A geração Netflix: que filmes, que livros e que pessoas a internet está escondendo de você?

– por Rafael Pinheiro

Eu adoro videolocadoras. Pena que são uma espécie em extinção. Quando eu era mais novo, na volta da escola, tirava um tempo para perambular pelas estantes da Vídeo-Clip. Essa simpática videolocadora, situada em uma loja de esquina aqui do bairro, chegou a abrigar um modesto catálogo de não mais que 500 títulos e fechou as portas há mais de 10 anos. Ano passado caiu o último bastião dos DVDs e VHS em BH: a Videomania. Essa sim foi de dar dó. Um acervo de 18 mil filmes sem destino. O dono, Seu Gery, resistiu bravamente. Foram 30 anos num mercado que nunca se mostrou lá muito promissor. Sua intenção era resistir ainda mais não fosse o boom da construção civil nos últimos anos. A especulação imobiliária no Lourdes, o metro quadrado mais caro de BH, alavancou o preço do imóvel alugado em 5x. Em entrevista ao G1 da Globo, o dono da antiga Videomania disse que “o brasileiro vai sentir falta de pegar, de sentir, de ler a capa”. É uma nostalgia confortante supor que Seu Gery esteja certo. Mas as videolocadoras se tornaram tão inúteis quanto uma fita de vídeo embolada. É cada vez mais caro armazenar fisicamente em imóveis alugados um acervo que poderia muito bem estar hospedado em um servidor. Além disso, quem sente falta de andar por entre estantes se um algoritmo de buscas personalizado pode te conhecer tão bem a ponto de trazer ao conforto de sua tela apenas as os filmes pelos quais você realmente se interessaria?

A videoteca infinita

Nos tempos da Videomania do Seu Gery, para escolher um filme era necessário percorrer as estantes. Não sendo você um fã dos filmes de terror você poderia até passar pela estante do gênero sem dar muita atenção ao Massacre da Serra Elétrica, de Tobe Hooper, ou O Bebê de Rosemary, de Polanski. Mas pelo menos você sabia que esses filmes existiam. Eles estavam lá. Ao alcance da mão, havia a possibilidade de ESCOLHA. Uma escolha que acabava até indo além da de levar ou não levar. Mas nem sempre era essa a questão… Talvez, por curiosidade, você leria uma contracapa. E lendo a contracapa você descobriria, por exemplo, que o Bebê de Rosemary faz parte, junto com O inquilino e Repulsa ao sexo, da “trilogia do apartamento” de Polanski. Três filmes que falam sobre os horrores de viver confinado em pequenos espaços. Daí, lendo a contracapa do Massacre da Serra Elétrica você descobriria que, além desse clássico ambientado nas planícies do Texas profundo, Hooper também dirigiu Complexo de apartamento, que é uma variação sobre o mesmo tema da trilogia de Polanski. E então de repente, você que não gosta de terror, mas tem um interesse por arquitetura ou simplesmente more em apartamento, estaria interessado em conhecer a obra de Polanski ou Hooper. Dessas associações inesperadas a geração Netflix está cada vez mais privada.

Você sabe como o Netflix funciona? Quando o Netflix começou em 1999 era movido pela primeira versão do CineMatch, um algoritmo de buscas personalizadas que identificava as preferências do usuários. Era basicamente assim: se você tivesse assistido a Notting Hill, a comédia romântica com Julia Roberts e Hugh Grant, o algoritmo varria o sistema fazendo com que fosse apresentado para você apenas filmes que o sistema acreditava que agradariam um fã de comédias românticas. Resultado: dificilmente o fã de comédias românticas toparia com a “trilogia do apartamento”. Isso é bom por um lado! Afinal, ao contrário do que o portenho Jorge Luís Borges sugeriu, as bibliotecas infinitas não são paraísos, mas limbos de infinitas indecisões. Essa técnica de filtragem, chamada kNN (k-next-neighbor) evitaria que, ao serem expostos a mais de 148 mil títulos disponível no acervo global do Netflix, os usuários se vissem paralisados pelo paradoxo da escolha. Mas há uma face perturbadora no funcionamento dos algoritmos de personalização.

Lobotomia digital

Nos tempos do Netflix, encontram-se sob a luz holofotes apenas o que o algoritmo interpreta que você gosta. Todo o resto acaba varrido para aquele quartinho escuro de difícil acesso da videolocadora onde se costumam esconder os pornôs. Resultado: essa nossa geração Netflix vive numa bolha de “favorites”. Estamos à volta apenas com o que nos apraz.

Qual é o problema? O problema com os algoritmos de personalização é que eles não existem apenas no Netflix. Isso é o de menos. Os algoritmos de personalização são filtros que definem o conteúdo que estará disponível para você quando você entra em um Portal de notícias, como o G1 da Globo. Também são eles que definem a pessoa cuja atualização vai aparecer na sua linha do tempo do Facebook com mais freqüência, os livros da Amazon que você visualiza para depois colocar no carrinho de compras. E por aí vai… Os algoritmos de personalização se colocam entre você e tudo o mais que existe na rede com a lente de uma câmera. Ele calcula, com base em seu histórico de cliques, como as infinitas possibilidades se apresentarão no espaço finito de sua tela. O resultado é uma realidade deformada para se enquadrar nas preferências do usuário.

Convido-o a um teste. Faça uma visita ao Amazon.com e compare a coluna “item you´ve viewed” com a “items to consider”. Eis uma amostra da sua bolha individual, o universo ideológico autorreferente no qual você está preso. Convido-o a um segundo teste. A partir da mesma tela, na coluna “items to consider”, tente uma fuga desse universo personalizado. Saia clicando nos produtos apresentados e verifique em quantos cliques você consegue achar algo significativamente diferente do título apresentado pela tela anterior?

