Os cartunistas da Charlie Hebdo “pagaram pra ver”?

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Como a maioria dos leitores já devem saber, um ataque terrorista executado hoje, em Paris, deixou doze mortos e onze feridos. Dois homens armados abriram fogo contra a sede da revista francesa “Charlie Hebdo”. Eles teriam recebido ajuda de um terceiro cúmplice. Entre as vítimas do ataque estão o diretor e chargista Charb (Stéphane Charbonnier) e outros três desenhistas: Georgers Wolinski, Cabu (Jean Cabut) e Tignous (Bernard Verlhac). Considerando os gritos, as palavras pronunciadas pelos terroristas e o histórico da revista, os criminosos eram radicais que acreditam sere islâmicos e o motivo seria a vingança pelo retrato de Maomé em charges publicadas na revista. Existe ampla abordagem dos fatos disponível, como o suposto treinamento militar dos terroristas e o perigo fascista que pode nascer de acontecimentos como esse, tema de texto do professor Henrique Carneiro no Opera Mundi. Aqui, devemos ir além. Os cartunistas receberam, por anos, diversas ameaças, e seriam sabedores das possíveis consequências das charges. Isso implica que eles também são responsáveis pela própria morte?

Não, e por diversas razões, com uma que será detalhada aqui. Como disse o cartunista brasileiro Adão, cujo trabalho foi muito influenciado por Wolinski, culpar os jornalistas e humoristas pelo ataque seria como culpar a mulher vítima pelo estupro. Outra razão é a defesa da liberdade de expressão e de imprensa em uma sociedade republicana. Implica-se que, caso essa liberdade extrapole a razoabilidade ou ofenda alguém, cabe à Justiça restaurar o equilíbrio social. Em outras palavras, se alguém se ofender ou o veículo de mídia for irresponsável, processo e responsabilização dos culpados. Um terceiro aspecto que é extremamente importante em um momento como esse é o de lembrar que tais terroristas não representam o Islã ou os muçulmanos. No caso específico de Paris, a cidade europeia com maior população muçulmana, cerca de 1.7 milhão, 12% da população, isso é cristalino. Caso a ofensa religiosa fosse generalizada, milhares ou centenas de milhares poderiam ter se revoltado.

Os extremistas, entretanto, desconsideram todos esses elementos de razoabilidade e proporção. Entra aí a acusação de que os cartunistas sabiam que pisavam em terreno pedregoso; se o Islã proíbe a reprodução pictórica de Maomé, então, eles sabiam dos riscos. Na verdade, o Islã como um todo é aniconista, ou seja, proíbe a representação humana, pois apenas Alá pode dar forma à vida (reparem como a arte árabe-muçulmana é baseada na geometria e em curvas, mas não em representações pictóricas). Embora existam discrepâncias, com algumas vertentes proibindo apenas representações de Maomé, os sunitas são seguidores radicais desse pensamento aniconista. São sunitas a imensa maioria dos militantes do auto-proclamado Estado Islâmico. Esse raciocínio, de imputar o “risco” aos cartunistas, faria sentido se a revista Charlie Hebdo fosse claramente islamofóbica. Representasse de forma crua e satírica apenas Maomé ou, ainda, zombasse da prática do Islã. Reparemos em duas capas da revista.

capascharlieÀ esquerda temos a capa que serviu para ser a imagem do texto. A edição discute o ensino religioso nas escolas francesas e estão retratados Jesus, com coroa de espinhos e buracos nas mãos e pés, Maomé e um judeu caricato. Pode parecer inofensiva, então, olhemos para a outra capa. Ao discutir a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, a charge satiriza de forma explícita e sexual, e até grosseira para alguns, o conceito da Santíssima Trindade do cristianismo. São “três papais”. A liberdade, inclusive no Brasil, de satirizar Jesus e o cristianismo será tema de texto nos próximos dias. Na revista, mesmo os cartuns e sátiras que envolvem a figura de Maomé não satirizam a prática do Islã, mas justamente o pensamento extremista, como a que diz que o leitor receberá cem chibatadas se não der risada. Uma rápida busca no Google imagens trará diversas outras charges com figuras cristãs, católicas e judaicas (e também recomendo verem a série de charges feitas em solidariedade aos mortos no ataque). Ou seja, a revista não era sequer um veículo anti-islâmico para terem “culpa”. A responsabilidade pelo terror não estava na arte dos assassinados, mas na loucura dos extremistas que acreditam seguirem uma religião.


assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

 


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2 Comentários

  • Pingback: O preconceito e o maniqueísmo à serviço da defesa da liberdade | Xadrez Verbal

  • A palavra “islamofobia” não existia até pouco tempo atrás. Tampouco o seu significado se justificaria de alguma maneira antes dos atentados iniciados pelos terroristas islâmicos. Desde o fatídico 11 de setembro, contabiliza-se em torno de 25.000 desses atentados. O islamismo, uma cultura medieval que ainda vive naqueles tempos, sentido o peso da rejeição mundial e representada por 57 países, pediu a ONU que combatesse as críticas feitas a ela, pelo senso crítico ocidental, tendo como apoio interesses comuns políticos e econômicos. Uma forma de amordaçar a crítica alheia diante do estrago que ela mesma fez. Aliás, senso crítico é coisa que o islã não permite aos seus. Daí forjou-se um termo para isto: “islamofobia”. Este termo criminalizaria as críticas ao islamismo. Por isso, islamofobia é crime “e os terroristas não são islâmicos. Dizem-se islâmicos”… Talvez, para manchar a religião da paz, embora contem com o apoio da Arábia Saudita e da Turquia, por baixo do pano.

    http://infielatento.blogspot.com.br/…/islamofobia-Pat…

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