Resto e descuido – Ou porque ainda precisamos de Marina Silva (e ela de nós) – Parte 2

– por Tiago Costa Nepomuceno 

“Isso aqui é um depósito dos restos. Às vezes é só resto. E às vezes vem também descuido. Resto e descuido. Quem revelou o homem como único condicional ensinou ele a conservar as coisas. E conservar as coisas é proteger, lavar, limpar e usar mais, o quanto pode. Você tem sua camisa. Você está vestido, você está suado. Você não vai tirar sua camisa e jogar fora. Você não pode fazer isso. Quem revelou o homem como único condicional não ensinou a trair, não ensinou humilhar, não ensinou tirar. Ensinou ajudar. Miséria não, mas as regras, sim. Economizar as coisas é maravilhoso. Porque quem economiza tem. Então as pessoas têm que prestar atenção no que eles usam, no que eles têm. Porque ficar sem é muito ruim.”

Estamira, no documentário homônimo de Marcos Prado.

Caros leitores, hoje segue a segunda parte, conclusiva, do texto Resto e descuido, de Tiago Nepomuceno. A primeira parte foi publicada ontem e pode ser acessada aqui. Os textos podem ser lidos separadamente, embora obviamente relacionados.

Marina Silva

Um pouco de política, história e atualidades.

 2018 tá logo aí na esquina, mas em política quatro anos é tempo pra caramba. Acredito que será inevitável e rápida a consolidação da Rede como partido durante esse período, apesar de não ter noção alguma do que está acontecendo lá dentro depois do “racha” no segundo turno. Tão importante quanto isso é Marina Silva se reposicionar no cenário nacional. Se por um lado me parece que ela se estabeleceu de vez como um nome confiável entre o pequeno grupo de eleitores da direita moderada (direita republicana?), justamente por ter demonstrado disposição para não demonizar Aécio Neves e ainda oferecer algo à sua campanha (esqueçam aqui a direita radical, essa nunca confiará na ex-petista Marina), por outro lado e pelo mesmo motivo a ex-Ministra se queimou para sempre com uma parcela fanática de eleitores psolistas e principalmente petistas (muitos destes últimos já a tratam abertamente como uma nova arqui-inimiga a ser combatida a qualquer custo) que se antes contavam com argumentos muito frágeis contra ela (prova disso é o volume de vilanias arremessadas na ausência de fatos concretos), agora apostam que ganharam um novo arsenal pronto para ser usado na próxima campanha. Vão acusá-la (maldosamente, na minha opinião) de ter se alinhado a Marcos Feliciano, Bolsonaro, Malafaia, Telhada e outros da mesma estirpe na defesa de Aécio, como se na lista rebaixada de exigências entregue ao candidato antes do pacto ser selado não constassem compromissos que explicitavam o absoluto contraponto ideológico de Marina em relação a essas forças conservadoras e obscurantista da política brasileira, como por exemplo o repúdio à redução da maioridade penal e a exigência de respeito aos povos indígenas e quilombolas. Alguns dirão (e essa também é minha opinião, apesar de discordar da estratégia) que Marina, tal como Eduardo Jorge, procurou diante das possibilidades reais de vitória da oposição tentar dar uma guinada à esquerda no projeto de governo tucano enquanto ainda tinha (no caso dela) força política pra isso. Um movimento bem intencionado mas perigoso, como de fato se confirmou. Há os que a cobram por não ter sequer considerado o apoio à Dilma Roussef, como se fosse possível ela ter se movimentado nessa direção depois que o PT a acusou (justo Marina, também uma sobrevivente da fome) de ter planos para acabar com o Bolsa Família e outras brutalidades. Vale lembrar que em 2010, tendo sido bastante poupada durante a campanha por não oferecer o risco de ir ao segundo turno, Marina igualmente condicionou seu apoio a uma lista de compromissos básicos (que entre outros pontos fortalecia o cuidado com a questão socioambiental) e ofereceu esta a Serra e Dilma, uma vez que a conjuntura permitia uma variação maior de caminhos. Como sabemos os dois presidenciáveis recusaram a troca dos compromissos pelo apoio e a ex-ministra manteve-se neutra. Mesmo sendo impossível comparar o segundo turno de 2010 com o de 2014, esperar daqui pra frente equilíbrio por parte dos eleitores fanáticos psolistas e principalmente petistas é pedir muito de quem sempre teve quase nada a oferecer à Marina.

