Vladimir Putin, Imperador de Roma: análise de uma excentricidade

No último final de semana, uma pequena excentricidade na Rússia chamou a atenção da imprensa internacional. Uma organização de cossacos inaugurou um busto do presidente russo Vladimir Putin, caracterizado como imperador romano, perto de São Petersburgo. A justificativa da homenagem, segundo Andrei Polyakov, seria “(…) imortalizar Vladimir Putin como um vencedor e estadista que devolveu a Crimeia à Rússia”. A primeira reação, compreensível, é o de espanto e do riso. Afinal, não é todo dia que se vê um líder político contemporâneo retratado como um imperador romano. Se formos além dessa primeira reação, entretanto, pode-se aproveitar o exemplo para compreender um pouco da mentalidade russa, essencial em tempos de crise internacional (a crise na Crimeia e na Ucrânia é foco de diversos textos no blog).

Putin é visto como o líder do resgate do orgulho russo. Um orgulho nacionalista, em relação ao status do país do cenário internacional. Durante a década de 1990, a Rússia foi marcada pelo declínio de seu poder externo e pela deterioração de sua economia. Os governos de Boris Yeltsin enfrentaram algumas das situações mais calamitosas da História recente. Politicamente, o fim da União Soviética, as recorrentes concessões necessárias na política externa, exatamente para os novos Estados até então soviéticos. O constante declínio do poder militar do país, com sucateamentos, desativação de armamentos (quando não contrabandeados), acidentes. Em todo o aparato de Estado, uma defasagem de condições e de salários que fez com que alguns dos principais cérebros russos migrassem do país.

Tudo isso simultâneo ao processo de privatização da economia russa. Inflação altíssima, rublo desvalorizado, crises de abastecimento, desemprego em crescimento. Yeltsin acabou sendo injustiçado: reformas impopulares, mas necessárias, mesmo que pelo contexto daquele momento, tiveram seus custos colocados nas costas do homem que enfrentou tanto a linha-dura soviética quanto a linha-dura russa, que buscaram golpes de Estado em duas ocasiões. Por conta da situação política insustentável e denúncias de corrupção, Yeltsin renunciou em 31 de dezembro de 1999. Pediu desculpas por seus erros e afirmou que a Rússia entrava no século XXI mais moderna, e precisava também de novos líderes. Quem assume é seu então Primeiro-ministro, Vladimir Putin.

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Yeltsin, de punho cerrado, sobe em um tanque para pedir resistência, durante a tentativa de golpe de 1991.

Putin assume interinamente até Sete de maio de 2000, quando toma posse como presidente eleito, após eleição em que o segundo colocado era do Partido Comunista. No aspecto exterior, Putin demonstra pulso firme com os movimentos separatistas e militantes no Cáucaso, especialmente na Chechênia, vistos como movimentos terroristas pelo governo russo. Internamente, Putin articula-se com os novos magnatas russos, fruto das grandes privatizações de Yeltsin. Esse grupo de empresários muitas vezes é referido pelo termo “oligarcas russos”. A articulação política é uma das características dos governos de Putin; o apoio aos líderes da nova República da Chechênia, após 2003, é outro exemplo disso. Alguns caracterizam que, enquanto se fizer o que Putin quer, ele finge que não vê outras atividades.

A articulação com os novos magnatas permite rápido crescimento da economia russa. A alta do preço das commodities contribui, já que a Rússia é o maior exportador de gás natural do mundo e um dos maiores exploradores de petróleo e carvão mineral. Após restaurar o sentimento de influência russa e usufruir da recuperação da economia russa, Putin está com o prestígio em alta após o final de seu segundo mandato, em 2008. Putin é sucedido por Dmitri Medvedev, seu Primeiro-ministro; após Medvedev assumir o cargo, Putin assume como Primeiro-ministro (oficialmente, o cargo de Primeiro-ministro não existe, é uma adaptação do coloquial Premiê; o título é Chefe Executivo do Governo da Federação Russa, nomeado pelo Presidente).

