Sexta-feira 13: o governo Temer e a paranoia na jovem democracia

Caros leitores, dado o cenário político do nosso país, teremos alguns textos sobre o tema por aqui nos próximos dias, meus e de colaboradores. Especialmente sobre o novo chanceler, José Serra, tema que também será debatido no podcast do Xadrez Verbal. Por hoje, uma breve reflexão histórica sobre o Brasil. Na foto de capa do post, uma foto de 1964 e uma foto de 2015.


Após treze anos, quatro meses e doze dias, chega ao fim o governo do Partido dos Trabalhadores no Brasil. O PT, partido treze nas urnas brasileiras, foi o único partido programaticamente de esquerda eleito no país. Pode-se discutir onde estaria o PSDB, social-democrata, no espectro político, mas a imagem do PT sempre foi a ligada à esquerda tradicional, até pela própria simbologia do partido, uma estrela vermelha. O segundo processo de impeachment da Nova República afastou Dilma Rousseff do cargo, enquanto prepara sua defesa em relação ao futuro julgamento. E numa sexta-feira, Treze de maio, temos o primeiro dia de governo do Presidente em exercício Michel Temer.

O atual período é a mais longa experiência democrática da História do Brasil. O tema e sua importância não é um tópico novo no Xadrez Verbal. Independente das discussões e das convicções dos leitores sobre o atual processo político, se é um processo justo ou um golpe, uma coisa é clara e certa: o cultivo do espírito democrático é essencial, dado o histórico e a fragilidade do momento. Se é o mais duradouro período democrático brasileiro, temos também a inédita ascensão de um governo de esquerda, pela força do voto; sua reeleição, a segunda no Brasil; sua continuidade, com Lula elegendo sua sucessora, outro evento único até o momento; mais uma reeleição, com um partido vencendo quatro eleições federais seguidas pela primeira vez (o PSDB paulista já havia conseguido o feito na esfera estadual). E, finalmente, o final do governo. Todas transições pacíficas.

Um dos aprendizados para essa democracia, então, é o da falta de necessidade da histórica paranoia do “perigo vermelho”. Desde a década de 1930, o medo dos movimentos de esquerda, classificados todos como “comunistas”, movimenta parte da política brasileira. Exemplo maior é a instauração da ditadura getulista em 1937, o Estado Novo, sob a égide de evitar um golpe comunista expresso no Plano Cohen; um documento falso que foi forjado por um integralista, o capitão Olímpio Mourão Filho. A mesma retórica existiu em 1964. Em ambos os momentos, entretanto, elas tinham alguma base concreta, com movimentos de esquerda autoritários presentes no Brasil, que defendiam o uso da força para tomada do poder político.

O que não era o caso do PT, fundado em 1980 e que sofreu diversas dissidências, justamente por advogar, em sua maioria, pela via institucional e democrática. Alas radicais originalmente do PT que fundaram, por exemplo, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e o Partido da Causa Operária (PCO), por discordarem dessa perspectiva. O discurso político contra os partidos de esquerda, entretanto, continuou a seguir um raciocínio da Guerra Fria ou do getulismo. Em 1989, Fernando Collor, ironicamente, acusou que Lula iria “tomar o seu dinheiro da poupança” em debates e pronunciamentos televisionados. Na campanha em que Lula foi eleito, em 2002, tornou-se símbolo a atriz Regina Duarte afirmando que “tinha medo”.

O tom conspiratório permaneceu durante os últimos treze anos. O tal “golpe comunista do PT” seria questão de tempo. O partido teria ligações paramilitares com Cuba, Venezuela, Bolívia, China, dentre outros, para fazer uma revolução, aos moldes bolcheviques de 1917. Tropas paramilitares venezuelanas operariam no Brasil. Os profissionais cubanos do programa Mais Médicos seriam, na verdade, agentes infiltrados. Refugiados haitianos, o país mais miserável do continente, vítima ainda de um grande terremoto, seriam parte dessa grande conspiração, futuros soldados do golpe (ao ponto de um refugiado ser acossado na rua por essas “suspeitas”). O Movimento dos Sem-Terra seria armado por Cuba ou Venezuela. Uma infinidade de teorias e de conspirações; alimentadas também, deve-se dizer, pela retórica inflamada de Lula, que chegou ao ponto de chamar o MST de “exército do Stédile”.

