Resto e descuido – Ou porque ainda precisamos de Marina Silva (e ela de nós) – Parte 1

– por Tiago Costa Nepomuceno 

“Isso aqui é um depósito dos restos. Às vezes é só resto. E às vezes vem também descuido. Resto e descuido. Quem revelou o homem como único condicional ensinou ele a conservar as coisas. E conservar as coisas é proteger, lavar, limpar e usar mais, o quanto pode. Você tem sua camisa. Você está vestido, você está suado. Você não vai tirar sua camisa e jogar fora. Você não pode fazer isso. Quem revelou o homem como único condicional não ensinou a trair, não ensinou humilhar, não ensinou tirar. Ensinou ajudar. Miséria não, mas as regras, sim. Economizar as coisas é maravilhoso. Porque quem economiza tem. Então as pessoas têm que prestar atenção no que eles usam, no que eles têm. Porque ficar sem é muito ruim.”

Estamira, no documentário homônimo de Marcos Prado.

Quando o blogueiro anfitrião gentilmente me convidou a escrever a respeito do futuro de Marina Silva no cenário político nacional, me perguntei se teria de fato algo a contribuir com esse debate. Na opinião dele parece que a condição de “marineiro” me qualificaria a levar adiante essa tarefa com razoável sucesso. Acontece que não sou marineiro, ao menos não no sentido estrito do termo, do contrário teria me alinhado à candidata ao longo de toda a campanha, apostado desde o princípio e sem titubeios as minhas parcas fichas nela e, principalmente, propagandeado essa posição política como sempre fiz em todas as disputas eleitorais. Só que dessa vez não foi assim. Fui me decidir por Marina Silva no minuto final do segundo tempo da prorrogação, menos de 24 horas antes das urnas serem ligadas e (devo confessar) muito mais assustado com as pesquisas que sugeriam a disparada de Aécio Neves do que convicto de que ela, Marina, ainda tinha mesmo algo novo a oferecer que valesse os riscos que acompanhavam o pacotão “chapa 40”. Se a maneira com que nos expomos nas redes sociais significa alguma coisa pra nossa época, vale destacar que o avatar oficial da campanha com o perfil da candidata estilizado em verde e amarelo só foi alçado ao status de “foto do perfil” no meu Facebook na véspera do pleito. Levando isso em conta e considerando também que apesar da minha formação em Humanas não me sinto apto a tirar coelhos fofinhos da cartola dos diagnósticos inéditos, em especial depois de tantas reflexões interessantes que circularam pela rede nos últimos meses, me vi afinal diante de um dilema: falar o quê de Marina Silva? Ou, para ser fiel ao estilo do blogueiro anfitrião, como reduzir para níveis de segurança aceitáveis as chances de “groselhar” no teclado?

CAMPOS E MARINA EM EVENTO NA CAPITAL PAULISTA

A saída mais fácil nessas horas é sempre apelar pra subjetividade. Se me faltam as tais qualificações mencionadas resta ainda a possibilidade de oferecer algo mais pessoal, privado e a partir dessa quase confissão ousar (o verbo é esse) especular questões que me extrapolem, levar meus demônios pra brincar com os outros que estão à solta no parquinho das utopias políticas desde antes das eleições. Aviso então que pretendo inverter o espírito do blog: autoterapia e um pouco de política, história e atualidades. É o que tem pra hoje. Se o mimimi parecer exagerado, reclamem com o Filipe. O máximo que posso fazer é adiantar que a parte autoterapêutica é longa.

Autoterapia

Pois bem. Em algum momento do primeiro turno, durante uma entrevista dada ao programa Fluxo do Bruno Torturra, o cartunista Laerte, que se tornou nos últimos anos um notório ativista LGBT, foi instigado a comentar aquilo que acabaria por se tornar o principal tiro no pé de Marina Silva, o suposto recuo no recém apresentado programa de governo devido a pressão de Silas Malafaia (“suposto” porque confio no caráter de um conhecido, membro atuante da Rede e assessor muito próximo de Marina, que desmentiu publicamente essa versão; sim, ainda confio em algumas pessoas). Aquela altura dos acontecimentos Laerte, que é um prolífico usuário das redes sociais e um influenciador de opiniões, já estava há algum tempo levantando objeções à Marina Silva não apenas por conta das questões LGBT mas também devido a outros aspectos do programa de governo, como a orientação macro-econômica. Se não me engano já tinha inclusive declarado apoio à Luciana Genro, posição essa que sustentou até o final do primeiro turno. Mas comentando esse episódio do “recuo”, e relativizando a importância de qual afinal seria a versão verdadeira por trás desse mal estar com o pastor fundamentalista, Laerte disse: “A Marina quer brincar com a gente. Ela não quer seguir a cartilhinha da Assembléia [de Deus], entendeu? Ela quer vir pro pátio brincar com as bichas e as sapatas e as travecas. Ela joga bem com esse povo, ela não tem problemas. A história dela prova isso. Agora, ela tem essa coisa da posição ditada por uma conveniência. Quantas Marinas existem? O que sobrou de uma Marina que uns anos atrás tava mais próxima da luta nos seringais do que do Senado? Que Marina cresceu dentro do trabalho no Senado? Eu não sei, eu tô pensando também no artigo da Eliane Brum que trouxe tantas reflexões novas…”.

