Valle de Los Caídos

– por Thomas Dreux M Fernandes

Caros leitores,

O texto de hoje é de um amigo, que convidei para escrever aqui no Xadrez Verbal e partilhar um pouco de sua experiência em terras espanholas, especificamente sobre o Franquismo e seu legado. Espero que gostem assim como eu gostei.

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Hoje visitei um dos lugares mais impressionantes que já vi em toda a minha vida.

Foto: Thomas Dreux M Fernandes

Foto: Thomas Dreux M Fernandes

Valle de Los Caídos, localizado no município de San Lorenzo del Escorial, a pouco mais de uma hora de trem desde Madrid trata-se de um enorme monumento construído por Francisco Franco, ex-ditador espanhol (1939-1975), na Serra da Guadarrama para homenagear aqueles que morreram em nome da Espanha e de Deus durante a Guerra Civil Espanhola (1936-39).

Durante a guerra ficaram frente à frente os Nacionalistas, militares e civis apoiados pela extrema direita fascista, a Igreja católica, grandes produtores rurais e também a Alemanha nazista e a Itália de Mussolini, do outro lado, a Frente Popular composta por militantes socialistas, comunistas e anarquistas que defendiam a república e o resultado das Eleições de 1936, em que socialistas haviam saído vitoriosos e serviu de motivo para os militares iniciarem um golpe militar, continuando uma tradição de intervenção militar na política.

Voltando ao monumento, no local, um grande parque com acesso controlado e entrada paga, há uma enorme cruz de concreto (150m de altura) no topo da montanha de pedras e uma basílica também gigantesca escavada na rocha. Em seu interior as diversas capelas remetem a Virgem Imaculada protetora das forças armadas e ao “sentimento de ser espanhol”, além disso, na nave central da basílica estão os restos mortais do próprio Franco.

A princípio, todo o complexo serviria de homenagem e mausoléu para os “Nacionalistas” que morreram durante a guerra, lá estão depositados os restos mortais de 34 mil militantes favoráveis a Franco e estimasse que entre 50 e 70 mil restos de outros “caídos” de ambos os lados da disputa. Não encontrei uma explicação oficial disso, mas segundo uma amiga minha espanhola, isso ocorreu por conta da descoberta de diversas valas comuns onde estavam corpos de vencedores e vencidos, além do fato de que muitos não apoiadores do regime trabalharam na construção de todo o monumento

O que me marcou nessa visita além, do gigantismo do monumento é justamente a disputa pela Memória da Guerra Civil Espanhola e do Franquismo que há por trás disso tudo. Esse enorme espaço, que para mim se trata de uma apologia ao regime de Franco, hoje é mantido pelo estado espanhol, mais especificamente pelo Patrimonio Nacional Espanhol, instituição de um Estado que é laico, e o que mais impressiona, não há qualquer explicação sobre o que foi o Franquismo e suas consequências. O que quero dizer?

Se trata realmente de algo que homenageia o ditador e seus apoiadores e não há nenhuma menção de que isso poderá ser tratado de outra forma, como um museu, por exemplo, e que faça as pessoas refletirem sobre o tema. Algo que hoje é recorrente na Alemanha, por exemplo, onde são diversos os museus ou lugares em que a história, principalmente do Nazismo se passou, mas que são tratados não como monumentos ao período e sim como espaço de reflexão e crítica.

Hoje há um debate na sociedade e na historiografia espanhola sobre quais os limites da presença de elementos (estátuas, monumentos, etc.) do franquismo no país, pois discute-se até que ponto a luta contra a apologia da ditadura de Franco não estaria ajudando a apagar parte da história do país. A polêmica é grande, a disputa pela Memória maior ainda.

A juventude ainda reflete a divisão da sociedade espanhola e nesse ponto não são poucos os que consideram que qualquer retirada de monumentos franquistas seja uma forma de apagar a memória do país, enquanto outros que tiveram em seus pais e avós vítimas diretas da ditadura enxergam a questão com rancor, magoa e pedem por justiça. A justiça e punição aos envolvidos é outro ponto polêmico e que pode servir de tema para um próximo texto.

Foto: Thomas Dreux M Fernandes

Foto: Thomas Dreux M Fernandes

Por fim, não poderia deixar de mencionar o papel fundamental que a Igreja Católica teve e ainda tem nessa disputa e manutenção de um conservadorismo retrógrado. A Igreja Católica e a Opus Dei desde a Guerra Civil e suas motivações foi um dos pilares da extrema-direita na Espanha, justificando boa parte de suas ações como “em nome de Deus”, além de buscar a manutenção do conservadorismo na sociedade espanhola. Alguns exemplos dessa presença religiosa no regime de Franco são as capelas dentro de instituições de ensino como por exemplo a Universidad Complutense de Madrid, que teve boa parte do seu campus em Madrid construído e reformado durante o Franquismo e também o fato de que o Vaticano alguns anos atrás beatificou membros da igreja que eram apoiadores do ditador.

Depois de tudo isso eu só posso esperar que um dia a memória daqueles que lutaram contra o fascismo também seja valorizada e não só na Espanha.

Baita aula a de hoje.

Thomas Dreux M Fernandes é graduado em Jornalismo e em História, exerce um pouco dos dois. Escreve para colocar as ideias em ordem. Acredita que as coisas não devem permanecer assim e que o otimismo é o caminho.

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