Sobre bater boca no Twitter e brigas entre canais

Caros leitores do Xadrez Verbal, o relógio do Ahmed segue sendo tema aqui no espaço, agora como exemplo do tipo de discussão estéril que costuma assolar a internet. Segundo texto do dia, o primeiro foi sobre a atual política externa israelense, que pode ser visto aqui. Voltemos; discussão estéril e, em certos parâmetros, desnecessária. Breve recapitulação. Falamos, eu e o Matias, na Coluna Aberta do último podcast do Xadrez Verbal, sobre o caso do garoto Ahmed, que foi preso nos EUA por conta do relógio que levou para a escola. Alguns ouvintes, aqui no blog e no Youtube, onde reposto o podcast, comentaram algumas coisas sobre a situação do garoto.

Pois bem, os comentários geraram um texto, que postei nessa semana, sobre as reminiscências do caso do relógio; algumas observações, uma errata e, após a publicação, um PS. Boa parte das argumentações que utilizei como contraponto vieram dos comentários aqui no blog e no Youtube. Posteriormente, descobri que essa argumentação estava presente em um vídeo do Izzy Nobre (o seu primeiro sobre o tema), pois foi recomendado por um comentário do Youtube; provavelmente essas pessoas assistiram o vídeo e usaram a mesma argumentação, print aqui de quando eu falo isso quatro dias atrás. Até aí, sem problemas. Postei o texto, teve outros comentários, vida que segue. E notem que os comentários críticos, e educados, serviram justamente de base para mais material, mais diálogo, assim como já fiz vídeos “comentando os comentários” no Youtube.

Ontem, dia 22/09, o Izzy Nobre postou outro vídeo sobre o tema, com outras informações. E, hoje, ele postou por aqui três comentários no texto das reminiscências. Comentários críticos e com pontos que já tinham sido levantados no seu vídeo. Primeiro, vou falar na matéria, do conteúdo, dos comentários. Ele está certo quando aponta meu erro em meu PS, sobre a tipificação de hoax bomb no Texas; eu escrevi “crime grave”, está errado. Ponto, não vou sequer justificar o erro. Ele está meio certo quando debate a minha caracterização do hoax bomb, já que o que ele chama de “intenções maliciosas” vai de encontro ao que eu disse, uma ameaça falsa de bomba. E ele não tem razão quando afirma “por que você não admite logo no começo que não fez o mínimo de pesquisa pra escrever esse post?”, ao comentar meu parágrafo em que eu citei que os casos de crianças brancas não mostravam crianças algemadas, sendo que ele apontou casos em que isso ocorreu.

Por qual motivo ele não tem razão? Eu deixo claro no início do parágrafo: “De todos os casos que os ouvintes citaram”. Eu estava comentando os vários links colados nos comentários. Continuo “As crianças das notícias”. Quais notícias? As que foram citadas nos comentários. Pode ter sido um erro meu, não ter buscado outras notícias? Pode, mas eu não falei “nunca”, não falei que era invenção, que não ocorreu. Deixei claro que estava restrito aos comentários. Pois bem, falamos da matéria, falemos da forma dos comentários. Eu achei eles desproporcionalmente agressivos; além disso, ao menos três pessoas inbox me enviaram links dos vídeos do Izzy Nobre, achei que poderia ser uma dessas pessoas querendo se passar por ele e, por isso, a agressividade, pra criar confusão. Então, antes de responder, tuitei para ele, perguntando se foi ele mesmo.

tweetO motivo da minha dúvida era o citado e, ao meu ver, meu tweet foi educado o possível em 140 caracteres, fiz uma pergunta e pedi, por favor, uma resposta. Se soou ofensivo, não era minha intenção e peço desculpa. Agora, por qual motivo eu acharia que alguém se passou por ele pra arrumar confusão? Quando me mandavam o link de seus vídeos, eu, educadamente, recusava comentar, pra não parecer justamente que eu estaria querendo polêmica, especialmente por ser um canal menor em número de inscritos e visibilidade (e esse texto também não é pra “me promover”). Seria muito cômodo chamar o vídeo ou o texto de “Refutando Izzy Nobre”, ou qualquer coisa que o valha. Então, alguém, querendo trollar e forçar um comentário ou uma briga, poderia se passar por ele, por mera trollagem. E, repito, eu só descobri que a argumentação era dele, não do ouvinte, posteriormente. Aqui tem um print da conversa com um dos ouvintes que me mandou um vídeo dele:

printizzyPois bem, a questão é que a agressividade, desnecessária, se manteve. Aqui temos todos meus tweets até esse momento para o Izzy Nobre. As respostas dele foram de que eu “fui tirar satisfação” ao querer checar se era ele mesmo, que “prometi revide” quando disse que não ia bater boca via Twitter, que eu agi como alguém que diz “te pego lá fora”, que eu devia “desabilitar comentários” e que “não argumentei”, sendo que faziam dez minutos que vi os comentários e eu estava justamente ali pra dialogar com ele. E, com todo o respeito, isso é uma grande bobagem, pedras na mão desnecessárias por causa de uma pergunta. E, pior, como eu disse nas respostas em privado, ficar nessa briguinha de produtores de conteúdo independente que deveriam justamente se unir e se ajudar; nós dois participamos de Nerdcasts, por exemplo. E é justamente a mensagem que ele quer passar no seu segundo vídeo e sua analogia da goteira!

