Os navios do Mar Negro

Caros leitores, se aviso quando um texto é grande, cabe avisar quando um texto é mais curto, como o de hoje. Leitura rápida!

Caros leitores,

Nos últimos dias, vários navios da Marinha Ucraniana ou desertaram ou foram cooptados ou forçados a trocar suas bandeiras, arriando as cores da Ucrânia e hasteando a bandeira russa (ou da Crimeia, como em ao menos um caso). Talvez os leitores tenham acompanhado isso, ou ao menos visto nas manchetes dos grandes portais. Os episódios estão, por diversos motivos, sendo tratados como algo menor dentro de um grande panorama, que é a crise da Crimeia como um todo. Até certo ponto isso está certo. Até certo ponto.

Cruzador russo Moskva, nau-capitânia da Frota do Mar Negro

Cruzador russo Moskva, nau-capitânia da Frota do Mar Negro

Oficialmente, as Forças Navais da Ucrânia nasceram em Agosto de 1992, com o início do processo de consolidação do novo Estado ucraniano, após a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Na prática, ela surgiu em 1997, após a assinatura do Tratado de Partição sobre o estado e as condições da Frota do Mar Negro. O tratado dividiu a antiga Frota do Mar Negro soviética entre Ucrânia e Rússia, que manteve cerca de 80% dos navios, além do direito de manter tropas na Crimeia, e estabeleceu os parâmetros para o aluguel ou a operação mútua de bases ex-soviéticas na região. Isso já foi tratado aqui no Xadrez Verbal e, como podem ver, as forças navais do Mar Negro fazem parte da origem da crise atual.

Com o desenrolar da atual crise, diversos militares ucranianos desertaram seus postos e se juntaram à República da Crimeia, agora, parte da Rússia; inclusive, foi irônico que o primeiro comandante militar nomeado pelo novo governo ucraniano foi um dos primeiros que trocou de lado. O fato da maior parte dos integrantes (ou ex-integrantes) da Marinha Ucraniana ser de origem russa, residente da Crimeia, onde estão as principais bases, e ter recebido treinamento russo explica boa parte dessas deserções. Na verdade, isso é habitual quando há uma partilha, separação, independência, qualquer evento que altere as áreas nacionais.

A deserção, inclusive, está na gênese da Marinha Ucraniana, quando o navio patrulha soviético SKR-112 hasteou a nova bandeira do país, em Julho de 1992; o governo de Moscou classificou o episódio como “motim”. Isso explica os navios que desertaram. Mas qual o motivo dos russos forçarem os navios que ainda se mantêm como ucranianos a se render? Pois a capacidade de força no Mar Negro é dos principais interesses russos na região. Considerando que o Mar Negro é praticamente um “lago da OTAN”, com Romênia, Bulgária e Turquia, além da Geórgia em “diálogo intensivo” com a Organização e uma Ucrânia instável, a Rússia compreende que qualquer força naval significativa naquelas águas pode ser uma ameaça.

As “justificativas” para isso podem ser duas, interligadas. A primeira é considerar que a atual crise invalida, ou, ao menos, questiona a partição da frota soviética, em 1997. Ligado a isso, temos o fato de que todos os navios remanescentes da Marinha Ucraniana são de fabricação soviética; existe apenas um outro projeto, suspenso, de construção nacional, e boa parte da frota originalmente ucraniana, em 1997, foi desativada por falta de manutenção apropriada. A idade dos navios não é determinante, já que um navio bem mantido e com seus sistemas modernizados é quase tão valioso quanto um navio moderno. O fato de tais navios serem de fabricação soviética pode implicar o argumento de serem propriedade sucessória russa.

Tais justificativas são fracas, não se sustentam em um escrutínio mais incisivo; mas, em um momento de crise, podem ser suficientes para motivar ou justificar a captura dos navios ucranianos restantes. Mesmo os navios cujas tripulações desertaram voluntariamente ainda seriam propriedade ucraniana, passíveis de serem ressarcidos ou devolvidos. A postura russa em relação aos navios da Frota do Mar Negro acaba sendo espelho da postura russa sobre a península da Crimeia como um todo. Ela rapidamente, e de forma resoluta, assegurou seus interesses e colocou-se em uma posição vantajosa para negociar depois. Seja negociar a autodeterminação da Crimeia, seja negociar a propriedade dos navios ex-soviéticos.

Mas, um último ponto de interrogação permanece. Mesmo fracas, as justificativas russas são as que norteiam suas ações dos últimos dias; o governo ucraniano, porém, mesmo após ser classificado por seus próprios comandantes como fraco e indeciso sobre como proceder, ordenou que a tripulação do transporte de tropas Konstantin Olshanski “resista até o final”. O fato de esse ser o único navio que não é de fabricação soviética (é polonesa) talvez não seja uma coincidência. Se ocorrer uma escaramuça, no caso, mesmo as pálidas justificativas russas se anulariam; ainda mais, pode forçar um início de hostilidades por parte dos russos, o que favoreceria, e muito, a posição ucraniana. Talvez tais navios não sejam assunto menor.

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Até o início da crise, a Frota do Mar Negro russa consistia de aproximadamente dez navios capitais, incluindo um cruzador de quase doze mil toneladas, além de um submarino, vinte e sete navios de combate e algumas dezenas de navios menores e de apoio. A Frota demonstrou bom desempenho e aptidão em seus últimos deslocamentos, como durante a Guerra da Ossétia do Sul, em 2008, e durante a atual crise na Síria.

Dos totais 67 navios da Marinha Ucraniana, 54 teriam trocado suas bandeiras, voluntariamente ou não. Dos treze navios restantes, apenas dois são navios capitais, o que demonstra que a Ucrânia não tem uma capacidade considerável de força na região.

Em 1992, após a dissolução da União Soviética, a Frota do Mar Negro consistia de 835 navios de todas as classes, incluindo 28 submarinos, 26 navios capitais e um porta-aviões. Nas últimas duas décadas, os diversos desencontros, escaramuças e discordâncias entre Rússia e Ucrânia sobre a situação da Crimeia, suas bases e os navios do Mar Negro deveriam ter sido um preâmbulo para a crise atual.

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