Todas essas teorias alimentadas por desde páginas nas redes sociais com alta visibilidade até colunistas conservadores de grandes veículos de imprensa; nomes não são necessários, eles sabem quem são, assim como os leitores, deles e deste texto. E o que aconteceu? Dilma tirou seus pertences pessoais do gabinete presidencial no dia Onze de maio, recebeu a notificação do Senado no dia Doze, assinou, fez uma declaração para a imprensa e se retirou, preparando sua defesa. Sem golpe, sem invasões estrangeiras. Onde estariam os guerrilheiros cubanos ou venezuelanos? Quando apontava-se a paranoia do pensamento, o retorno era de acusações de receber dinheiro por isso ou evocações pelas Forças Armadas. A única demonstração recente de incômodo nas Forças Armadas brasileiras foi contra a nomeação de um inexperiente político como eventual Ministro da Defesa de Michel Temer.

Forças armadas essas que, diga-se, tiveram um grande papel nos últimos treze anos, seja no orçamento, contrariando o senso comum de sucateamento, seja em sua missão, com papéis de liderança no Haiti, no Congo e no Líbano; de fato, o governo Dilma foi o único das últimas décadas que deu aumento real ao soldo militar, além de mera reposição da inflação. O cerne da questão é: chegou-se o momento de amadurecimento na democracia brasileira de superar o “perigo vermelho” da Guerra Fria e aprender a lição que um governo de um partido de esquerda pode ascender e ser derrocado pelo voto e pelas instituições. Sem um tiro. Com erros e acertos, com o amadurecimento institucional necessário à democracia.

Colocando em termos claros, os tais colunistas, movimentos e páginas de redes sociais, no mínimo, erraram em suas análises e previsões. Erraram. Cederam à paranoia e ao espalhar de boatos e de rumores. Disseminaram desinformação e acirraram os ânimos. Além de erro, foi sensacionalismo e correlatos. Não adiantará falar que algum deles tem razão; não, não teve. O alardeado “perigo vermelho” não ocorreu. O que tivemos foi democracia, política partidária, jogo político, corrupção, troca de favores, fisiologismo. Uma miríade de aspectos, de crimes e de materiais que devem ser analisados, mas baseados na realidade, não em desatinos. Que a política brasileira possa ser feita e discutida com a cabeça e, eventualmente, com o coração; nunca com o fígado. Uma sexta-feira treze marca o início de um novo período de governo. Esperemos, também, de mentalidade, no futuro de todos os setores da sociedade.


assinaturaFilipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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34 comentários

  • Esse é o fim natural de todo governo populista,é uma destruição lenta e dolorosa devido aparelhamento deles em todas as esferas da sociedade.

    • Discordo, moço. O populismo é abraçado por outros partidos além do PT. É mais fácil populismo enfraquecer se seu respectivo eleitorado passar a ser menos ignorante à política e à fatos.

  • Penso que a nossa frágil democracia continua frágil, muito frágil.

    Todo esse processo tem sérios aspectos preocupantes quanto a força das instituições, que, suponho, não preciso elencar, haja visto as idas e vindas e contradições levantadas pelos dois lados (ou todos os lados, acredito haver mais de dois lados nessa barafunda político-institucional) dessa contenda nacional.

    • Eu acho que esse processo deveria terminar com novas eleições… primeira, a decidir se Temer deveria assumir (maioria simples), e se não ocorrer dele não ser escolhido, começa-se o processo eleitoral para se definir quem assumiria a presidência.