O artigo em questão, Os Silva são diferentes, bombou nas redes sociais e foi no meu entendimento uma das pistas mais importantes para os incomodados que naquele momento da disputa seguiam incertos em relação a apoiar ou não a ex-ministra. O texto (se você, como eu, considera Eliane Brum uma das inteligências mais sensíveis e sofisticadas do país na atualidade) ajudava a problematizar as virtudes e fragilidades de Marina Silva, lançando luz num turbilhão de sentimentos e pensamentos confusos que desde a queda do avião de Eduardo Campos causavam numa certa faixa do eleitorado uma inédita vertigem política, uma sensação de que não restava nada mais sólido para se apoiar.

Aqui preciso fazer um esclarecimento antes de prosseguir. Neste texto convido à reflexão os progressistas de maneira geral, ainda que em particular os progressistas de esquerda (sim, eu sou daqueles que acham possível sustentar ao mesmo tempo posições conservadoras e progressistas, por exemplo ser economicamente conservador mas progressista no que diz respeito a direitos civis). No entanto, obviamente só posso falar a partir do lugar em que eu mesmo ocupo no vasto espectro ideológico da esquerda. Isso deve causar um inevitável ruído de comunicação com parte dos interlocutores que ocupam outros espaços e que eventualmente não vivenciaram essa tal vertigem política que mencionei justamente porque desde o princípio, e em muitos casos mesmo antes do jogo eleitoral começar, já tinham definidos seus candidatos ideais e até estavam em pré-campanha por eles. A ascensão de Marina Silva da condição de vice para candidata à presidência com chances reais de vitória não afetou em nada as posições de uma parcela expressiva da esquerda que muito antes já tinha fechado com Dilma, Eduardo Jorge, Luciana Genro ou outros candidatos menos visíveis. Tampouco, e pelo mesmo motivo, afetou os marineiros puro-sangue, aqueles que de uma forma ou de outra já apoiavam a chapa com Eduardo Campos desde 2013. Foi uma parcela bastante específica da esquerda, os eleitores que basicamente não acreditam (o que nem sempre significa dizer que não concordem) na viabilidade e/ou competitividade do projeto político do PV (partido ideologicamente controverso mas que por conta de Eduardo Jorge assumo, nestas eleições, que estavam pautando o debate à esquerda) e principalmente do PSOL (apesar de muitas vezes votarem neste para o legislativo) e que estavam cansados das concessões e trupicadas do PT nestes 12 anos no poder (sem jamais negar os avanços históricos da última década) e angustiados com o retrocesso nas políticas ambientais e com o esgotamento do modus operandi da política brasileira, os que se viram, da noite pro dia, diante da possibilidade de oferecer ou não apoio real à Marina. A tragédia em Santos reverberou mais nesta parcela da esquerda que em qualquer outra. Uma parcela que provavelmente apoiou Marina no primeiro e segundo turno em 2010, que assinou e torceu pela Rede nos anos seguintes, que lamentou e vociferou contra a impugnação do registro do novo partido, que aguardou com ansiedade os passos seguintes de Marina, que recebeu com desconfiança e desgosto a notícia da aliança com Eduardo Campos e que começou a conviver com a crescente incerteza (que mais tarde se transformaria em vertigem) de se ver representativamente órfã durante a disputa presidencial que se aproximava. Para muitos, como eu, órfãos pela primeira vez.

Um longo esclarecimento, mas acredito que agora as posições estão mais claras. Falo como alguém que desde antes do acidente nutria sérias dúvidas sobre quem apoiar, um “marineiro não-convicto mas ansioso por convicção”, e considero como interlocutor principal um público progressista (logo não fanático) mais amplo e fundamentalmente de esquerda que, de maneira geral, em nenhum momento nestas eleições considerou seriamente o apoio à Marina e agora, pior ainda, não está muito preocupado com a possibilidade da sua morte política se confirmar nos próximos anos (ainda que não necessariamente estejam torcendo por isso, diferente dos fanáticos à esquerda e à direita). Espero contribuir no possível para a relativização dessa posição, quem sabe até (tenho menos ilusões quanto a isso, mas vá lá) revertê-la ou no mínimo incomodar tentando. Volto então ao texto de Eliane Brum que mexeu com Laerte.