Então eu estou reclamando de críticas ou de discordarem de mim? Não, estou apontando que a forma feita não é a melhor. Por exemplo, com youtubers com quem eu tenho mais contato e intimidade, eu posso (e faço) críticas e comentários, até incisivos, em privado; um deles, pra dar um exemplo concreto, é um youtuber grande, que ajudou muito o meu canal e tem sobrancelhas lindas, vocês sabem de que eu falo. Agora, com alguém que você não conhece? Pra quê? E, novamente, o próprio Izzy tuitou sobre isso esses dias, sobre como a maneira com que as pessoas comentam na internet não é a maneira com que elas chegam numa mesa. E o Xadrez Verbal não foi criado, em nenhuma de suas mídias, pra ficar brigando.

Para comentar os vídeos do Izzy Nobre, até pelo fato de ele ter comentado aqui, eu vejo três problemas. Não ter repercutido o fato do garoto ter esse hábito desde sua escola anterior; ter dado muita ênfase ao termo “invenção” e, finalmente, ter dado um tom de “luta contra grandes interesses”, ao afirmar que o foco na religião e na etnia do garoto era “uma narrativa que querem te empurrar”. E não falei nenhum desses três pontos para ofender. O mais estéril nesse caso todo é que, no fundo, eu e o Izzy Nobre estamos falando a mesma coisa, mas com perspectivas diferentes. Eu dou um peso maior (e isso é uma mera discordância, não é um pecado mortal da parte dele ou da minha) que ele dá ao aspectos étnicos e religiosos do garoto, como demonstrado em sua entrevista sobre como foi o interrogatório, mas ambos estão apontando que o problema é o da paranoia!

Ao meu ver, esses foram os problemas dessa confusão toda que, deixando claro mais uma vez, não me interessa. O que me interessa é o debate, a troca de ideias. Aponte erros o quanto quiser Izzy, você é bem-vindo aqui, mas, usando um termo que eu usei antes, escolha melhor suas palavras. Um bate boca à troco de nada, que talvez não tenha levado à nada. Um abraço, com respeito e sem tom de “te pego na saída”.


assinaturaFilipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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9 comentários

  • Eu sempre tento (mas quase nunca consigo) ser polido quando vou fazer um crítica, mas caso você se sinta ofendido eu peço desculpas antecipadas.

    O texto possui três grandes problemas:

    O primeiro é que você assume o erro da tipificação da lei, mas muda rapidamente de assunto quanto ao ponto das crianças serem presas independente de preconceitos prévios para, se o seu texto anterior estava correto ou não.

    O segundo é o destaque excessivo dado há forma da argumentação do Izzy Nobre ignorando o conteúdo (dando a impressão que foi um ad hominem proposital).

    E terceiro que é a conclusão, Não se trata de um ponto de vista diferente do mesmo fato e sim de narrativas diferentes. Para um estar certo o outro tem que estar errado, enquanto você diz (no podcast) que o garoto foi preso por preconceitos prévios, já o Izzy diz que não houve nenhum indício que preconceitos e sim motivos externos que motivaram a prisão.

    Mas a pergunta que eu tenho é se você mantém a posição que preconceitos estão por trás da prisão do garoto? se sim baseado em que?

    • Caro Ricardo,

      1- Eu não mudei de assunto; assumi o erro quanto ao PS e segui para comentar o resto. Mesmo o texto anterior tinha três linhas sobre isso, que escrevi posteriormente.

      2- Não ignorei o conteúdo, comentei tanto a matéria quanto a forma. Agora, esse texto aqui existiu única e exclusivamente por causa da forma, então, ele era o foco do texto.

      3- Primeiro, não vejo esse exclusivismo em relação as “narrativas diferentes”. Segundo, em nenhum momento eu falei que ele foi preso POR preconceitos prévios; não uso essas palavras e a maior parte da argumentação étnica não foi feita por mim, mas pelo Matias. E, caso você acompanhe o podcast, sabe que nem sempre concordamos (de fato, temos algumas discordâncias mais fortes), não ensaiamos nada.

      Minha argumentação sobre o preconceito no podcast especificamente é em relação ao preconceito derivado do caso, as consequências, questões de tolerância e a cicatriz social disso.

      Sobre sua pergunta final, ela em parte fica inválida, pois, repito, eu não acho que ele foi preso meramente por razões étnicas. Além do podcast, isso está escrito, no texto anterior: “Um tema presente em diversos comentários é que a prisão de Ahmed não teria sido motivada por questões étnicas ou religiosas, mas pela paranoia que assola o Ocidente, especialmente os EUA. E não poderia concordar mais.”

