Maristela Basso: Bolívia, ignorância e preconceito.

Ontem, dia 29 de Agosto, durante o Jornal da Cultura, transmitido pela TV Cultura, dentre as notícias do dia, foi debatido o tema do senador Roger Pinto e a Bolívia, presente na mídia nacional, e nesse blog, nos últimos dias. Após o apresentador brincar dizendo que “Evo Morales vem até aqui buscar esse rapaz (Roger Pinto)”, por conta do tom incisivo adotado por Evo Morales ao solicitar a “devolução” do político boliviano.

Então, lá pelos trinta e seis minutos, deu-se a fala de Maristela Basso, professora de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, uma das faculdades mais prestigiadas do país e que é considerada centro de excelência; ao menos, deveria ser. Reproduzo as palavras da professora: “A Bolívia é insignificante em todas as perspectivas, (…) nós não temos nenhuma relação estratégica com a Bolívia, nós não temos nenhum interesse comercial com a Bolívia, os brasileiros não querem ir pra Bolívia, os bolivianos que vêm de lá e vêm tentando uma vida melhor aqui não contribuem para o desenvolvimento tecnológico, cultural, social, desenvolvimentista do Brasil”.

É impossível não lembrar a anedota que envolve a Rainha Vitória, da Inglaterra; em 1870, após ter seu embaixador em La Paz expulso pelo ditador boliviano Mariano Melgarejo, e forçado a voltar até a fronteira montado de costas em um burro, ela teria riscado um mapa e dito “A Bolívia não existe”. Obviamente, quando o locutor de tais termos é a mulher que governa um quarto da superfície terrestre, é mais fácil de aceitar tal demonstração; mas não é o caso da mulher citada acima. Uma das regras básicas do Direito Internacional, matéria lecionada por Maristela Basso, é o Princípio de Igualdade de todas as nações soberanas. Um de seus pioneiros? Rui Barbosa, a Águia de Haia, que, em 1907, na Conferência de Paz de Haia obteve a aprovação de seu projeto de criar uma Carta Internacional de Arbitragem para resolver conflitos internacionais, baseado justamente nesse princípio; que é absolutamente incongruente com classificar um país como “insignificante em todas as perspectivas”.

O leitor pode argumentar que essa é a teoria, na prática é diferente. Claro, sem dúvidas, então, vamos aos dados concretos. Primeiro, sobre o Brasil não ter nenhuma relação estratégica com a Bolívia. Segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP), o país importa, da Bolívia, 35% do gás natural consumido aqui, o que representa cerca de 30 milhões de metros cúbicos. O alto consumo brasileiro de um produto essencial, cuja oferta é dificultada por questões logísticas (não custa lembrar que o Brasil financiou a construção de um gasoduto específico para importar gás boliviano), além da maior fronteira terrestre do país, faz com que a Bolívia seja, sim, um parceiro estratégico do Brasil. Sobre o interesse comercial, a balança comercial do país com a Bolívia, segundo o Ministério da Fazenda, soma cerca de cinco bilhões de dólares. Como 99% das importações brasileiras são de gás natural, excluído esse produto, temos uma balança comercial superavitária em cerca de um bilhão e meio de dólares.

O salar do Uyuni, paisagem "insignificante" Foto: Creative Commons/Tomas Rawski

O salar do Uyuni, paisagem “insignificante”
Foto: Creative Commons/Tomas Rawski

Sobre as visitas, o vice-ministro boliviano de turismo, Marko Machicao, afirmou que, em 2012, a Bolívia recebeu cerca de um milhão de turistas, que movimentaram cerca de um bilhão de dólares; desses, aproximadamente 8% eram brasileiros, ou seja, oitenta mil brasileiros visitaram a Bolívia em 2012. Não acredito que possa ser dito que “os brasileiros não querem ir” para um país com atrativos como o lago Titicaca, Potosí (Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco) e o salar do Uyuni, maior deserto de sal do mundo. E olhem que o blogueiro admite que, dentre os destinos latino-americanos, a Bolívia não está entre suas prioridades imediatas. Finalmente, o último trecho, sobre a comunidade boliviana no Brasil. Apenas em São Paulo, são, oficialmente, 18 mil bolivianos. O consulado boliviano na cidade estima que o número real seja de mais de cem mil. Isso faz deles nada mais, nada menos, que a segunda maior comunidade estrangeira de São Paulo. Mas isso não quer dizer necessariamente que eles “contribuam com o desenvolvimento”.