Fanáticos fora, o que resta me parece é uma ampla parcela mais moderada de psolistas e petistas que não só não apoiaram a ex-ministra nessas eleições como possivelmente até endossaram as críticas honestas e também as desonestas feitas a ela durante a corrida ao Planalto. Tais moderados possivelmente encerraram essas eleições “de mal” com Marina, mas quero crer (e esse é um dos meus objetivos nessa reflexão) que não lhes fecharam as portas completamente, provavelmente pela mesma razão pela qual não se entregaram de maneira integral à campanha do PT no segundo turno, comemorando ao final do pleito mais a derrota da aliança conservadora que se formou em torno de Aécio Neves do que propriamente os novos quatro anos de Dilma no poder. Vitória com um fio de amargura, portanto, o que fez com que muitos se justificassem defendendo a oposição crítica ao governo tão logo o PT fosse reeleito.

O que Marina fizer nos próximos quatro anos será decisivo para resgatar ou não a confiança dessa ampla parcela moderada e não-marineira que compõe parte importante do espectro da esquerda brasileira. Se quiser reconstruir as pontes rompidas e resgatar a confiança destes terá obrigatoriamente que rever algumas posições como a defesa de plebiscitos enquanto solução para questões polêmicas de direitos civis, o não apoio à revisão da lei de Anistia, o apoio à revisão da CLT, a moderação excessiva na relação com as forças religiosas fundamentalistas que assombram o país, a falta de nitidez e firmeza quanto às suas posições ambientais em particular no que diz respeito ao agronegócio, os rumos macroeconômicos e como estes se enquadram num projeto mais orgânico que contemple os dilemas socioambientais da nossa época. Claro que não ignoro o fato do seu programa de governo tentar dar conta de muitos desses pontos que levantei, mas acho que nesse momento de urgência a aposta neste documento é o caminho errado. É preciso esclarecer melhor, é preciso promover o debate público e permanente sobre essas posições (e aqui estou pensando principalmente na vertente econômica do seu projeto de governo), convocar seus “gurus” para a troca de ideias saudável com intelectuais de outras correntes mas que também se mostrem abertos para esse diálogo, é preciso reforçar a comunicação com o povo brasileiro, em especial os setores moderados, é preciso investir na politização e aceitar dúvidas e críticas construtivas que venham de fora do seu círculo de apoio. Sua posição atual junto a este grupo de moderados é muito mais vulnerável hoje do que em 2010, quando optou pela neutralidade. Se nada disso for feito, a única possibilidade que restará à Marina será biograficamente absurda: firmar-se em definitivo como uma liderança mais palatável às forças conservadoras da sociedade e assim dar às costas ao campo da esquerda que lhe serviu de base para a construção de toda sua vida pública. O fato é que Marina não tem muito para onde correr. Precisa dessa faixa moderada de eleitores para continuar politicamente viva, para um dia quem sabe ganhar ganhando. É sintomático, por exemplo, que Reinaldo Azevedo e Emir Sader tenham revelado tanto desprezo e até ódio por ela durante o primeiro turno da campanha; os fanáticos, à direita e à esquerda, querem sua cabeça e seu enterro político. Seria interessante questionar as razões disso, o que Marina Silva tem (ou não tem) que tanto incomoda essa gente. Resta-lhe por isso os moderados e os marineiros não-convictos, ainda que estes últimos, como eu, estejam mais reticentes do que antes. É esse acredito o raio de manobra ainda possível para Marina Silva e a estratégia que ela deveria focar daqui pra frente. Os próximos quatro anos devem ser tensos politicamente. De um lado Dilma e o PT vão buscar uma reaproximação com os movimentos sociais e a contemplação de pautas importantes da esquerda, pois do contrário estarão cavando a própria cova para 2018. De outro lado a oposição vai tentar marcar posições fortes para manter o considerável apoio que recebeu das urnas, contando ainda com a ajuda de um congresso que deve tornar a vida do governo bastante difícil. Nesse cenário inflamável que se desenha, acredito que a movimentação de Marina Silva será uma das coisas mais interessantes de se acompanhar. Ela não só terá que tomar uma posição (e aqui estou pensando em algo muito mais complexo do que escolher um lado no binarismo situação/oposição) como terá de fazê-lo de forma clara para não deixar margens para interpretações erradas, do contrário estará completamente fora do próximo jogo eleitoral. Ela precisa reconquistar a confiança da esquerda moderada, um caminho árduo mas não impossível.

