Iraque: Um emaranhado político por trás de um califado

O Iraque ainda não foi tratado diretamente nesse espaço, apenas como parte do contexto dos conflitos no Oriente Médio, como nesse texto sobre a relação entre os países árabes e o conflito sírio. E um dos desdobramentos da guerra civil na Síria, talvez o principal e mais complicado, tenha sido no Iraque. Falo do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, também chamado de Estado Islâmico do Iraque e da Síria, e conhecido pelas siglas em inglês ISIL e ISIS.

Levante é um termo pouco utilizado contemporaneamente, mas se refere à região da costa do Mediterrâneo no Oriente Médio. O termo é mais comum no português de Portugal. Voltando, o objetivo da ISIS é bem simples: implantar um califado islâmico sunita que governe toda a região central do Oriente Próximo. Está ligada aos movimentos mujahidin que combatiam na Síria e tinha laços com a al-Qaeda.

Mapa do Iraque. Em amarelo, a região atualmente controlado por curdos. Em cinza, a região do "califado" da ISIS

Mapa do Iraque. Em amarelo, a região atualmente controlado por curdos. Em cinza, a região do “califado” da ISIS

Tinha? Sim, tinha, pois a al-Qaeda declarou que não possui mais laços com o grupo, dada sua instabilidade e sua brutalidade. Quando uma das principais organizações militantes do mundo classifica um grupo como excessivamente brutal, deve-se ligar um alarme. A explicação da luta ter se alastrado para o Iraque possui diversas explicações. Primeiro, a resistência organizada promovida pelo regime sírio, que conseguiu rechaçar muitas das ofensivas mujahidin. Assim, o Iraque tornou-se um alvo mais fácil para os militantes radicais, já que o Estado iraquiano, atualmente, é vazio. Palavras do Secretário de Estado dos EUA, John Kerry.

Segundo, o caráter religioso da militância. A ISIS é radicalmente sunita e, no Iraque, boa parte do governo e das principais figuras do país são xiitas. E mesmo com um Estado vazio, as forças armadas regulares do Iraque engajaram na luta contra a ISIS. A questão é que elas atravessam um período de transição. Após a queda do regime de Saddam Hussein, em 2003, houve a total dissolução das forças armadas iraquianas, um dos muitos erros da coalizão que invadiu ilegalmente o país. Posteriormente, a defesa do território estava na mão das forças armadas ocupantes, especialmente dos EUA.

Após a retirada dos EUA do país, em 2011, as forças armadas da República do Iraque estavam começando a se restabelecer, em uma nova doutrina operacional e logística; muitos dos novos equipamentos, não coincidentemente, são dos EUA. Os últimos dois anos, entretanto, não foram suficientes para o total restabelecimento dessas forças, o que leva a uma situação caótica, que requer soluções emergenciais. De 2008 até hoje, o Iraque gastou cerca de dez bilhões de dólares em equipamento militar, boa parte proveniente dos EUA.

Em Setembro de 2011, o Iraque encomendou, e pagou, por dezoito caças F-16, fabricados nos EUA; o pedido foi ampliado para um total de36 aeronaves, em Dezembro de 2011. Como mencionado, não houve tempo hábil para a total transição das forças armadas locais, e, atualmente, apenas um desses aviões está em serviço iraquiano. Com isso, o governo foi obrigado a fazer uma compra, emergencial, de aviões russos e bielorrussos, de segunda mão, para pronto uso. O primeiro-ministro iraquiano foi direto e disse que a ofensiva da ISIS só foi possível pela falta de equipamento, principalmente aviões, das forças armadas iraquianas.

O conflito iraquiano, que já está virando uma guerra civil aberta, seria cômico, se não fosse trágico. Cômico, pois afeta a geopolítica de região de forma, no mínimo, curiosa. O avanço da ISIS preocupa os EUA e todos os Estados da região. Tal avanço é financiado, indiretamente, pela monarquia saudita. Ou seja, é grande a chance de uma colaboração entre Estados Unidos e os regimes do Irã e da Síria, inimigos históricos dos EUA, para proteger o “vazio” governo iraquiano, com um premiê xiita, e combater o fundamentalismo sunita sustentado financeira e politicamente por uma aliada histórica dos EUA, a Arábia Saudita.

Como dito, é trágico. Mais de um milhão de refugiados iraquianos foram deslocados. Milhares de civis xiitas ou cristãos, ou militares do governo iraquiano, foram brutalmente torturados e executados, com imagens circulando livremente pela internet. Cidades importantes da região, como Tikrit e Mosul, foram dominadas pelos mujahidin; no banco central de Mosul, meio bilhão de dólares teriam sido tomados pelos radicais. Após o estabelecimento de um califado, como se entidade independente, o conflito escalou mais ainda.

Alguns dos principais campos de petróleo na fronteira entre Síria e Iraque foram dominados pela ISIS. Assim como nas guerras da ex-Iugoslávia, o estupro voltou a ser usado como abominável arma de guerra, além da determinação de que as mulheres submetidas ao califado sejam vítima de mutilação genital. Na Síria (tema de texto futuro), já existem grupos “moderados” que lutam tanto contra o regime de Assad como contra a ISIS. Finalmente, nessa semana, o governo iraquiano admitiu que um depósito com cerca de dois mil e quinhentos foguetes com gás sarin, arma química letal, caiu nas mãos dos radicais. Radicais brutais, segundo outros radicais. Uma reação dos Estados da região é mais que necessária, é urgente.

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