvaz, no dia 22 de setembro de 2018.

O ataque deixou trinta mortos, incluindo os cinco terroristas; entre os mortos, doze integrantes da Guarda Revolucionária Islâmica iraniana e um menino de quatro anos de idade. A cidade de Ahvaz é a capital do Khuzistão; apesar do nome que desperta piadas de gosto duvidoso, a região é um foco de conflito desde a década de 1970. O local fica na fronteira sudoeste do Irã, divisa com o Iraque. Parte considerável da população regional é árabe, e existem movimentos separatistas contra o governo de Teerã.

Importante lembrar que os iranianos não são árabes, mas persas. A minoria árabe do Khuzistão é ligada aos iraquianos, e foi foco do conflito entre os dois países que durou de 1980 a 1988, deixando mais de um milhão de mortos e não mudou em um centímetro as fronteiras regionais. O ataque de 22 de setembro foi reivindicado por um grupo chamado Resistência Nacional de Ahvaz, e supostos integrantes deram entrevistas ao canal Iran International TV, de oposição ao regime e baseado no Reino Unido.

Um dos principais comandantes militares do Irã afirmou que o ataque era responsabilidade de um “grupo do mal” formado por EUA, sauditas, Emirados Árabes Unidos e Israel. O episódio tem potencial de ser um dos momentos em que a “guerra fria” do Oriente Médio fica mais quente, com riscos de escalada. E o Irã sabe que, contra si, terá uma exótica combinação de sauditas e israelenses, ambos com apoio dos EUA.

Tanto o sabe que é por isso que o discurso de Rouhani foi focado nos países citados. O único momento de exceção foi o final: ao defender o multilateralismo, citou o recém acordo entre os países do Mar Cáspio; ao defender a História milenar persa, afirmou que seu país lutou contra inimigos hoje comuns antes deles serem conhecidos, como o “fascismo Baathista de Saddam Hussein”; o mesmo nome do partido de Assad, diga-se.

Ao focar tanto nos EUA, Rouhani esperava confrontar o país e mostrar sua perspectiva dos eventos. Em fazer isso, porém, desconsiderou e falou pouco sobre seus potenciais aliados, como a Rússia e a China; mal citou os países europeus que continuam no acordo. Talvez tenha focado tanto na saída dos EUA do acordo nuclear e o apoio do governo Trump aos rivais regionais que transparece que essa é a maior ameaça ao seu regime. E que essa ameaça já foi sentida. No fundo, Trump deve ter adorado o discurso iraniano, que acusou o golpe recebido.

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Os discursos podem ser lidos, ouvidos e assistidos, na íntegra, no site do Debate Geral.

Os áudios são disponibilizados no idioma original e nos seis idiomas oficiais da ONU; ou seja, uma boa oportunidade também para praticar o aprendizado de línguas.

Caso o leitor fique com dúvidas ou interesse especial, recomendo sempre consultar o discurso original na íntegra.

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Caso queiram consultar as coberturas especiais dos anos anteriores, assim como outras categorias especiais de textos, estão aqui.


assinaturaFilipe Figueiredo é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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