Facebook, Google e o capitalismo cognitivo

– por João Felipe Rebelo Goto

Caro leitor, você já parou para pensar como o Facebook e o Google tornaram-se duas das empresas mais importantes do mundo nas últimas duas décadas? E que elas acumularam um lucro líquido em 2013 de US$ 14,4 bilhões (sendo US$ 1,5 bilhão do Facebook e, pasme, US$ 12,9 bilhões do Google) sem cobrarem um centavo sequer dos bilhões de usuários que acessam suas respectivas plataformas virtuais cotidianamente? Como isso é possível?

Nos últimos anos, teóricos de várias nacionalidades debruçam-se sobre o conceito de capitalismo cognitivo com o intuito de explicar esse novo modelo de negócio surgido no início do século XXI. Como base, inspiram-se naquilo que Gilles Deleuze, Félix Guattari e, posteriormente, Antonio Negri e Michael Hardt chamaram de sociedade de controle.

Antes de continuar, entretanto, alerto o leitor que este texto é superficial e pode conter algumas imprecisões, uma vez que não sou especialista em economia ou em filosofia. O objetivo aqui passa muito mais por compartilhar e tornar pública algumas inquietações geradas a partir de leituras recentes do que por professar uma verdade sobre a atual fase capitalista ou possibilidades de revolução. Prosseguimos à análise.

De uma forma bem esquemática, os filósofos acima citados definem como principal característica da sociedade de controle um aprimoramento nos mecanismos de poder instaurados pela sociedade disciplinar em meados do século XIX, conforme estudado por Michel Foucault. Em outros termos, a partir da década de 1960, o controle social deixa de ser exercido exclusivamente pelas instituições disciplinares, como a família, a escola, o exército e a fábrica, cujo principio de funcionamento reside na normalização dos gestos, pensamentos e ações dos sujeitos e, consequentemente, exclusão daqueles que não se enquadram nas regras estipuladas, e passa a operar diretamente na mente dos sujeitos de uma forma muito mais fluida, democrática e imperceptível. De acordo com Hardt e Negri:

o poder agora [nas sociedades de controle] é exercido mediante máquinas que organizam diretamente o cérebro (em sistemas de comunicação, redes de informação etc.) e os corpos (em sistemas de bem-estar, atividades monitoradas etc.) no objetivo de um estado de alienação independente do sentido da vida e do desejo de criatividade. A sociedade de controle pode, dessa forma, ser caracterizada por uma intensificação e uma síntese dos aparelhos de normalização de disciplinaridade que animam internamente nossas práticas diárias e comuns, mas, em contraste com a disciplina, esse controle estende bem para fora os locais estruturados de instituições sociais mediante redes flexíveis e flutuantes

Por questões de espaço, dentre os vários dispositivos que operam nessa sociedade de controle, destacaremos aqui o papel exercido pelos veículos de comunicação e seus subprodutos, sobretudo a propaganda publicitária. Analisemos a imagem do anúncio de margarina abaixo:

margarina

Crédito: Reprodução

Se, na sociedade disciplinar, cabia à família, aos professores e, principalmente, aos médicos ensinarem o sujeito a cuidar de sua saúde (e, com isso, maximizar a produtividade dele dentro de um sistema capitalista do tipo industrial), na sociedade de controle, esse papel passa a ser exercido de uma forma extremamente sutil pelos inúmeros programas e reportagens que tratam da “qualidade de vida” e pelas propagandas veiculadas aos montes por jornais, revistas e estações de rádio e televisão.

Mas o que o Facebook e o Google tem a ver com isso?

Conforme já mencionado, o modelo de negócio engendrado no seio dessa sociedade de controle tem sido denominado capitalismo cognitivo pelos teóricos interessados pela temática. Em linhas gerais, entende-se por esse conceito uma transformação nas relações de produção levadas a cabo num mundo pós-fordista na qual o conhecimento e a informação tornam-se as principais fontes de geração de riqueza.

Em primeiro lugar, o caso do Facebook. Fundada por Mark Zuckerberg e seus colegas de faculdade em 2004, atualmente é a rede social mais acessada do mundo. Sua principal fonte de renda é a comercialização de espaços publicitários nas timelines dos seus mais de 1,2 bilhão de usuários ativos. Mas qual é a diferença entre um anúncio publicitário veiculado numa revista ou num comercial de televisão para o divulgado através do Facebook? Enquanto a publicidade dos veículos de comunicação tradicionais é vendida com base em perfis de leitores / expectadores que nem sempre condizem com a realidade (por exemplo, uma revista produzida para um determinado público pode, com frequência, parar na mão de leitores que não alinhados ao perfil traçado previamente), o Facebook garante que o anúncio veiculado em sua plataforma alcançará exatamente o público a que se destina por um valor muito abaixo do que o das mídias tradicionais.