Mexeu com Laerte (mesmo não tendo alterado o voto do cartunista) tanto quanto mexeu com muita gente. Mexeu comigo, por exemplo, que desde o anúncio de Beto Albuquerque como vice na chapa (sonhava com Erundina, óbvio) tinha esfriado muito meu súbito entusiasmo por essas eleições. Num certo ponto do artigo, depois de problematizar o quanto a origem humilde e o percurso biográfico dos Silva, Lula e Marina, refletiam-se na trajetória política e projeto de futuro que cada um sugeria à sociedade brasileira, Eliane Brum traçou o que considero o diagnóstico mais importante a respeito da ex-Ministra e do que ela aparentemente tem a oferecer neste momento ao país: “A ‘indefinição’, outra palavra usada para atacá-la, parece ter sido até agora a opção de parte dos eleitores, para os quais a ‘definição’ de outros candidatos é sentida como insuportável. Tudo indica que, de várias maneiras, este é um momento em que, para muitos, os pontos de interrogação soam como possibilidades – e o risco parece ter se tornado uma alternativa melhor do que certezas que preferem rejeitar.” Era isso, afinal, a razão da minha vertigem nauseante não compreendida.

Por um lado eu buscava certezas, as mesmas que encontrei (ou projetei) em Marina na campanha de 2010, mas ficava cada vez mais claro (por uma série de fatores) que eu não as teria dessa vez porque a configuração política era necessariamente outra. Havia uma aliança desenhada por Eduardo Campos e firmada em compromissos prévios que não poderia ser ignorada; havia o elemento surpresa de ter que assumir do dia pra noite a frente de uma campanha em que ela própria, Marina, tinha se preparado para ser oficialmente vice e que por conta do acidente teria que carregar nas costas o peso de lidar sozinha com contradições que antes poderiam ser divididas ou atribuídas ao falecido; e havia o desafio de conciliar esses dois condicionantes nem sempre harmônicos, ser fiel ao PSB que lhe deu guarida sem deixar de ser fiel a si mesma (um exemplo claro desse desafio foi a celeuma em torno do apoio ao palanque paulista de Geraldo Alckmin, algo que Eduardo Campos teria feito com tranquilidade e sem que Marina precisasse se expor; dizem até que foi isso o que salvou a vida dela já que preferiu não embarcar para Santos justamente porque tinha restrições ao posicionamento do partido em São Paulo). Como, num cenário desses, cobrar da candidata certezas?

Por outro lado o percurso cheio de descaminhos desde o ingresso no PSB até a correção das propostas de governo já com a bola rolando, somado ao discurso difuso e falta de assertividade em algumas posições tornava Marina um enorme ponto de interrogação. Só que isso (como Eliane Brum alertou) não apenas não anulava sua biografia e ficha-limpa como ainda lhe conferia destaque em relação a Dilma e Aécio, ambos incapazes de admitir falhas graves, políticas e/ou morais, nas suas trajetórias pessoais e/ou nas de seus partidos, como se houvesse neste país qualquer chance de governar por oito ou doze anos nesse nosso presidencialismo de coalizão controlado por partidos corruptos sem que erros ou mesmo crimes fossem cometidos em nome da governabilidade. A honestidade de Marina diante de certos posicionamentos (como a ratificação das suas posições pessoais em relação a temas considerados polêmicos) deveria ter sido mais uma prova de que a candidata não estava ali pra brincadeiras, que bem diferente dos seus adversários não estava disposta a adaptar seu discurso ao gosto de parte do eleitorado (parte esta que queria justamente ouvir o oposto, como eu) e que preferia seguir diferenciando convicções pessoais da responsabilidade como mandatária máxima da nação. Poderia ter feito como Dilma e Serra fizeram em 2010 em relação ao tema do aborto, mas preferiu a honestidade ainda que esta ao final só alimentasse as polêmicas em torno de sua candidatura. Queria ganhar ganhando, como repetia com frequência, e nisto sempre esteve uma de suas grandezas.