      É uma pena não existir nenhuma previsão legal para que isso ocorra.

  • Bom texto. Sensato e ponderado, sem panfletarismo e maniqueísmos. Por essas e outras que gosto do Xadrez Verbal 😀

  • Só discordo do texto pq vc fiz como se o motivo pro impeachment fosse o medo de uma revolução comunista, quando na verdade ela foi retirada pela falta de capacidade técnica e política de gerir o país

  • Finalmente um texto foda sobre essa paranóia ridícula de quem acha que a URSS iria invadir o Brasil. Filipe, o que você acha do historiador Marco Antônio Villa? E de seu Best-seller “Década perdida: dez anos de PT no poder”?

    • Realmente, estou interessado na opinião do Felipe.
      O Vila me parece um cara direito, seu pensamento analítico sobre a política me soa preciso, mas ele também parece parcial em sua análise, que fica sempre evitando fazer menções ao PSDB.
      Posso estar enganado, é apenas a impressão que tenho.

    • O Villa é um intelectual e professor universitário; dito isso, ele pode colocar sua intelectualidade a serviço de um projeto político. E é o que ele faz, de forma até exagerada. Tem acertos e erros.

      Sobre a obra citada, eu não a li na íntegra e pretendo abordar esse tema no futuro, provavelmente em vídeo.

      Sobre as respostas, sim, elas estão atrasadas.

      • Filipe, desculpa se eu pareci irritado, não foi minha intenção. Eu nunca fui respondido por youtuber nenhum (você não é o único), pelo menos até agora. Obrigado pela resposta, vc recomenda o Villa de alguma forma, ou acha que “tem coisa melhor”?

        Concordo com o “exagerada”, de vez em quando a coisa sai do sério com ele (principalmente no jornal da Cultura).

  • Muito bom! texto magnífico. Parabéns!

  • Filipe,

    Bastante lúcido o seu texto. É sempre válido desmontar o argumento do “inimigo externo” – seja o pretexto do terrorismo islâmico utilizado pelos EUA, seja o comunismo no caso brasileiro. Em um segundo momento, seria válido esclarecer, inclusive, que entre a esquerda (a nossa esquerda, pragmaticamente falando) e o comunismo, existe um abismo de diferenças.Pena que os leitores do seu texto não sejam os mesmos que alimentam suas paranoias com as colunas das revistas de fim de semana.

  • Gabriela Mesquita

    Não consigo separar o que está acontecendo no Brasil do que acontece na América Latina… Longe de achar que o que aconteceu aqui é “culpa ” de um único ator (mesmo claramente vendo o não oligárquico sendo expulso do grupinho) temos claramente uma democracia frágil e incapacidade generalizada de solidifica-la. A culpa não é dos nossos políticos porque eu realmente acredito que eles representam os brasileiros no geral ( tem a galera que grita absurdos, a galera do “ah deixa quieto”, a galera do jeitinho, uns poucos competentes perdidos no meio disso). A quantidade de normas editadas e canceladas diariamente de acordo com interesses particulares, ignorância/ incompetência seguida de má fé e atropelos de regras simples porque “não acho que valem pra mim” … E ainda vêm declarar “perigo vermelho ” quando teve desfile da Chanel em Cuba e os EUA tem uma série de acordos com o programa espacial Russo! Isso demonstra exatamente o problema do que aconteceu. Galera precisa estudar…

  • Hoje é sexta-feira 13. 13 é o número do partido e sexta-feira 13 é o dia do azar. Isso é tudo uma grande coincidência ou Michel Temer movimentou toda essa situação para que ela convergisse em uma data simbólica? Confirmado, Michel Temer é Illuminati.

