Visita ao CESEDEN – Centro Superior de Estudios de la Defensa Nacional

– por Thomas Dreux M Fernandes

Caros leitores,

O texto de hoje é de um amigo, que já convidei anteriormente para escrever aqui no Xadrez Verbal e partilhar um pouco de sua experiência em terras espanholas. O tema do post de hoje está ligado a crise da Crimeia, bastante analisada aqui no blog. Foi curioso meu amigo dizer que várias coisas ditas na aula, narrada abaixo, ele já tinha visto por aqui. Espero que gostem assim como eu gostei.

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Na última terça-feira (08 de abril) como parte de minhas atividades do mestrado em História Contemporânea que estou cursando na Universidad Complutense de Madrid fui convidado junto com outros colegas da classe de Política Exterior Espanhola a conhecer o CESEDEN – Centro de Superior de Estudios de la Defensa Nacional. Este órgão do governo espanhol criado em 1964 está ligado ao Ministério da Defesa e ao JEMAD – Jefe de Estado Mayor de la Defensa e se trata de um centro docente militar de altos estudos.

cesedenDe acordo com os próprios militares envolvidos com o centro de estudos, suas pesquisas e investigações se relacionam com a paz, segurança e a política de defesa nacional. São três as escolas existentes dentro do centro de estudos: EALEDA – Escuela de Altos Estudios de la Defensa direcionada a militares de outros países, diretores de empresas e pesquisadores universitários; ESFAS – Escuela Superior de las Fuerzas Armadas, dedicada a cursos militares voltados aos coronéis que buscam chegar ao cargo de general. Além disso, também realizam exercícios militares com outros países. E por fim o IEEE – Instituto Español de Estudios Estratégicos que ainda hoje é o principal pensador da política externa espanhola uma vez que há pouca coordenação com o Ministério de Relações Exteriores que por sua vez diz não possuir o pessoal e recursos suficientes para atender a demanda.

Vamos ao que interessa. Em meio a uma série de queixas dos militares presentes quanto à quantidade de recursos destinada ao centro de estudos, dizendo que nos últimos quatro anos seu orçamento foi reduzido em mais 40% e que somente o IEEE perdeu 70% de suas receitas, o General Miguel Ángel Ballesteros, chefe máximo do Instituto nos deu uma aula sobre um tema já abordado aqui no blog, a crise na Ucrânia. Vou tentar resumir o que foi dito de mais relevante sobre esse tema sem repetir o que já foi publicado no XadrezVerbal.

Como já ficou claro nos posts aqui publicados sobre a crise na Ucrânia é muito difícil que a Rússia saia perdendo alguma coisa, hoje ela só tem a ganhar. Apesar de todas as violações da Convenção de Genebra ao ocupar o território ucraniano com militares sem identificação, a comunidade internacional e em especial a União Europeia consideram a anexação da Crimeia como um fato consumado.

De acordo com o General o que a Rússia quer hoje é se consolidar como potência de influencia regional para quem sabe voltar a ter influencia global. Nesse contexto a Ucrânia se coloca como um estado colchão entre o ocidente (UE) e a Rússia potência regional, porém quando começa a negociar sua entrada na OTAN e UE os lideres russos enxergam tal ato como uma ameaça a sua soberania. Segundo a opinião de Ballesteros um país como a Ucrânia, com 44 milhões e meio de habitantes e uma renda per capita de US$4000 não pode entrar na UE, pois a desestabilizaria.

O mais interessante de todo o contexto caso a Ucrânia fosse incorporada a OTAN e UE é que seria um país ligado ao ocidente com uma base russa em seu território. Tal base é centro de toda a disputa. Segundo o General, Sebastopol era uma zona independente dentro da Crimeia, tanto que quando a anexação da Crimeia foi assinada em Moscou estavam presentes Putin, o presidente do Congresso da Crimeia e o Prefeito de Sebastopol.

Em 1997 um acordo garantia que 80% da base seria usada pelo exército e marinha russa por 20 anos a um custo de 100 milhões de dólares por ano. Frente as tentativas de entrada na OTAN e UE por parte da Ucrânia o acordo esteve próximo de não ser renovado, porém em 2010 foi renovado até 2042 com um acordo econômico de 30% de desconto no preço do gás natural exportado pela Rússia para o país vizinho, entretanto com os reajustes no preço do gás o valor que o governo russo estava “passando” aos ucranianos era agora de 40 bilhões de dólares por ano.