Essa dicotomia de certezas e dúvidas que me tirava o sono eu também notava em alguns amigos e conhecidos. Parecia que nós, “marineiros não-convictos”, estávamos unidos por uma sensação inédita de não-pertencimento político cuja única saída, dadas as circunstâncias do momento, seria a anulação do voto. O quanto estávamos sendo manipulados pelos fluidos desconstrutores que emanavam do comitê de marketing petista e dos porões da blogosfera governista ou apenas resistindo lucidamente às possíveis contradições de Marina não era tão fácil assim de discernir. Claro que a sordidez pura e simples era identificada de longe. A sugestão de uma Marina maquiavélica ainda debruçada sobre o caixão de Eduardo Campos, as acusações que tentavam vinculá-la ao jatinho não declarado pelo PSB, a “fortuna” obtida com palestras “suspeitas” para clientes que exigiram sigilo, a suposta ofensa à memória de Chico Mendes ao chamá-lo de elite, a mentira de que teria defendido Marcos Feliciano e de que seria submissa a Silas Malafaia, o falso alerta de que uma vez eleita cancelaria o Bolsa-Família, a presença de uma “banqueira” no seu círculo de confianças e mais uma lista de barbaridades que foram despejadas em Marina não me atingiram. Jamais teria chegado até ali na luta interior para apoiá-la se houvesse a menor possibilidade de dar crédito a qualquer uma dessas vilanias. Mas outras questões incomodavam sim, e muito. Por exemplo a teimosia em defender a solução plebiscitária para decidir sobre direitos civis que já deveriam estar garantidos por uma questão civilizatória, a incapacidade de demonstrar firmeza e levantar o tom de voz contra os fundamentalistas religiosos que tentavam fazer àgua da sua candidatura, o recuo sobre a revisão da lei de Anistia, a aparente mudança de posição em relação aos transgênicos e a falta de insistência na urgência das questões ambientais, a polêmica em torno da CLT, a orientação incerta do seu programa econômico e a falta de posições mais claras sobre o papel do BC (como leigo que sou em economês, não tinha como avaliar esses últimos pontos a não ser me apoiando em opiniões de especialistas de diferentes matizes para tentar encontrar um mínimo denominador comum). Tudo isso pesava e sem que houvesse nesses casos dedo algum de marqueteiro por trás. Eram claramente pontos mal resolvidos da campanha de Marina e eu, incapaz de abrir mão do meu desejo de certezas, não digeria bem esse fato.

Num certo momento, esgotado, confesso que me vi não muito preocupado com o que estava fazendo e simplesmente desisti de entender o que se passava entre eu e Marina (sim, somos íntimos, apesar dela não saber disso). Cansei de tudo. Já estávamos a essa altura rumo à reta final e as pesquisas começavam a sinalizar uma provável virada de Dilma no segundo turno. Enquanto isso Aécio crescia pelas bordas, comendo quieto como bom mineiro que é, acenando de um barco remendado para os eleitores conservadores que desde a queda do avião se agarravam por conveniência e anti-petismo à boia salva-vidas de Marina. Já estava em curso um processo que se retroalimentava: quanto mais baixa as intenções de voto na ex-ministra, mais eleitores a abandonavam, até o número se estabilizar nos seus 20 e poucos por cento, mesma margem obtida em 2010. As urnas mostraram que ao lado de Marina ficaram os marineiros, óbvio. Os convictos de longa data e, acredito, também a maior parte dos não-convictos. Estes últimos, como eu e diversas pessoas que conheço, foram às urnas sem entusiasmo algum. O cansaço da campanha, a recuperação relâmpago de Aécio Neves, a tristeza com a estratégia petista de desconstrução e a dicotomia em torno de Marina Silva pesavam demais para qualquer alegria cívica dar o ar da graça. Alguns, não tenho dúvida, decidiram pela chapa 40 no minuto final. Na véspera do primeiro turno, por exemplo, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, crítico feroz da cegueira ambiental e indígena que estão na base do crescimentismo do governo Dilma Roussef tuitou: “Estou perplexo com a quantidade de carrões na rua. Carrões novinhos, comprados, portanto, durante o governo do PT. Todos com plástico de propaganda do PSDB. Isso acabou de me decidir. Voto Marina Silva. Quem sabe diminuirá o número de carrões queimando diesel e arrotando espaço.” Um voto mais melancólico que esperançoso, percebe-se. O que não sabíamos era que ainda teríamos de nos virar com a ressaca do segundo turno, o anúncio de um novo congresso ainda mais conservador e a consolidação amarga do apoio de Marina a Aécio com direito a subida no palanque e participação no horário político do candidato. Incapazes de nos alinharmos aos signatários do tal “manifesto da esquerda democrática” pró-Aécio, nos encontramos ao final do processo eleitoral politicamente órfãos, alguns até com nostalgia daquele dia feliz em que o Brasil perdeu de apenas 7×1 pra Alemanha.