  • Rene Gonçalves da Silva

    Se eu fosse do PT, não sou, sou mais adepto do humanismo, eu daria ordem de recuar e não faria oposição ao governo provisório por que se algo der errado o partido vai ser mais uma vez o “bode expiatório” o que “emperrou mais uma vez a governabilidade”.
    Penso o mesmo para a militância, não existe mais a mesma tolerância na democracia presente e qualquer protesto será reprimido e/ou visto como inconveniente e trará mais prejuízo a imagem do PT a benefícios. Penso que não é o momento e que isso levaria o país a um rumo muito perigoso e por alguns até desejável.
    Penso que é hora de mais razão e menos coração.
    No mais parabéns e obrigado por compartilhar este conteúdo dentro de equilibrada reflexão.
    Com certeza vou compartilhar e muito.

  • Excelente texto, lúcido e ponderado. Um aspecto não abordado por você mas que tem me preocupado é que a paranoia não é exclusiva da direita mas afeta vários grupos de esquerda, há uma demonização do que vier a haver pós PT. Há méritos inegáveis na administração Petista, mas também é inegável que antes mesmo das eleições de 2014 a presidente Dilma já tinha sua capacidade política extremamente restrita, creio que em grande parte devido a relação desarmoniosa com o Congresso (Jango, Collor e Dilma, optaram ou julgaram que conseguiriam governar sem o Congresso). Torço para que a alternância entre os “gabinetes” sirva para que os partidos reflitam no papel que eles desempenham no aprimoramento do país. Perdão pelo textão. Parabéns pelo Xadrez Verbal.

    • Os problemas de Dilma e de sua gestão (notar o E, dois fatores separados, mas simultâneos) começaram a se tornar explícitos antes mesmo das eleições. Exemplo maior foi o Ministério da Fazenda, em que Mantega ficou balançando no cargo por mais de ano, recebeu um “aviso prévio” antes das eleições, ainda por cima pra ser substituído apenas no novo mandato. Uma inação que custou caro.

  • Ótimo texto Filipe. Alías o PSDB chegou muito perto de vencer as eleições em 2014. Mas devido á erros de propagandas mesmo, como por exemplo a escolha do vice, não conseguio a presidência.

  • Particularmente, nunca tive muito contato com essa paranoia de “golpe comunista”(já vi muitas pessoas falarem sobre, mas era uma pequena minoria), o que sempre percebi é que há uma associação da imagem do PT ao comunismo. Essa associação é certa? Eu penso que sim, já que os que veem o PT desta maneira têm motivos de sobra para isso. A começar pelo Foro de SP, que coloca diversos países ditos “progressistas” — entre eles Cuba, que é uma ditadura Comunista, e a Venezuela, que é quase isto — em uma agenda comum, que visa uma revolução das classes e uma luta contra “imperialismo” norte-americano. Nesta mesma linha, dando ênfase ao relacionamento do Brasil com esses países, podemos citar a aproximação do Brasil com Cuba nos mandatos do PT que chegou ao ponto de se construir um porto nos país com dinheiro brasileiro sem nenhuma certeza de retorno financeiro, e a aproximação com a Venezuela, onde as relações ficaram mais estreitas a ponto de o Brasil dar uma forcinha para o país entrar no Mercosul. Também podemos citar o estreitamento do Brasil com a China nos mandatos petistas — aliás, não somente com o Brasil, mas com vários países da região(e todos sabemos como a China é) —, e o grande aparelhamento das instituições feito pelo PT, tais como STF(nomeando somente ministros alinhados ideologicamente com o partido) e o congresso(comprando o mesmo, vide o mensalão).Então, há ou não há motivos para se acreditar em um grande projeto de perpetuamento no poder, como o próprio Celso de Mello disse, só que se referindo às propinas pagas ao partido pelas empreiteiras e o assalto à Petrobrás? Claro que sim.

    Eu entendo sua opinião e concordo em alguns pontos, mas você só mostrou argumentos contra essa tal paranoia e ignorou os que reforçavam a mesma, e isso me motivou a escrever esse comentário. Logo, me parece que você só quis mostrar um pouco da sua frustração com a derrubada do governo anterior.