Perspectivas tecnocratas à parte, os imigrantes bolivianos representam uma das maiores massas de mão de obra da cidade, atualmente. Explorados e muitas vezes em situação análoga à escravidão, contribuem, e muito, de forma anônima e oprimida para a economia da cidade. E, pelo fato de ser uma imigração recente, ainda causam a estranheza do diferente. Se um jovem de feições orientais entra em um recinto, ninguém pensa “lá vem um japa sujo, que veio fugido do país dele, derrotado na guerra”. Corrigindo, ninguém pensa mais assim; mas já pensaram. Então, a pessoa pobre, humilde, de feições andinas, que é explorado cotidianamente, ainda causa o choque do diferente, do elemento estranho, que gera pré-conceitos. Da pessoa menor, ou, para combinar, insignificante, que não contribui. Mas que é vítima das mesmas mazelas; ou seja, sofre mais, e é menos reconhecido.

De qualquer forma, como singelo exemplo (que não é relativo necessariamente à cultura boliviana), faço parte de uma geração que tem ótimas lembranças de, quando criança, visitar o Playcenter, pioneiro parque de diversões paulistano. Tive ótimos momentos lá, com meus pais e com amigos, assim como milhares de outros jovens e crianças. Se é uma contribuição tecnológica, social, cultural, ou todas, não sei; mas sei que eu e esses outros milhares devem essas memórias à um boliviano.

*****

Agradeço ao genial ex-colega de faculdade e doutorando André Godinho, criador da sensacional página Manifestante dá depressão, por ter divulgado essas declarações. Uma ótima oportunidade para corrigir algumas ideias que, infelizmente, podem ser populares.

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18 Comentários

  • O alívio é que imediatamente o Novaes matou a pau na resposta a ela, cara.
    Agora uma pequena cutucada: agradecer o empresário boliviano pelo Playcenter não é exatamente valorizar o povo boliviano, não? Mas eu também me diverti bastante no finado parque!

  • Muito bom o post. A resposta do professor na estrevista foi essencial, mas você complementou a réplica com dados importantes. Talvez a professora devesse retornar ao programa para fazer um pedido de desculpas, ficou muito estranho tudo o que ela falou e generalizou sendo professora do que é e de onde é. Espero que a essa altura ela tenha se dado conta da gravidade do que fez e falou…

  • um texto completamente parcial é lamentável. Sim, o Brasil tem relações comerciais, relações estas q foram prostituidas pelo PT (cabe aí outra discussão). Construimos um gasoduto, e agora pagamos o pato pois pagamos uma fortuna sobre o gás natural importado (cabe mais um adendo, o Brasil tb custeou ITAUPÚ, mas o PT permitiu ao Paraguai vender sua parte de produção a um preço mto mais caro pro proprio Brasil). Sim, temos milhares de bolivianos q contribuiem com nossa economia e desenvolvimento, sendo em sua grande maioria “escravos” da era moderna, como difundido em milhares de denuncias e reportagens. É muito positivo o trabalho escravo que afasta a maioria dos trabalhadores brasileiros de uma carteira assinada, é algo muito competitivo certo???
    Quanto a “falta de interesse dos brasileiros pela Bolívia”, entendo que se refira justamente a estes pontos. Não há interesses comerciais, trabalhistas com a Bolívia, e sim meramente o turismo é que exerce alguma relação.
    Para finalizar, utilizar uma frase com cortes é completamente imparcial acredito eu.