No entanto, como acontece com toda relação rompida ou a caminho disso, esta também exigirá o espírito reconciliatório não apenas de um dos lados envolvidos, mas dos dois. Isso significa que não basta Marina Silva fazer a parte que lhe cabe neste latifúndio, sendo fiel à sua biografia e sinalizando com firmeza para as forças progressistas da sociedade. Estas mesmas forças também precisam se mostrar dispostas a uma trégua oferecendo à Marina uma escuta paciente e respeitosa antes de lhes dar as costas em definitivo. Se isso ainda significa alguma coisa, como fiador nesse negócio de risco resta à ex-ministra sua biografia espantosa, uma ficha limpíssima mesmo depois de décadas de vida pública e a coragem e honestidade de assumir posições nem sempre fáceis ou politicamente convenientes. O mesmo vale para as propostas da Rede. Não há ousadia maior do que falar em nova política num país tão carcomido pela velha quanto o nosso. O bom senso sugere que se um dia de fato vier a vingar, a nova política (seja lá o que ela for) não nascerá pronta e perfeita, mas será construída e reconstruída aos poucos, entre erros e acertos, estabelecendo-se lentamente como uma outra forma de organização e distribuição do poder tal como aconteceu com a democracia burguesa ao longo dos séculos. Esse é um projeto de longuíssimo prazo e o que estamos vivendo é apenas o início do início. Como de praxe, não há garantia alguma de sucesso nessa empreitada. Como toda utopia (e é na defesa de um horizonte utópico que Marina Silva e Luciana Genro se equiparam, ambas sonháticas no melhor sentido do termo) essa ainda está em gestação e não apenas no Brasil, como seguem demonstrando inúmeros movimentos mundo afora que não se cansam de denunciar o esgotamento do atual modelo político. Por outro lado é evidente que ninguém está mais interessado no aborto desse “novo” que as forças estabelecidas, as únicas que seguem tirando proveito da inércia das coisas. Exigir de Marina Silva e da Rede um grau de infalibilidade sobre-humano não altera em nada a angustiante realidade política que eles sistematicamente denunciam, ao contrário apenas desgasta ainda mais o esforço de se repensar essa mesma realidade, especialmente quando à crítica mordaz a estes segue-se o apoio a um candidato ou grupo político que na contramão disso zombam da urgência de se questionar a representatividade política contemporânea. É preciso escuta paciente e respeitosa, e também coerência. Só assim o espírito crítico terá algo a contribuir nessa longa gravidez em curso. Não se trata de se curvar à Marina e à Rede (só a História dirá se eles de fato estarão à altura dessa tarefa embrionária); trata-se de não se curvar ao que está posto como única realidade possível.