    Abraço.Continuarei te acompanhando porque admiro suas visão.

    • “o que sempre percebi é que há uma associação da imagem do PT ao comunismo. Essa associação é certa? Eu penso que sim, já que os que veem o PT desta maneira têm motivos de sobra para isso.”

      Não, não é certa. Por exemplo, o PT não defende o fim da propriedade privada. Tampouco isso aconteceu nos últimos treze anos.

      “A começar pelo Foro de SP, que coloca diversos países ditos “progressistas” — entre eles Cuba, que é uma ditadura Comunista, e a Venezuela, que é quase isto — em uma agenda comum”

      Foro de SP é uma articulação entre partidos.

      “a aproximação do Brasil com Cuba nos mandatos do PT que chegou ao ponto de se construir um porto nos país com dinheiro brasileiro sem nenhuma certeza de retorno financeiro”

      Os primeiros projetos do BNDES em Cuba foram durante o governo FHC, do PSDB, e a aproximação entre os dois países começou no governo Sarney, do PMDB

      “e a aproximação com a Venezuela, onde as relações ficaram mais estreitas a ponto de o Brasil dar uma forcinha para o país entrar no Mercosul.”

      O comércio brasileiro com a Venezuela é extremamente superavitário e o compromisso com a integração americana está na CF de 88

      “Também podemos citar o estreitamento do Brasil com a China nos mandatos petistas — aliás, não somente com o Brasil, mas com vários países da região(e todos sabemos como a China é)”

      O crescimento da China no mercado mundial que é responsável por isso. Hoje a China é o segundo maior parceiro comercial dos EUA, posição que alcançou na administração Bush filho, um governante que duvido muito possa ser caracterizado como comunista.

      “e o grande aparelhamento das instituições feito pelo PT, tais como STF(nomeando somente ministros alinhados ideologicamente com o partido)”

      Devaneio, visto que Joaquim Barbosa, apontado por Lula, condenou políticos do PT, Teori Zavascki, apontado por Dilma, aprovou o rito de impeachment, Dias Toffoli defendeu a legalidade do impeachment, etc.

      “Eu entendo sua opinião e concordo em alguns pontos, mas você só mostrou argumentos contra essa tal paranoia e ignorou os que reforçavam a mesma, e isso me motivou a escrever esse comentário. Logo, me parece que você só quis mostrar um pouco da sua frustração com a derrubada do governo anterior.”

      Não, não mostrei “argumentos contra” pois o texto trata de um fato consumado: o PT saiu do poder e nenhuma dessas conspirações ocorreu ou tem pé na realidade, assim como as apontadas no seu comentário. Repito: fato consumado.

      Deixe de lado aspectos subjetivos, como suas suposições sobre minhas intenções ou se concorda ou discorda, e se atenha a matéria. Obrigado pela leitura.

      • “Não, não é certa. Por exemplo, o PT não defende o fim da propriedade privada. Tampouco isso aconteceu nos últimos treze anos.”

        Sim, é certa e tem fundamento. É bom lembrar que o PT defende os movimentos sociais que se apropriam de propriedade privada para fazer valer suas vontades — vide MSTS.

        “Foro de SP é uma articulação entre partidos.”

        Não, não é mais. No começo podia se dizer que de fato era, mas ao longo do tempo com ascensão de Chávez, Lula, os Kirchner, e Michelle Bachelet, entre outros, virou uma articulação de países, cujos partidos querem se perpetuar no poder.
        “Os primeiros projetos do BNDES em Cuba foram durante o governo FHC, do PSDB, e a aproximação entre os dois países começou no governo Sarney, do PMDB”

        É verdade, mas no começo era de fato uma relação pragmática e comercial, sem importação de ideologias. E também, eu não disse que o Brasil estava afastado, disse que as relações não eram tão fortes como foram no governo do PT.