Novas situações no Cáucaso, agora na Ossétia do Sul, envolvendo a Geórgia, contribuem para a manutenção da imagem de líder forte. Falta, entretanto, confrontar os velhos oponentes, EUA e OTAN. Putin mantinha boas relações com a OTAN mas, com a eleição de Obama, essas relações começam a deteriorar. Existe uma desconfiança mútua entre os dois líderes. Soma-se o fato de que a OTAN começa, nos anos 2000, sua expansão rumo ao leste europeu. A Rússia afirma que isso viola o Tratado sobre o Acordo Final em relação à Alemanha, de 1991, que explicita que a OTAN não se expandirá além da então Alemanha Oriental. Entre 1999 e 2009, dez países que faziam parte do Pacto de Varsóvia ingressam na OTAN, apesar dos protestos russos. Chega-se à Ucrânia em 2014. A suspeita de que os protestos que derrubam o governo Yanukovich são fomentados pela OTAN e pela União Europeia, com o objetivo de levar o país rumo ao Ocidente, motivam Putin, novamente Presidente, a agir rápido.

Das concessões feitas por Yeltsin, ao final da URSS, as que mais feriram o orgulho russo foram para a Ucrânia. Parte do arsenal nuclear soviético, parte da prestigiada Frota do Mar Negro, regiões consideradas historicamente russas, como a Crimeia. Ao recuperar, na ótica russa, a península da Crimeia, Putin, em uma tacada só, coloca um basta na expansão da OTAN rumo ao leste, recupera território russo e revitaliza o orgulho nacional do país. Expressão disso é o processo rápido que concede um status especial, de Cidade Federal, ao porto de Sevastopol; a Cidade Heroica de Sevastopol, seu título oficial por sua resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Outro cerco ao porto que faz parte do folclore histórico russo é o realizado durante a Guerra da Crimeia, em 1854. Para muitos, o porto, sede da Frota do Mar Negro, era uma cidade russa que foi extirpada do país.

Temos então, nessa perspectiva nacionalista russa, a figura de um estadista que recuperou a economia russa, a influência política russa no cenário internacional e deixou claro que a Rússia está disposta à agir. São esses fatores que embasariam a homenagem, mas qual o motivo dela ter essa forma? A ligação dos cossacos com o nacionalismo russo é um elo extremamente militarizado, que remonta aos laços de lealdade e vassalagem entre o Czar russo e os líderes das Hostes cossacas. O império russo, por sua vez, via-se como a Terceira Roma; o legítimo sucessor do Império Bizantino, a Segunda Roma. Linhas sucessórias genealógicas e relíquias fariam parte da legitimação desse imaginário político.

bustoputinIvã III da Rússia era casado com Sofia, sobrinha de Constantino XI, o último imperador bizantino. Além disso, a legitimação religiosa era grande. A fé cristã ortodoxa era a religião professada pelo império de Constantinopla e a principal religião do Império Russo; ainda é a religião majoritária na Rússia. Claro, trata-se de uma maneira de legitimar o poder imperial e as reivindicações russas, temperado com um pouco de lenda e algumas coincidências. A mais notável, presente em muitas imagens, é a de que as três cidades, Roma, Constantinopla e Moscou, estão localizadas em sete colinas. O fato é: a escolha da iconografia de Putin como imperador romano, com o brasão da águia de duas cabeças, não é uma excentricidade ou algo aleatório. Resgata a imagem da Rússia poderosa e imperial.

Indo além da curiosidade ou do riso, é possível tomar o episódio, pequeno, como símbolo da mentalidade de setores da sociedade russa. Uma mentalidade que se aplica ao papel que imaginam que a Rússia deve ter no cenário internacional, aos direitos do povo russo, ao papel esperado dos líderes políticos russos. Ao que se pensa, ou se acredita, sobre Vladimir Putin. Uma reflexão essencial, pois é confortável julgar baseado na situação curiosa. Mais que confortável, pode ser um erro simplesmente deixar de lado esses aspectos, apenas rotulando a Rússia como “inimiga” ou como “o outro”. A reflexão e o entendimento da História russa, especialmente sua História recente, é imprescindível para a compreensão da atual crise política internacional.

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Uma breve observação, também sobre a Rússia. No mais recente podcast do Xadrez Verbal, o noticiário semanal sobre política internacional, útil para se manter atualizado rapidamente, cometi um pequeno erro. Mencionei que, hoje, a Rússia não possui tratados de defesa coletiva. Obviamente, não possui mais um mecanismo como o Pacto de Varsóvia, mas faz parte da Organização do Tratado de Segurança Coletiva. Fazem parte: Armênia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia e Tadjiquistão, todos países ex-soviéticos.


assinaturaFilipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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