Síria Parte 3 – Síria, guerra-civil, Israel e os países árabes

Caros leitores

Última parte dos posts analisando a situação Síria, do ponto de vista político e geopolítico atual; o que vai acontecer daqui pra frente certamente será tema de posts, mas eu não sou adivinho e não arrisco absolutamente nenhuma previsão, qualquer coisa pode acontecer. Depois de analisar os possíveis interesses da Rússia e dos EUA, falarei dos protagonistas e pessoas que mais sofrem com a situação, os sírios. Também falo dos países árabes e de Israel, então, para um texto mais completo, o post ficou mais longo, por isso, peço sua paciência e compreensão.

Bashar al-Assad e Hafez al-Assad

Bashar al-Assad e Hafez al-Assad

A situação síria não é inédita. Muitos veículos de informação e formadores de opinião não trazem esse dado histórico ao grande público. De Junho de 1979 a Fevereiro de 1982, uma revolução armada de grupos islâmicos radicais da maioria sunita tentaram derrubar o governo nacionalista pan-árabe controlado pelo partido Ba´ath, do Presidente Al-Assad, membro da minoria alauíta. Após quase três anos de conflito, incluindo massacres de civis, o exército sírio venceu a guerra e o governo secular permaneceu.

Agora, notem que as últimas quatro linhas serviriam com propriedade para ser a exata descrição do atual conflito sírio; a única correção necessária é que, em 1979, o Presidente era Hafez al-Assad, pai do atual líder sírio, Bashar al-Assad. Não que não existam especificidades no conflito contemporâneo, e já irei falar delas. Meu argumento é: esse não é um conflito recente, uma inédita ruptura no tecido social local, ou decorrência de grandes acontecimentos. É a retomada, em um novo contexto, de uma velha divisão, que passa despercebida aos olhos de muitos.

O cenário político na Síria pode ser simplificado da seguinte maneira. Uma república unitária, com governo unipartidário, sem eleições multiparidárias em nenhuma esfera até recentemente, com a outorga da nova constituição em 2012 (ou seja, o país é uma ditadura, embora o cargo de al-Assad seja de Presidente). Cerca de 90% da população é árabe (de diversos ramos, mas árabe) e 9% da população é curda, ou seja, não é um caldeirão étnico. A divisão é religiosa: 60% da população é sunita, e 12% é alauíta; mas os alauítas dominam as principais posições no governo desde 1970, pois a família al-Assad, alauíta, instaurou um “sectarismo de Estado”. Ou seja, a maioria sunita, à décadas, é praticamente alijada da representação política.

Os outros dois elementos vitais dessa guerra são derivados do contexto recente. O primeiro é a chamada “Primavera Árabe”. O conflito sírio é decorrente de protestos que pediam por abertura política em 2011. O Presidente lidou com os protestos da mesma maneira que o pai lidou em 1979: com repressão em larga-escala e força letal por parte do exército. Isso gerou uma escalada nas hostilidades, a oposição organizou-se, diversos segmentos se amalgamaram e o que era protesto, virou guerra. O outro elemento do contexto contemporâneo é o clichê, mas existente, radicalismo islâmico. É inegável o crescimento, no Oriente Médio, de movimentos religiosos armados na última década. Como o governo é secular e nacionalista, é visto como um inimigo pelas organizações mais radicais, que, em maior ou menor grau, defendem a lei da Sharia e um pan-arabismo religioso, não nacional.

Quais seriam então os objetivos de al-Assad? Manter-se no poder e manter o estado sírio unificado, em primeiro lugar, e evitar uma disputa religiosa e consequente fortalecimento de grupos jihadistas em segundo lugar. Seus principais aliados para isso são: Irã, país com fortes laços políticos e também de orientação nacionalista, que busca manter seu último aliado na região; Rússia, pelos motivos abordados em post anterior; e o Hezbollah, partido político e movimento armado libanês, de orientação islâmica xiita, aliado tradicional da Síria nos conflitos internos do Líbano e externos contra Israel.

E quem luta contra al-Assad? São dois grupos unidos em torno de um objetivo comum, a derrubada do governo sírio, mas que dificilmente coexistiriam juntos. A primeira e mais importante é a Coalizão Nacional Revolucionária. A Coalizão Nacional representa a maioria sunita e, teoricamente, busca suprimir o governo ditatorial de al-Assad por uma república representativa. Seus combatentes usam identificações, buscando reconhecimento internacional como força beligerante, não como terrorista. A Coalizão executou eleições para escolher seus representantes e possui reconhecimento de diversos países, inclusive países árabes, e até mesmo como a única representante legítima da Síria. Símbolo maior desse suposto republicanismo é o fato de usarem a bandeira da antiga República da Síria, utilizada até 1963. Recebem apoio turco e saudita, principalmente, com o envolvimento comprovado de militares turcos nos combates. Também contam com o apoio da Irmandade Muçulmana síria (como disse no texto sobre o Egito, a Irmandade Muçulmana não é um partido fundamentalista).