        “O comércio brasileiro com a Venezuela é extremamente superavitário e o compromisso com a integração americana está na CF de 88”

        Amigo, não estou dizendo que estamos sendo lesados na nossa relação comercial com a Venezuela, estou dizendo que, por conta da Venezuela estar como estar, com o bolivarianismo chegando quase ao status de ditadura, pega mal para o PT ter uma relação tão forte ideologicamente com o país, mais especificamente com os chavistas. E sobre a integração americana, ela, para o PT, quer dizer integração somente com os países ideologicamente alinhados, e isso também pega mal, não é?

        “O crescimento da China no mercado mundial que é responsável por isso. Hoje a China é o segundo maior parceiro comercial dos EUA, posição que alcançou na administração Bush filho, um governante que duvido muito possa ser caracterizado como comunista. ”

        Isso também é verdade. Aliás, quase ninguém (da área acadêmica) vê a China hoje como comunista. Porém, isso não é tão verdadeiro para os cidadãos comuns, que ainda veem as China como comunista — em grande parte por propaganda dos EUA (como com a Rússia).

        “Devaneio, visto que Joaquim Barbosa, apontado por Lula, condenou políticos do PT, Teori Zavascki, apontado por Dilma, aprovou o rito de impeachment, Dias Toffoli defendeu a legalidade do impeachment, etc.”

        Oras, não sou eu que diz que o aparelhamento de fato acontece (tenho dúvidas sobre isso, apesar de achar que o PT tentou…), o próprio Gilmar Mendes que trouxe isso à tona, junto com uma parcela da mídia. Então as pessoas podem, sim, pensar que o PT queria se perpetuar no poder para sempre usando essa estratégia.

        “Não, não mostrei “argumentos contra” pois o texto trata de um fato consumado: o PT saiu do poder e nenhuma dessas conspirações ocorreu ou tem pé na realidade, assim como as apontadas no seu comentário. Repito: fato consumado. ”

        Pois é, não acho o seu texto tendencioso de maneira alguma, mas acho que ele ignorou fatos importantes para o tema. E também penso que você se referiu somente a um golpe de estado, o que é radical e explícito demais. Para mim, é lógico que o PT tentou (e ainda vai tentar) ficar no poder para sempre, com a ajuda da corrupção e a doutrinação do povo brasileiro — um bom exemplo é o ministério da cultura.

        Abraço, essa é somente minha posição.

        • “defende os movimentos sociais que se apropriam de propriedade privada para fazer valer suas vontades — vide MSTS.”

          Reformas pelo devido processo legal sao diferentes de apropriação e de FIM da propriedade privada. FIM, para todos. Continua sem sentido.

          “entre outros, virou uma articulação de países, cujos partidos querem se perpetuar no poder.”

          Você confunde Estados com partidos. O ESTADO do Chile não faz parte do Foro de SP, que, repito, é uma articulação de partidos, não de países.

          “. E sobre a integração americana, ela, para o PT, quer dizer integração somente com os países ideologicamente alinhados”

          As diversas parcerias e obras na Colômbia, o mais ferrenho adversário do chamado bolivarianismo, mostra como isso é um chavão sem fundamento.

          “os cidadãos comuns, que ainda veem as China como comunista”

          Que foi o que você fez na sua mensagem original, no mínimo uma contradição.

          Um abraço

  • Excelente texto.

    O que tem me preocupado ultimamente é ver o próprio PT – seja através de seus membros ou através de blogs regados à propagandas estatais – alimentando teorias conspiratórias que o tal “golpe” seria patrocinado pelos EUA, a CIA e outras bobagens, como fez recentemente o deputado Sibá Machado:

    No mais, sempre me incomodou profundamente a incrível quantidade de pessoas que acreditavam nessas teorias conspiratórias malucas sobre o plano comunista totalitarista do PT. Uma irresponsabilidade como esta do Sibá (acusar sem absolutamente nenhum fundamento os EUA de interferir na soberania nacional brasileira) só piora a situação.