Hoje reconheço que faltei com Marina (o que não significa dizer que ela também não tenha faltado com seus eleitores, como pretendo desenvolver melhor adiante). A identificação desse dilema que Eliane Brum tornou cristalino, certeza vs. incerteza, exclamação vs. interrogação, arrogância vs. dúvida, não me garantiu afinal a motivação necessária para que eu definitivamente optasse pelas incógnitas que cercavam Marina e me lançasse em sua defesa contra, essas sim bem nítidas, certezas falastronas de Dilma e Aécio. Como reforçou Brum em O longo dia seguinte (http://goo.gl/643UWn), um artigo impressionante publicado após a reeleição da presidenta: “Marina cometeu vários erros nessa campanha, alguns deles primários. Mas há um deles, que para muitos soa como erro, mas que não me parece que seja. Seu discurso era menos afirmativo do que os eleitores estão acostumados. Ela propunha a construção de soluções, mais do que propostas acabadas (ainda que tenha sido a única entre os três candidatos com chances no primeiro turno a apresentar um programa de governo). Propunha escuta. Seu discurso foi classificado como ‘difuso’ e ‘vago’. Às vezes, ser difuso e ser vago são as únicas verdades possíveis em determinado momento histórico, como mostraram as manifestações de junho de 2013. Mas logo essas características, também nela decodificadas como defeitos, foram transformadas em ‘fraqueza’. E, na sequência, em identidade. Assim, a mulher que nasceu num seringal do Acre, trabalhou desde criança em condições brutais, passou fome, alfabetizou-se aos 16 anos, foi empregada doméstica, sobreviveu a três hepatites, cinco malárias e uma leishmaniose, além de sofrer contaminação por mercúrio, e ainda assim tornou-se professora com pós-graduação, senadora, ministra, uma das maiores lideranças ambientais do planeta e por fim uma candidata à presidência com chances de vencer, foi considerada ‘fraca’. (…) As afirmações peremptórias, com pontos de exclamação, assim como as certezas, são mercadorias valorizadas. Em geral ordinárias, mas valorizadas mesmo assim. Num momento em que a falta de controle parece se expressar em toda a sua assustadora grandiosidade, como na escassez de água em São Paulo, assim como na corrosão das condições de vida pela degradação ambiental, talvez as certezas, mesmo que falsas e irresponsáveis, tornem-se ainda mais valorizadas.”

Só quando os números do primeiro turno começaram a revelar o alcance da recuperação de Aécio Neves e a diminuição de Marina Silva ao patamar de 2010 é que compreendi o que de fato o Brasil tinha aberto mão naquele pleito. Não teríamos mais um segundo turno histórico, o mais progressista da história do país: duas mulheres de esquerda, duas sobreviventes das forças conservadoras que controlam esse território desde Cabral, duas líderes que se recusam a aceitar como dadas as nossas mazelas sociais, com tempo igual de televisão e com a chance (uma vez que a ficha limpa de Marina tornava-a blindada contra acusações de corrupção) de debaterem projetos distintos para o Brasil. Foi isso o que nós perdemos no fim das contas, e por razões que não pretendo me aprofundar aqui. Mas entre estas razões (talvez a menos influente é verdade, mas preciso fazer essa mea culpa de qualquer maneira) o fato de “marineiros não-convictos” como eu não reconhecerem as incertezas da campanha de Marina como externalidades aceitáveis naquele contexto complicadíssimo que foram as eleições deste ano. Pronto, tirei um peso das costas…

Se algum leitor corajoso ainda me acompanha até aqui, informo que a parte de autoterapia explícita está encerrada. Agradeço o ombro amigo, foi bastante providencial. Resta agora tentar costurar alguma reflexão entre o que eu e (acredito) demais marineiros não-convictos vivenciamos durante a via sacra que foram essas eleições e o posicionamento que o restante dos eleitores moderados (porque flexíveis ou não tão convictos) de Luciana Genro, Eduardo Jorge e Dilma Roussef terão a oferecer à Marina Silva daqui por diante.

– A segunda metade desse artigo foi publicada aqui

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Tiago Costa Nepomuceno é membro fundador da AET (Associação de Esquerdistas-Tofu). É vegetariano, gateiro e gosta de abraçar árvores, bicicletar, subir montanhas e piqueniques. Considera sua primeira e mais importante identidade a condição de terráqueo e sonha com o dia em que a Carta da Terra será assumida como a nova declaração de direitos da ONU. Textos de Tiago Nepomuceno.

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