Contudo, o que faz do Facebook uma empresa caricata do capitalismo cognitivo é o fato de ser seus próprios usuários, que não pagam (mas também não recebem) um centavo para utilizarem a plataforma, os responsáveis pela produção de uma quantidade imensurável de informações sobre eles mesmos que, no instante seguinte à “curtida” ou ao “compartilhamento”, será colocada à venda aos mais diversos anunciantes. No Facebook, não há escapatória: os anúncios veiculados nas timelines são exatamente daqueles produtos que mais desejamos naquele instante. Em suma, trabalhamos gratuitamente em nossos momentos “livres” e de lazer para fazer a eficiência da máquina publicitária Facebook atingir níveis inimagináveis.

Imagem da minha timeline. Quem compraria uma camiseta de um grupo de rap da década de 1980 a não ser uma pessoa que posta constantemente músicas desse grupo no Facebook?

Imagem da minha timeline. Quem compraria uma camiseta de um grupo de rap da década de 1980 a não ser uma pessoa que posta constantemente músicas desse grupo no Facebook?

O Google, fundada por Larry Page e Sergey Brin, então doutorandos na Universidade de Stanford, em 1998, também opera nessa mesma chave. Seus incontáveis usuários espalhados ao redor do mundo não pagam para utilizar os diversos serviços disponíveis pela empresa, sendo o portal de buscas na internet o mais famoso deles. Entretanto, ao realizar buscas, enviar e receber emails pelo Gmail ou publicar textos no Blogger ou vídeos no Youtube, o Google apossa-se da linguagem inserida em suas ferramentas para traçar um perfil de cada um dos seus usuários, cuja identificação se dá por meio de uma conta Google ou pelo próprio IP do computador utilizado. Uma vez reunida essas informações, o Google comercializa determinadas palavras-chave à empresas que publicam anúncios em espaços de destaque quando buscas feitas a partir desses termos são realizadas. Além disso, a empresa “organiza” os resultados das buscas e, consequentemente, os anúncios, de acordo com o que a empresa acredita ser mais relevante para seus usuários baseando-se no banco de dados produzido por eles mesmos. Mais uma vez, a roda do capitalismo cognitivo é posta em funcionamento: o usuário, que não paga, mas também não recebe, para usar o serviço mais popular da internet, realiza o trabalho de produzir grandes quantidades de informações sobre si mesmo. Uma vez reunido, esses dados são vendidos sob a forma de espaço publicitário extremamente eficaz e, consequentemente, revertidos em enormes quantidades de lucro para o Google e seus acionistas.

Talvez, a questão mais inquietante desse modelo de negócio do capitalismo cognitivo, conforme proposto pelo Facebook e pelo Google, seja a capacidade dessas empresas gerarem cifras astronômicas de lucro a partir da exploração da mão de obra de bilhões de sujeitos ao redor do mundo sem estabelecerem uma relação de trabalho formal ou remunerá-los por isso. Já pelo lado dos sujeitos, é de se espantar o poder de controle e dependência que tanto o Facebook como o Google criam em seus usuários a ponto desses confiarem e colocarem suas próprias liberdades individuais nas garras dessas plataformas sociais. Afinal, quantas decisões acerca das nossas próprias vidas não são realizadas a partir do que é exibido nas telas dos nossos computadores ou smartphones?

Nesse sentido, diante desse novo movimento do capitalismo, as tradicionais formas de resistência ao seu avanço, como a organização dos trabalhadores em sindicatos e a realização de greves gerais, já não surtem mais os mesmos efeitos. Numa sociedade na qual a presença física e o controle minucioso dos corpos em instituições fechadas para se maximizar a produção são cada vez menos importantes, uma vez que a produção é totalmente imaterial e pode ser feita à distância, inventar novas táticas que resistem à exploração sutil, mas extremamente perversa, das mentes humanas torna-se uma questão de máxima urgência.

Saiba mais

DELEUZE, Gilles. “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”. In: __________. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992, p. 223-230.

HARDT, Michael e NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001.

OLIVEIRA, Barbara Vieira de. Google e o capitalismo cognitivo: uma cartografia da subjetividade na internet. Dissertação de mestrado. Ano de obtenção: 2012. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG.

WIKIPEDIA. Verbete “Capitalismo cognitivo”. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Capitalismo_cognitivo

*****

gotoJoão Goto é torcedor do Santos, professor de História da Prefeitura de São Paulo e mestrando em Educação. Mantém o blog Professor João Goto  para seus alunos e pode ser contatado pelo email goto.joao@gmail.com Textos de autoria de João Goto. 

 

*****

Como sempre, comentários são bem vindos. Leitor, não esqueça de visitar o canal do XadrezVerbal no Youtube e se inscrever.

*****

Caso tenha gostado, que tal compartilhar o link ou seguir o blog?

Acompanhe o blog no Facebook e no Twitter e receba notificações de novos textos e posts, além de outra plataforma de interação, ou assine o blog com seu email, na barra à direita da página inicial. E veja esse importante aviso sobre as redes sociais.