O segundo grupo, que também luta contra al-Assad, é o conjunto de forças mujahidin fundamentalistas islâmicas, como o Fronte Islâmico Sírio e a Al-Nusra. O objetivo desses grupos é bem simples, e explicitamente incongruente com a Coalizão: a formação de um estado islâmico na Síria, como o reino saudita. São mais de dez grupos, formados inclusive por voluntários estrangeiros paquistaneses, sauditas e iraquianos. Recebem financiamento e armamento do Qatar e da Arábia Saudita, duas monarquias islâmicas (inclusive, o Qatar suprimiu com extrema violência os protestos no país). É sobre a Al-Nusra que recai a desconfiança, compartilhada com o governo sírio, sobre o uso de armas químicas em Ghouta. Apesar de terem um inimigo comum, os mujahidin certamente não colaborariam com o estabelecimento de uma república síria e é impossível prever o impacto geopolítico da chegada ao poder de tais grupos fundamentalistas.

Finalmente, há um terceiro grupo armado, que combate de forma quase autônoma, equidistante de ambos os lados da guerra civil: os curdos. O nordeste do país, na fronteira com o Iraque, é lar da expressiva população curda do país. A causa do estabelecimento do Curdistão remonta ao início do século 20, e tomou destaque nos anos 1980, quando os curdos foram alvo de repressão, por parte de Saddam Hussein, no noroeste iraquiano, incluindo o uso de armas químicas. Os curdos lutam para tentar manter o domínio sobre pequena parcela do país, na esperança de ser o embrião de seu futuro país, ideia ainda longe de ser concretizada.

Em verde, áreas controladas pela oposição síria (Coalizão/Mujahidins), em amarelo, áreas controladas pelos curdos.

Em verde, áreas controladas pela oposição síria (Coalizão/Mujahidins), em amarelo, áreas controladas pelos curdos.

Ao redor disso tudo, temos o transbordar do conflito. Escaramuças fronteiriças na Turquia, Israel, Líbano, Iraque e Jordânia, ao mesmo tempo em que urgem para a solução do conflito, o tornam mais complexo, já que tais países acabam se envolvendo, em menor ou maior grau, além de terem agendas próprias, como vizinhos. Muitos desses confrontos envolveram os grupos mujahidin, que entraram em conflito com as forças legais dos países vizinhos. Israel já fortaleceu suas tropas na fronteira, esperando conflitos com o Hezbollah. E qual a postura dos países árabes? A Turquia, como membro da Otan e interessada no fim do regime de al-Assad, tem uma posição clara. A Liga Árabe, sob forte influência da Jordânia e da Arábia Saudita, suspendeu a Síria já no fim de 2011 e admitiu a Coalizão como única e legítima representante síria no início de 2013. A postura dos países da península árabe foi até radical, ao romper com o regime de al-Assad. Na opinião do blogueiro, isso se deve por serem monarquias fundamentalistas conservadoras (assim como Kuwait, Qatar, Omã, etc), que sempre enxergaram no pan-arabismo nacionalista de Nasser, Assad e outros, uma ameaça; além disso, é sempre necessário lembrar que os xeiques tribais sauditas são alguns dos principais financiadores dos movimentos islâmicos fundamentalistas. Dos países da Liga Árabe, Líbano e Iraque ainda mantém laços com o regime sírio e não reconhecem a autoridade da Coalizão (juntamente com a Argélia, votaram contra a entrada da Coalizão na Liga Árabe).

Em verde, a Síria. Em azul, países que reconhecem apenas a Coalizão. Em vermelho, países que lutaram ao lado das forças sírias contra mujahidin.

Em verde, a Síria. Em azul, países que reconhecem apenas a Coalizão. Em vermelho, países que lutaram ao lado das forças sírias contra mujahidin.

Os dois anos de conflito já geraram, além de milhares mortos, mais de dois milhões de refugiados, que se deslocaram principalmente para Líbano, Jordânia e Turquia. O Presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Barroso, afirmou ontem que “A situação na Síria é a maior tragédia humanitária dos nossos tempos”. E como resolver essa crise? Um mero ataque dos EUA é estéril. Uma intervenção estrangeira, com tropas e ocupação, além de custosa, não é unânime. Derrubar o regime de Assad pode contribuir com grupos fundamentalistas. Manter al-Assad, embora seja um governante secular, é manter uma ditadura sectária. Acabar com o regime atual e combater os grupos mujahidin, para promover uma república síria, prolongaria o conflito de forma extremamente desgastante, mesma situação que dura dez anos no Afeganistão. Monarquias islâmicas apoiam diferentes lados, e no meio disso temos uma minoria curda que sonha com seu próprio país e milhões de pessoas que tiveram que abandonar tudo. É um cenário extremamente complexo, que não permite solução rápida, se é que há solução.

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