    • É só ser ouvinte do podcast do Xadrez Verbal que a pessoa saberá que os EUA tem diminuído sua dependência de petróleo, desenvolveram mais a indústria do xisto e agora voltaram até a exportar petróleo (desculpe, não resisti o auto-jabá na hora de apontar que sim, essa imagem não tem nenhum pé na realidade).

      Lembrando também que o petróleo do pré-sal é um petróleo de exploração cara, compensaria muito mais comprar a Arábia Saudita

  • Filipe, você é escravo dos signos nessa análise, fica preso à superfície. Em que pese a crença de alguns exaltados de que realmente estamos falando de “comunismo”, o que a maioria imagina quando fala nesses “comunistas do PT” é o socialismo bolivariano venezuelano. Ninguém acha, como você assume para dar o pilar central que sustenta seu texto, que vão estatizar os meios de produção da noite para o dia e nos mandar para o campo para fazer “reeducação proletária”. Agora, vai negar o projeto dos conselhos populares, que hoje existem na Venezuela e tem papel importante na construção do regime de exceção que vige no país? Vai negar as tentativas de controle de imprensa, as tentativas de construção de uma hegemonia por meio de eleições manipuladas indiretamente pelo uso de quantidades astronômicas de dinheiro desviado de empresas estatais? Vai negar o aparelhamento das instituições – o novo Ministro da Educação e Cultura chegou a ser vaiado e chamado de golpista pelos próprios funcionários de seu Ministério, muitos apaniguados do governo anterior! Vai negar a instrumentalização de entidades da sociedade civil que, hoje, voltam a falar “pela sociedade” contra o governo, coisa uqe não faziam há mais de treze anos?

    Se não chegamos à situação venezuelana é por dois motivos: em primeiro lugar, somos um país muito mais complexo, com muito mais pólos de poder político, econômico, cultural etc. para equilibrar a relação de forças; em segundo lugar, temos o PMDB, que, com todos os defeitos, é um pilar da democracia brasileira, já que impede com força descomunal que esta escorregue para qualquer extremo do continuum de ideologias políticas, nos mantendo centristas na marra.

    Ninguém nunca achou que vinha aí uma Revolução Bolchevique. O medo era uma situação venezuelana, que era, sim, uma possibilidade real.

    • Todos os exemplos citados possuem referências, justamente pra evitar esse tipo de desonestidade intelectual. Um comentário que abre falando do autor já não costuma ser muita coisa. Fique a vontade para brigar com o fato consumado. Um abraço

      • O PT representava não muito discretamente apenas um projeto de “bolivarianismo” no Brasil que não vingou, já que se a associação dos partidos do Foro de São Paulo tivesse obtido êxito, não estariam saindo do poder. A Kirchner saiu normalmente por eleições para dar lugar ao Macri, um liberal. Outros ainda permanecem, claro, mas até o proto-ditador do Maduro ainda pode sair. Além disso, candidatos de esquerda não venceram eleições na maioria dos vizinhos, e a Guerra Fria é passado. A paranoia da direita é compreensível, mas não justificável em sua totalidade do ponto de vista racional. A democracia brasileira parece capaz de resistir a projetos de poder desse tipo.

    • Concordo com você, o medo não se resumia a um golpe de estado ou a uma revolução, mas a um golpe branco que o PT estava aplicando na democracia. Você mesmo citou o caso do MINC, que por conta de ter artistas financiados pelo governo, ficou aparelhado à ideologia petista. Basta ver o tanto de artista mal-informado protestando por simples medo de perder os benefícios.

    • Aqui quero fazer um comentário. Recentemente falando com um dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e petista dedicado comentei sobre as suspeitas de que teríamos um governo bolivariano demais. Ele argumentou que isso é paranoico ” temos com Dilma um governo bolivariano de menos”

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