Finalmente, ainda pensando as contrapartidas que a esquerda moderada precisaria oferecer à Marina nesse movimento duplo de reaproximação que poderia ou não se materializar num futuro apoio político, que não se imagine que um dos lados (o da provável candidata) tem nesse movimento um interesse maior do que o outro. Claro que Marina precisa fazer o possível para reconstruir sua base de apoio e minimizar o aumento da sua taxa de rejeição entre a esquerda se ainda pretende disputar a presidência da república em 2018, no mínimo para não correr o risco de encerrar sua biografia política de forma melancólica. E neste sentido sem dúvida alguma o interesse dela parece ser mais explícito e imediato, bem como parte considerável do ônus desse esforço. Daí a acreditar que ela é a maior interessada nisso me parece uma perigosa ilusão de ótica. O outro lado dessa relação, as forças progressistas da sociedade brasileira, também anseiam por algum tipo de renovação na forma de se fazer política que não coloque a perder as conquistas já obtidas à duras penas e ainda fortalecendo as bases para o planejamento de voos mais altos. Talvez no fim das contas essa seja uma expectativa exagerada para o nosso atual estágio de maturidade política. Talvez, sendo ainda menos otimista, seja uma expectativa exagerada para todas as outras democracias representativas do planeta e por isso ainda estejamos vivendo essa fase embrionária de novas ideias que na prática se revelam incapazes de se materializar. De qualquer forma, se é verdade que não dependemos apenas de Marina Silva para darmos início a esse processo (felizmente!), é verdade também que dispensá-la como se ela nada mais tivesse a oferecer depois desse fracasso nas últimas eleições seria não apenas uma traição a esse esforço por renovação (já que ela mais que nenhuma outra figura nacional tem levantado essa bandeira com coragem e se expondo a todos os riscos dessa empreitada) como um erro estratégico imperdoável. Marina Silva ainda faz parte de uma certa estirpe política rara entre nós. Sua biografia continua sendo um roteiro exemplar. Com ela, poucos políticos veteranos se equiparam: Eduardo Jorge, Luiza Erundina, Ivan Valente, Cristovão Buarque, Eduardo Suplicy… Algo me diz que não podemos abrir mão tão facilmente deles todos. Um traço da nossa época é a escassez generalizada de quadros políticos decentes à esquerda e à direita, homens e mulheres à altura das suas responsabilidades públicas e dispostos a encarar o futuro de frente (futuro este que se revela cada vez mais imprevisível, não esqueçamos). O que temos de sobra por aí são restos, um depósito de restos políticos. Às vezes, muitas vezes eu diria, a sensação é que é só isso o que temos, restos. Mas outras vezes temos também descuido, que foi parar ali no meio do restos e por um motivo ou outro parece se confundir com estes. Resto e descuido. É preciso saber diferenciar o que é um e o que é outro. Em época de escassez é essencial economizar o pouco que se tem, “porque ficar sem é muito ruim”. O momento exige cautela e disposição para o diálogo.

Ao blogueiro anfitrião, um lembrete final de Manoel de Barros: “No osso da fala dos loucos tem lírios”.

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Tiago Costa Nepomuceno é membro fundador da AET (Associação de Esquerdistas-Tofu). É vegetariano, gateiro e gosta de abraçar árvores, bicicletar, subir montanhas e piqueniques. Considera sua primeira e mais importante identidade a condição de terráqueo e sonha com o dia em que a Carta da Terra será assumida como a nova declaração de direitos da ONU. Textos de Tiago Nepomuceno.

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3 Comentários

  • Eduardo Terra Coelho

    Marina foi uma promessa maior em 2010 do que em 2014, onde muitos dos vícios da velha política passaram por suas mãos.

    Em 2010 ficou no direito de não apoiar nenhuma das candidaturas e em 2014 deixou com maior clareza seus objetivos, ainda que pleno de lacunas e equívocos e optou por não manter-se neutra. Se ficasse em silêncio como há quatro anos teria ganho mais que apoiar Dilma ou Aécio iria sim fazer ruir todo um discurso de mudança construída por ela como a terceira via eleitoral.

    A Rede surgirá menor do que poderia ser e já carregada de vícios da velha política a qual Marina pretendia combater. Ainda assim será procurada pela oposição e pela situação para conversas e disto é que resultará um futuro promissor ou não para seu novo partido.

    Quanto ao PSOL, que chegou a rodear Marina Silva em 2009, ela nem aceitou o convite e a maioria dos partidários esperavam não fosse sério tal convite.

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