      O que eu mantenho é que o preconceito, 1, agravou a situação, como visto pela postura policial narrada pelo Ahmed, durante o interrogatório, 2, fez com que a vítima fosse desmerecida, como as teorias da conspiração de que foi tudo armado pelo seu pai, 3, gera mais consequências nefastas, novamente tomo a liberdade de repetir um trecho do texto anterior: “ele precisa ainda mais desse apoio do que a maioria das pessoas. Provavelmente ainda sofrerá mais preconceito e terá menos oportunidades. “É muçulmano”, “tem cara de muçulmano”, “é árabe” (embora ele seja filho de sudaneses, e sudaneses não são árabes). A paranoia criada pelo terrorismo fez com que um enorme grupo de pessoas torne-se alvo de preconceito, ainda mais residentes nos EUA, justamente por fugirem das condições que criam o terror. Como dito no programa, derrotar o terrorismo e a paranoia implica justamente em apoiar garotos como Ahmed, mostrar que a sociedade se importa.”

      Um abraço e, caso você responda, demorarei pra ver, fica o aviso de que não te ignorarei intencionalmente

      • Obrigado pela resposta e desculpe pelo comentário acima o sono e a a irritação me tornaram mais agressivo que o normal.

        Eu me irritei com seu texto por alguns motivos.

        1 No trecho […] ao comentar meu parágrafo em que eu citei que os casos de crianças brancas não mostravam crianças algemadas, sendo que ele apontou casos em que isso ocorreu.

        Por qual motivo ele não tem razão?[…] a construção das frases da a entender que você está desconstruindo todos os argumentos dele, quando na verdade está falando de uma fração (a que menos importa) da argumentação dele.

        2 Um erro grosseiro de minha parte que não dei atenção se quer ao título. Apesar de eu ainda achar que o texto foi feito justamente com o intuito de mudar de assunto (mas essa é uma impressão minha).

        3 Para entender a terceira parte das minhas críticas é necessário abrir um pouco a visão. Dizer que a sociedade Estadunidense é uma uma sociedade racista e xenofóbica é errado, assim como dizer que não é. Eu divido a sociedade norte americana em três grandes grupos: Os racistas, os que não são racistas mas são coniventes e os que são contra o racismo, tenha em mente que o primeiro grupo causa danos a sociedade apenas por existir, mas o terceiro grupo também pode causar danos.
        Levado em conta que uma acusação de racismo é algo grave e que o caso em questão não diz respeito APENAS ao Ahmed, os danos que uma acusação de racismo pode causar, tanto para o(a) professor(a) que chamou a policia, quanto aos policiais que efetivaram a prisão não podem ser desconsiderados. Não importa se a sua conclusão é a mesma do Izzy se a suas premissas imputam racismo a alguém você tem de prova-las (e mesmo que não imputasse teria de prova-las).

        4 Com a minha pergunta final (que eu formulei mal) eu não quis perguntar se o racismo é principal razão pela prisão dele, mas sim se ela influenciou. E mantenho o se sim baseado em que?

        Por fim obrigado pela resposta.

        Ps: toda vez que eu usei a palavra racismo ou racista, também quis dizer (e ou) xenofobia e preconceito religioso.

  • Foi bem admirável o que você fez, você não quis causar polêmica com um vídeo resposta ,além de ser muito respeitoso, foi um ato admirável por sua parte, porém, oque o Izzy Nobre foi muito infantil

  • A todos os senhores que estão nesse espaço discutindo idéias, conceitos e situações, que mesmo distante do nosso continente nos afeta indiretamente hoje, mas, terão um peso muito grande Num futuro próximo. Vou tentar passar um conceito mais operacional derivado do direito administrativo que norteia as acoes. Existe a doutrina do Poder de polícia do Estado, exercido na ponta pelos praças ou oficiais mais subalternos que recebem a missão de acabar com a ameaça iminente, Essa ordem colocou o Jean Charles encostado no chão do metrô londrino e conduziu para interrogatório uma criança de origem árabe por estar portando um objeto que carecia de perícia aprofundada. A referida ordem, com raras exceções, parte de um militar, formado em uma escola com matérias militares que refletem:-) a sociedade a qual faz parte. Dificilmente algum chefe de Estado emana essas decisões executórias, acredito que a discussao deve se basear mais nas opiniões dessas sociedades como um todo, do que apenas nos seus chefes de estado.Vida longa ao dono do site, e, a todos que vem aqui propor discussões que nos acrescentam conhecimento. Somos parte de um todo…

  • Essas sociedades, se tomassem conhecimento de que havia no metrô um rapaz de exteriotipo relacionado ao islã portando uma mochila suspeita também apoiaria uma operação militar, também apoiaria averiguar um objeto composto de um relógio com fios portados por um garoto de ascendência árabe, acredito que hoje o fato de se chamar mohhhamed está te colocando em situação de suspeição antes da cor da sua pele.

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