    • Caro Cleiton

      Primeiro, não existe “texto imparcial”, como já discuti nesse espaço. Pode buscar nos arquivos, caso o queira.

      Segundo, gostaria de notar que não discuti assuntos partidários no meu post, sendo assim, são inferências suas, nada mais que isso.

      Terceiro, o fato da mão de obra boliviana estar muitas vezes em situação análoga à escravidão foi citado. E em nenhum trecho dito que era algo positivo, pelo contrário, usei o termo “oprimidos”. Novamente, inferência sua.

      Quarto, não é apenas o turismo que “exerce alguma relação” entre os dois países, esse é o ponto do texto. E, mesmo que assim fosse, a frase de Maristela Basso estaria errada.

      Finalmente, sobre “utilizar uma frase com cortes”, lamentável é não notar que, logo no primeiro parágrafo, está o link para o vídeo na íntegra.

      Um abraço

  • Pingback: Resumo da Semana – 26/08 a 01/09 | Xadrez Verbal

  • Achei um absurdo as declarações dela. Sem comentários. Declarações no mínimo infelizes.. de uma professora de Direito Internacional? Da sisuda e vaidosa USP? Absurdo.

  • Na minha universidade (PUC-Rio), a senhora não entrava nem para porteira do prédio da faculdade de direito.

    • Maristela Basso, a senhora confirma o ditado: ” de um asno só podemos esperar asneira.” Fico impressionado como um jumento pseudo-acadêmico como a senhora pode ser professora da USP. Na minha universidade (PUC-Rio), a senhora não entrava nem para porteira do prédio da faculdade de direito..

  • Faltou mencionar que a Bolívia detém 65% das reservas de lítio do mundo, que é extraído das salinas de Uyuni, sendo o principal fornecedor mundial da matéria prima para a indústria.

  • Estimados Señores:
    Encuentro desacertadas las declaraciones de la Sra Basso, es lamentable que una profesional encargada de la formación de personas tenga criterios errados en torno a aspectos básicos del derecho internacional, la economía regional y la interacción de los estados.
    Si bien es cierto en el contexto del orden mundial apreciado bajo las teorías realistas que dominan las relaciones internacionales Bolivia no ejerce una relación de poder real con Brasil, dentro del derecho internacional no se puede realizar una clasificación de países bajo las categorías de insignificantes o importantes. Dicha clasificación no solo resulta ofensiva también suena ignorante.
    Desconocer la importancia económica de Bolivia para Brasil en términos comerciales nos lleva a verter esta clase de comentarios. Bolivia no solo representa un aliado estratégico actual en el ámbito energético, Es un aliado fundamental y gran parte de la industria paulista depende de ello.
    La llegada de Migrantes Brasileros va mas allá del turismo, Sra Basso existe una comunidad activa de estudiantes brasileros calculada en 60.000 brasileros.sin contar las personas que por diferentes motivos han fijado residencia en este país.

    En ámbitos geográficos no solo compartimos una frontera extensa, Bolivia se convierte en la puerta de acceso natural para brasil hacia el pacifico.Sino intereses comunes como la amazonia.

    Existe una agenda de puntos que Itamarati maneja en torno a las relaciones no solo con Bolivia sino con los países de la región. y si Brasil perfila a convertirse en actor importante en las relaciones internacionales y líder en la región, no se puede dar el lujo de tener esta clase de profesionales que forman personas.mas aun que verte opiniones absurdas en televisión nacional.

    saludos cordiales.

    • Estimado Carlos,

      Muchas gracias por sus comentarios.

      Estoy totalmente de acuerdo con ustedes y me siento también porque tal persona es un profesor universitario. Usted es perfecto en lo que dijo sobre el derecho internacional.

      Bienvenido al blog y no dude en comentar.

      Saludos desde Brasil

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