Com os algoritmos de personalização estamos sujeitos a um comportamento cíclico. Temos a impressão de estarmos diante de um amplo horizonte de escolhas, enquanto na verdade somos de clique em clique tragados ao vórtice de nossas eternas preferências. E o ciclo se repete… Nos cliques futuros estamos condenados a repetir os cliques passados. Se por um lado os algoritmos de busca personalizada nos ajudam a abrir caminho em meio ao caos; por outro lado eles também nos fazem acomodarmos numa microcultura de preferências.

O algoritmo que sonha

William Gibson, cuja ficcional obra inspirou Matrix, dizia que na era do ciberespaço cabe a cada pessoa desenvolver sua própria microcultura, escolhendo por si própria a informação que vai consumir. Mas para moldar sua microcultura de forma livre, a pessoa precisa estar imersa num acervo de informações onde a diversidade da escolha seja devidamente honrada. DIVERSIDADE não se confunde com QUANTIDADE. Escolher entre uma pílula azul e uma pílula vermelha, como o Neo de Matrix, é uma escolha mais rica do que escolher entre infinitas pílulas de infinitos matizes de azul. Se o algoritmo interpreta que você é dado a preferir a pílula azul à pílula vermelha, ele esconderá a pílula vermelha abaixo de várias camadas homogêneas de pílulas azuis.

A lógica dos algoritmos é reduzir ao máximo o contato com o imprevisto. Não é que o algoritmo queira “esconder” uma escolha de você. É uma simples questão de economia. Dentre milhões de escolhas à sua disposição, apenas uma minúscula parcela cabe nos limites de 22 polegadas do seu monitor.

Para o algoritmo, as escolhas passadas definem o horizonte de possibilidades. A esse modo de classificar um acervo de possibilidades, convencionou-se chamar “curadoria algorítmica”. Um nome moderno para algo que de curadoria tem muito pouco… Curadoria não se faz ordenando de forma homogênea o conteúdo, mas, sim, de forma plural. O imprevisto não é indesejável. O imprevisto não é uma falha no sistema. Pelo contrário. A ordenação dos acervos dos museus, das bibliotecas (e até das antigas videolocadoras, de certa forma) consagra o encontro com o inesperado como um momento especial. Já os algoritmos não!

A natureza matemática do algoritmo possibilita a ele nos ajudar a encontrar o caminho até o que sabemos que queremos, mas não o caminho que leva até o que NÃO sabemos que queremos. Nesse sentido é que se diz que um dos maiores desafios da internet é fazer com que os algoritmos de personalização incorporem a lógica dos sonhos e sejam assim capazes de nos fazer a perambular à por lugares que onde não planejamos estar. O algoritmo precisaria ser capaz de emular uma espécie de estado de sonho.

Imprevistos

Busque em sua memória os filmes, os livros, as pessoas mais especiais que já cruzaram seu caminho. É bem possível que o encontro com eles tenha sido inesperado. É bem possível que eles tenham quebrado expectativas e, por isso mesmo, tenham sido tão especiais para você.

Pelo menos comigo foi assim…

Há muito tempo, eu via um filme que passava no Corujão. Era alta madrugada de um dia qualquer. O filme era antigo, começou chato e com toda aquela cara de um baita dramalhão. E então, veio o imprevisto: de repente me descobri assistindo ao clássico Psicose. Foi minha porta de entrada para o cinema como arte. À época, como eu era mais novo, dificilmente um algoritmo me levaria a filmes antigos.

O genial “Leão de Chácara”, do genial João Antônio, comprei só porque estava há dias exposto por R$ 2,00 numa banca de sebo, com a capa toda puída onde se lia: “mais de vinte semanas na lista de best-sellers da Veja”. À época, como só os clássicos da literatura universal me interessavam, dificilmente um algoritmo me levaria a algo com tags do tipo “Veja” ou “Best-sellers” ou à literatura marginal brasileira.

Minha esposa eu conheci quando trabalhava em pleno feriado, com a cidade praticamente deserta. Somos diferentes em tudo. Somos o inverso de um perfect match. Dificilmente um algoritmo me levaria a uma pessoa com interesses tão díspares, sobretudo se comparasse nosso gosto para filmes. A propósito, apesar de a conta estar em meu nome, nosso Netflix tem muito mais a cara dela do que a minha. Ver filmes na TV nunca mais foi a mesma coisa…

*Dedico este texto a meu Tio Anilson, que deixou recentemente muita gente com saudade. Foi um grande entusiasta da ciência da computação. Na casa dele, tive a oportunidade de mexer num computador pela primeira vez.

*****

rafaelPBRafael Pinheiro é servidor público e RPGista. Gostaria de trabalhar no MRE, mas não consegue passar no CACD. Textos de Rafael Pinheiro. Pode ser contatado no Facebook ou em rafaelpta@yahoo.com

 

*****

No mesmo tema, aqui no Xadrez Verbal, foi publicado um texto de João Goto, Facebook, Google e o capitalismo cognitivo.

*****

Como sempre, comentários são bem vindos. Leitor, não esqueça de visitar o canal do XadrezVerbal no Youtube e se inscrever.

*****

Caso tenha gostado, que tal compartilhar o link ou seguir o blog?

Acompanhe o blog no Facebook e no Twitter e receba notificações de novos textos e posts, além de outra plataforma de interação, ou assine o blog com seu email, na barra à direita da página inicial. E veja esse importante aviso sobre as redes sociais.

Anúncios

9 Comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s