Eleições 2014 – Geografia do voto: Nordeste e Bolsa-Família

Caros leitores, hoje damos sequência aos textos sobre a última eleição presidencial, que tem ocupado bastante espaço aqui no Xadrez Verbal, como não poderia deixar de ser. Caso o leitor queira, pode acessar todos os textos com a tag Eleições. Hoje vamos falar da geografia do voto, especialmente duas ideias presentes na mídia e na discussão popular: que Dilma se sustenta no voto da população da região Nordeste e no voto dos beneficiados pelo Bolsa-Família. Esses temas já foram abordados aqui nos textos da série sobre o senso-comum e a política brasileira, mas vamos discuti-los à luz da eleição mais recente.

dilmacio

Os dois candidatos no segundo-turno, Aécio Neves (PSDB) e Dilma Roussef (PT)

Em primeiro lugar, é preciso constatar que em muitas vezes que tal tipo de comentário é feito, ele é feito com preconceito. Preconceito ao cidadão brasileiro nascido na região Nordeste, visto como retirante, migrante, cujo voto é de cabresto, realidade histórica brasileira que, progressivamente, está mudando. Isso é uma discussão longa, que não cabe aqui, mas a constatação precisa ser feita. Segundo, e daí? O eleitor do Nordeste não pode estar satisfeito com o governo federal? Por exemplo, no ano de 2013, o Produto Interno Bruto per capita da região Nordeste cresceu 3,12%; comparativamente, o PIB per capita da região Sudeste cresceu 1,81%.

Das dezoito universidades federais criadas nas três gestões do Partido dos Trabalhadores, sete foram na região, em que cerca de dezesseis mil estudantes participaram do programa Ciência sem Fronteiras. Uma das maiores conquistas do Brasil nos últimos anos foi a diminuição da mortalidade infantil: de 2000 para 2012, caiu 47,5% no país; no Nordeste, a queda foi de 58,6%. Muitas dessas reformas não se tratam de mera “preferência”, em que um é privilegiado em detrimento do outro. São demandas históricas, fruto de um déficit histórico. Novamente, o exemplo da mortalidade infantil é cristalino.

Em 2000, a mortalidade infantil no Sudeste era de 21,3 em mil casos, no Nordeste era de 44,7 em mil. Hoje, no Sudeste, esse número caiu para 13,1 e, no Nordeste, para 18,5 em mil, pouco menos do patamar no Sudeste em 2000. Ambas as regiões melhoraram, mas a que estava mais deficitária em um índice essencial foi priorizada. Prioridade essa que basicamente apenas permitiu recuperar o atraso, igualando ela à região mais desenvolvida do país. Finalmente, “região Nordeste” não é sinônimo de pobreza, como alguns parecem pensar. Dos dez estados mais ricos do Brasil, dois são da região. De qualquer forma, o pensamento de que o voto nordestino e do Bolsa-Família que sustenta Dilma é muitas vezes expresso em um mapa como este.

Mapa: G1.com

Mapa: G1.com

O vermelho indica os estados em que Dilma Rosseff venceu; o azul, aqueles em que o vitorioso foi Aécio Neves, e os amarelos, os que Marina foi a vencedora. A intensidade da cor representa a intensidade da diferença eleitoral. A ideia é clara: os estados em que Dilma venceu são, em sua maioria, do Norte e Nordeste, com Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul como “exceções moderadas”. Em compensação, Aécio venceu nos estados mais desenvolvidos, enquanto Marina venceu no seu Acre natal e em Pernambuco, terra de Eduardo Campos. Analisar as eleições por cada estado possui muito valor, embora não seja essencial como, por exemplo, nos Estados Unidos, onde o voto é indireto, por estado. O ponto é que esse mapa sozinho não é absoluto. Olhemos este:

mapadensidade

O mapa acima é o da densidade demográfica brasileira, elaborado com os dados do Censo de 2010. Quanto mais pontinhos, mais populosa é a área. Dada a história da ocupação do território que hoje compreende o Brasil, o eixo populacional brasileiro pode ser traçado em uma linha que vai de Natal, capital do Rio Grande do Norte, até Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. A colonização pelo litoral e a continuidade seguindo os cursos dos rios explicam a concentração populacional nessa região.

A expansão da fronteira agrícola e a construção de Brasília começaram a povoar a região do Centro-Oeste, mas apenas na década de 1950. São séculos de diferença da presença, por exemplo, em São Paulo e Rio de Janeiro. Com algumas exceções, como São Luís do Maranhão e Manaus, duas cidades do século XVII, a população brasileira vive, em sua maioria, no eixo citado. Das cinquenta maiores cidades brasileiras, apenas onze estão fora dessa linha imaginária. O que isso quer dizer?

