O preconceito e o maniqueísmo à serviço da defesa da liberdade

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O ataque de quarta-feira que matou doze pessoas em Paris, obviamente, ainda é a pauta. Do jornalismo internacional, do jornalismo brasileiro, das mesas de bar e de seu substituto abstêmio, os fóruns de internet. O tema já esteve presente aqui no Xadrez Verbal, no próprio dia dos ataques. A imensa maioria das pessoas condena, evidentemente, o ataque e a perda de vidas humanas, além de pregar a defesa da liberdade de expressão. É curiosa, entretanto, a série de nuances de como essa condenação dos ataques e da defesa da liberdade é feita. A carga de contradições e, paradoxalmente, de discurso opressivo em uma proposta defesa da liberdade é chocante.

Tais contradições e opressões são motivadas, essencialmente, pelo preconceito e pelo maniqueísmo. Com um tempero de oportunismo, como comparar doze vidas humanas ceifadas com danos patrimoniais ou processos judiciais. É fácil defender a liberdade de expressão quando o agressor que a violenta é de outra etnia, de outra religião, supostamente violenta. O “terrorista islâmico” estereotipado. Entra, então, o preconceito. A defesa, velada ou explícita, de expulsão “dessa gente” da Europa, ou que voltem para sua terra e façam suas barbáries entre seu próprio povo (sendo que dois mortos eram muçulmanos). “Estão na terra da liberdade de expressão, se não gostam, vão embora”. Esquecendo, é claro, que os criminosos eram franceses e que a presença de argelinos e tunisianos é ampla na sociedade francesa pois esses países eram submetidos ao império francês.

A outra bandeira do preconceito é a de combater a “islamização” da Europa. A expansão dos muçulmanos, que “procriam” mais que os europeus “de verdade”, até a hora que se tornarão maioria e dominarão, pelos números, a Europa. Os mesmos argumentos usados contra o reconhecimento dos negros como cidadãos dos EUA, contra a migração de latino-americanos para o mesmo país, contra a presença dos nordestinos que “só sabem fazer filho” no sudeste brasileiro. Ou seja, toma-se a prática religiosa como definidora do caráter e da cidadania do indivíduo, ainda mais por não ser uma religião “nativa”. Considerando que a cidade do Papa é a mesma cidade dos templos de Júpiter e de Juno, expulsemos os católicos da Itália também. E convertamos todos os brasileiros à adoração de Tupã.

A bandeira da luta contra a “islamização” da Europa era a principal causa do maior massacre documentado que tenha sido executado por apenas um indivíduo. O norueguês branco e cristão Anders Behring Breivik, que matou setenta e cinco pessoas e feriu mais de duzentas em 2011, ao atacar um acampamento do Partido Trabalhista norueguês; o partido que “permitiu” o Islã dentro da Noruega, em seu manifesto. Embora Breivik tenha sido declarado por um psiquiatra forense totalmente ciente de seus atos, é tratado como um “maluco isolado”; o mesmo tratamento não é concedido aos extremistas “diferentes”. O que leva, além do preconceito, ao maniqueísmo.

Também é fácil defender a liberdade de expressão quando ela não agride seu íntimo ou seu establishment. Não se trata de atenuar os atos de violência em Paris, foi deixado claro aqui nesse espaço que eles não devem ser tolerados. Defender a liberdade de satirizar Maomé e o Islã enquanto se condena a sátira ao cristianismo e a Jesus Cristo, entretanto, é contraditório. “É hora de protegermos a honra”. De quem, de Maomé, diriam os dois assassinos de Paris? Pode ser, mas a frase completa é “É hora de protegermos a honra do menino Jesus”, acompanhada de “Sabe quem não luta contra essas porcarias do inferno? São os medrosos, são os covardes. E para seguir Jesus Cristo tem que ser homem e capaz de dar a vida pela causa”. O motivo de tolerantes palavras? Um vídeo de humor do canal Porta dos Fundos, bem mais leve que muitas charges da Charlie Hebdo criticando o papel do cristianismo e do catolicismo na sociedade francesa.

O texto, então, defende a ridicularização das religiões? Não, defende a liberdade de expressão e o humor e os meios para lidar com seus limites, como citado no artigo anterior sobre o mesmo tema. O que é passível de crítica é o uso de duas medidas para o mesmo peso (ou “dois pesos, duas medidas” como diz o equivocado ditado). Ninguém do Porta dos Fundos foi alvo de um fuzil segurado por um extremista, felizmente. E, talvez, apenas ainda não foi (sendo repetitivo, lembro que a diferença do lidar com o retratar Jesus e o retratar Maomé será tema de texto próprio). O ponto aqui é que os novos arautos da liberdade de expressão, que colocam-se inclusive como alvos de supostas opressões, são as mesmas pessoas, como spin-off de Mil e Uma Noites, que discriminam ateus.

Atacam a luta pelos direitos dos homossexuais, incitam violência por motivos partidários, fortalecem o machismo da cultura do estupro. Relativizam o agressor culturalmente semelhante e demonizam o diferente. Silenciam sobre o ataque com granadas à uma mesquita logo após os assassinatos da Charlie Hebdo. Colocam que, como defensores da liberdade de expressão digna do iluminismo, vejam só, francês, são contra uma lei que regule a mídia; esquecendo ou ignorando que a França possui leis do tipo desde o século XIX. Além disso, a França é o berço do estado laico, fruto justamente do conflito religioso. No Brasil, os defensores do laicismo já foram chamados de “intolerantes” perante a religião.

A barbárie deve ser condenada, seja ela perpetrada por um árabe, por um escandinavo, ou por qualquer outro indivíduo de qualquer outra etnia. A religião e sua prática devem ser toleradas, seja ela parte das três doutrinas monoteístas do Oriente Médio, seja qualquer outra religião, ou a não-religião e também a negação da religião. A liberdade de expressão deve ser incentivada, preservada e defendida; seus limites devem ser impostos pela sociedade e pela razão, não pelo ódio ou pelos fuzis. E o oportunismo, o preconceito e o maniqueísmo? Expostos e menosprezados. Justamente por ferirem os princípios citados.


Respondendo um comentário, organizações muçulmanas demonstraram repúdio aos assassinatos e solidariedade as vítimas, como pode ser visto aqui e neste outro link.


assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

 


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