Anúncios

8 Comentários

  • Muito bom texto, Goto! Queria ressaltar um outro aspecto desse novo capitalismo e particularmente dessas empresas de Internet: a relação trabalhista, também mais fluida, sem aquela estrutura de escritório 8 hrs/dia, 5 dias por semana; agora existe o home office, espaços de nas empresas onde os funcionários podem ficar brincando e jogando, mas por outro lado você deve estar on line, disponível, a qualquer momento.
    A distinção clara entre tempo de trabalho e tempo livre já não existe, são tempos intercambiáveis. E isso é transmitido ideologicamente como um ganho de autonomia, como um trabalhar se divertindo, o que está de acordo com essa nova fase do capitalismo, menos disciplinador e mais controlador, se podemos dizer assim.

    • Bem lembrado, Luis! O Google é, de longe, a empresa mais desejada para se trabalhar justamente por essa pseudoliberdade que dão aos funcionários. A questão agora é como brigar com esse novo monstro?

  • João, parabéns pelo texto claro e elucidativo.
    Agora entendo o porque que ao fazer qualquer pesquisa na internet os produtos vistos aparecem em qualquer página que eu abra.
    Uma dúvida em sua resposta ao Luis. Porque você considera o Google ou FB um monstro, o termo é pejorativo? Só quero entender, não estou defendendo ninguém, mesmo porque não recebo um centavo para isso kkk.
    Grande abraço

    • Olá, Paulo!
      Obrigado pela leitura!
      Durante os séculos XIX e XX, os trabalhadores lutaram muito para conquistarem os direitos trabalhistas que temos. Entretanto, naquela época, reivindicar jornadas menos longas, o fim do trabalho infantil e salários mais justos, entre outras coisas, era um pouco mais “fácil”, pois bastava parar o sistema produtivo (as fábricas e, consequentemente, o lucro dos empresários) para que as negociações a favor dos trabalhadores avançassem. Usei o termo “monstro” porque, atualmente, creio que não seja mais possível parar esse sistema. Todos nós estamos dentro dele de uma forma muito integrada e dependente. Não há como parar o Google ou o Facebook para conquistarmos mais privacidade em nossas navegações pela internet, por exemplo. Essas empresas tornaram-se tão dominantes que, na minha opinião, tornaram-se monstros ávidos por lucro a partir da exploração dos nossos trabalhos. Consegui responder-lhe?
      Um abraço!

  • João, creio que hoje o mundo está deixando de ser capitalista para se transformar em sistema gerencial baseado na intuição e não no conhecimento. Empresa e governos investem nas chamadas start-ups para buscar soluções inusitadas de problemas corriqueiros. Empresas de commodites sofrem muito com está realidade, pois competem em mercados concorrenciais, com baixa margem de lucros e com produtos de baixo valor agregado. O vale do silício na Califórnia já sofre com estas disparidades. Os jovens de calças jeans rasgadas ensinando os engravatados yuppies a trabalhar racionalmente com idéias transformadas em aplicativos. É uma era muito fecunda e muito caótica. Leia Zigmund Balmann.

  • Antes de tudo, pensar que somente “a familia, professores e médicos” podem influenciar em suas decisões me soa um tanto quanto conservador demais e até perigoso. Estamos em uma época onde cada vez mais as informações chegam de todos os lados e a todo momento e indivíduo é (ou deveria ser) responsável e capaz de filtrar e aproveitar o que vale a pena.

    Quanto ao assunto principal, ainda que essas empresas exibam anúncios baseados em suas pesquisas ou curtidas, fica a critério do usuário comprar ou não o produto (ou mesmo utilizar o site). Pra mim não há diferença entre um anúncio virtual direcionado e um outdoor ou propaganda de revista ou televisão, pois todos são meios de comunicação Cliente x Fornecedor.

    Como em qualquer empresa, sempre existe a necessidade de se obter lucro, ainda mais em empresas como Facebook ou Google que oferem serviços gratuitos a seus usuários. O fato é que se não fossem propagandas direcionadas, seriam propagandas aleatórias (o que acho menos interessante ainda). Seria uma tolice acreditar que os espaços hoje preenchidos com esse conteúdo estariam em branco. Sendo assim, prefiro ver uma propaganda de um produto que possa me ser útil a ver qualquer coisa desinteressante.

    Acredito que trata-se sim de um mecanismo “oportunista”, mas que também permite facilitar o comércio de muita gente. Pense assim, se você tivesse que vender um livro: você iria preferir oferecê-lo a um analfabeto, a um cego, ou diretamente a uma pessoa que gosta de ler livros?

    Apesar de não concordar com boa parte de seu texto, parabéns por expor seu ponto de vista (e postar o link no Facebook). Espero que mais pessoas o leiam quando encontrarem o texto no Google. =P

    DICA: existem diversas maneiras de evitar anúncios direcionados, como por exemplo a limpeza regular de cookies do seu navegador.

    Abraços.

  • Pingback: Resumo da Semana – 12/10 a 18/10 | Xadrez Verbal

  • Pingback: A geração Netflix: que filmes, que livros e que pessoas a internet está escondendo de você | Xadrez Verbal

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s