Que um mapa baseado na porcentagem relativa das votações não necessariamente traduz o eleitorado brasileiro. O estado em que Dilma teve a maior porcentagem de votos foi o Piauí, com 70,61% dos votos. Em números absolutos, são 1.235.203 votos. O estado, (desconsiderando o Distrito Federal), em que Dilma recebeu menor porcentagem de votos foi São Paulo, com 25,82% dos votos válidos, que representam 5.927.503 de votos. Em números absolutos, Dilma recebeu 4.7 vezes mais votos em São Paulo do que no Piauí. Teríamos que somar os três estados em que Dilma foi a mais votada, Piauí, Maranhão e Ceará, para superar o número de votos que ela recebeu em São Paulo, sua maior derrota.

De fato, se isolarmos as regiões Sul e Sudeste, teríamos a inversão da atual situação eleitoral. Uma inversão quase exata. No Brasil todo, temos Dilma com 41,59% dos votos e Aécio com 33,55%. Isolando o Sul e o Sudeste, teríamos Dilma com 35,27% dos votos válidos, enquanto Aécio teria 43,7%. Em ambos os casos, disputa de segundo turno com diferença próxima de oito pontos percentuais. Voltando aos números absolutos, entretanto, um terço dos votos de Dilma, 14.380.971 de votos, é apenas na região Sudeste. É praticamente impossível vencer uma eleição nacional contando exclusivamente com o voto “dos grotões”, termo que um famoso colunista usou para explicar a votação de Dilma.

A explicação estaria então no Bolsa-Família? Novamente, é preciso deixar uma coisa clara antes de tudo: assumir que uma pessoa votará em Dilma Roussef única e exclusivamente por conta do Bolsa-Família é, pra dizer o mínimo, uma generalização. Especialmente considerando o destaque que Aécio deu ao programa em suas aparições televisivas. Proporcionalmente, os estados com mais famílias atendidas pelo programa são, na ordem, Maranhão, Piauí e Alagoas. Nos três estados, Dilma foi a vencedora, somando 4.126.545 votos. Novamente, menos votos que ela recebeu em São Paulo. E o que São Paulo teria a ver com o Bolsa-Família?

Os estados acima são os que, proporcionalmente, possuem mais famílias no programa; os estados com mais famílias em números absolutos são Bahia, com 1.8 milhão de famílias beneficiadas; São Paulo, com 1.2 milhão e Pernambuco, com 1.1 milhão de famílias cadastradas. Ou seja, dos três estados com maior população atendida pelo Bolsa-Família, Dilma venceu em apenas um. Essa é uma realidade que boa parte das pessoas não considera: a distribuição populacional brasileira faz com que estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro tenham, na média, um milhão de famílias, cada, no programa. O Rio Grande do Sul fica perto do meio milhão.

*****

Edição feita 08/10, 18 horas

O leitor Guilherme Bricks apontou que os dados poderiam estar parciais. Para o texto ficar mais transparente, cabe um complemento dos dados sobre o Bolsa-Família nessas eleições.

Os três estados com maior proporção de famílias atendidas pelo Bolsa-Família são, como citados, Maranhão, Piauí e Alagoas. Proporcionalmente, na ordem, 63,5%, 61,08% e 60%. Em números absolutos, na ordem, arredondando, 955 mil famílias, 449 mil famílias e 438 mil famílias. Nos três estados, Dilma foi a vencedora, somando 4.126.545 votos.

Os três estados com maior número de famílias no programa são, como citados, Bahia, com 1.8 milhão de famílias beneficiadas; São Paulo, com 1.2 milhão e Pernambuco, com 1.1 milhão de famílias cadastradas. Proporcionalmente, na ordem, 53,16%, 14,19% e 53,3%. Dilma foi a vencedora apenas na Bahia; Aécio venceu em São Paulo e Marina em Pernambuco. No total dos estados, Dilma teve 12.346.319 de votos.

O voto medido apenas pelo Bolsa-Família pode ser tema de um texto próprio, como já foi. O texto atual é de uma análise geográfica e histórica do voto, desmistificando a ideia de que Dilma foi eleita com o voto dos estados menos desenvolvidos, visto que isso é impossível, pois menos populosos. Para isso, entretanto, quanto mais dados, melhor, e fica meu agradecimento ao leitor pela observação

*****

A densidade populacional brasileira, concentrada em um eixo histórico de ocupação do território, faz com que, por exemplo, a maior derrota de Dilma, em São Paulo, valha três vezes mais votos que a vitória de Aécio em Santa Catarina; único estado em que o tucano teve maioria absoluta dos votos. Por isso, considerando todos os aspectos, é impossível não repetir uma conclusão já feita aqui: Dilma Roussef não foi eleita para o segundo turno pelo Bolsa-Família ou pelos nordestinos. Melhor dizendo, foi eleita também por eles. Eleições nacionais de voto direto requerem mais que um mapa de proporções estaduais para serem analisadas.

*****

Como sempre, comentários são bem vindos. Leitor, não esqueça de visitar o canal do XadrezVerbal no Youtube e se inscrever.

*****

Caso tenha gostado, que tal compartilhar o link ou seguir o blog?

Acompanhe o blog no Facebook e no Twitter e receba notificações de novos textos e posts, além de outra plataforma de interação, ou assine o blog com seu email, na barra à direita da página inicial. E veja esse importante aviso sobre as redes sociais.

Anúncios

9 Comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s