Assim, para Ballesteros, com a anexação da Crimeia o governo russo não só garante um território com imensa importância geopolítica e militar, reafirma sua força na região como deixa de “pagar” 40 bilhões de dólares ao ano para Ucrânia e continua detendo o poder de barganha com o gás natural. Além disso, dá um exemplo às outras regiões russófonas de que “estando com os russos eles vão estar bem”, uma vez que o resultado do plebiscito na Crimeia, por exemplo, expõe a preferência da população não-russófona pela estabilidade a instabilidade ucraniana e crise financeira.

Outra vantagem da anexação da Crimeia pelo goveno russo é a facilitação na construção do gasoduto sul que parte do interior da Rússia e teria que atravessar todo o mar negro até chegar a Europa, e com a anexação da península tal projeto de engenharia e geopolítica agora terá um custo menor e será implementado mais rapidamente, aumentando o poder de barganha e influencia russa na Europa Ocidental no que tange ao fornecimento de energia.

De acordo com o General Ballesteros, nesse momento a Espanha pode tirar grande proveito dessa crise especialmente no que diz respeito ao fornecimento de gás natural para Europa. De acordo com ele, hoje cerca de 60% do gás natural consumido pela Espanha vem do norte da África o que não a torna tão dependente da Rússia, e esse seria o momento ideal para pressionar o UE e principalmente a França a construir um gasoduto atravessando ou dando a volta nos Pirineus o que daria a Espanha uma importante posição geopolítica no cenário europeu uma vez que também possui hoje o segundo melhor complexo de armazenamento de gás liquefeito.

Ainda sobre as ações russas na Ucrânia e região o general considera que com o início de revoltas pró-russas no lestes industrializado da Ucrânia o país corre o risco de se desintegrar caso as negociações políticas não sejam levadas de maneira inteligentes. De acordo com o militar a estratégia russa na região é parecida com a da antiga URSS, são dados passaportes russos a todos aqueles que falam russo que desejam ter cidadania russa e dessa forma caso tenha inicio algum tipo de agressão por parte do governo ucraniano os dirigentes russos possuem podem intervir para defender seus “cidadãos” e assim entrarem no território vizinho.

Foi uma aula e tanto em que aprendi muito sobre a atual situação geopolítica na Europa e mais do que isso, ficou claro para mim porque boa parte da sociedade espanhola e também seus acadêmicos enxergam os militares com bons olhos e com admiração apesar de todas as feridas abertas do Franquismo. Isso para mim ocorre, pois além do fato de que a participação espanhola em missões de paz da ONU e UE ajudou a melhorar a imagem da instituição, tais estudos e a participação militar não só na política de defesa, mas na política externa espanhola lhes da um reconhecimento que os diplomatas por aqui não tem.

Por fim, gostaria de colocar apenas mais uma impressão. O Centro Superior de Estudios de la Defensa Nacional está localizado em um edifício do século XIX que já passou por diversas funções governamentais e fica em uma das regiões mais nobres da cidade de Madrid e destaca-se por uma importante biblioteca e sua suntuosidade interna. Pude ver algumas contradições enquanto realizava a visita, como já disse eram muitas as queixas quanto a falta de dinheiro, dizendo inclusive que durante o verão eles trabalham sem ar-condicionado e no inverno muitas vezes sem calefação, além de diminuir a quantidade de lâmpadas nos lustres para reduzir o consumo de energia elétrica, porém no mesmo dia estava ocorrendo um congresso de logística militar onde militares de todo o mundo estavam presentes e foram recebidos com um banquete regado a vinho, presunto cru, queijos e tudo que teriam direito. Além disso, as instalações contavam com todas as inovações tecnológicas possíveis. Ao final da visita eu e os demais colegas fomos presenteado com livros de geopolítica produzidos pelo IEEE.

Thomas Dreux M Fernandes é graduado em Jornalismo e em História, exerce um pouco dos dois. Escreve para colocar as ideias em ordem. Acredita que as coisas não devem permanecer assim e que o otimismo é o caminho.

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