69ª Assembleia Geral da ONU – Resumo do primeiro dia

Acompanhe o restante da cobertura da 69ª Assembleia Geral da ONU.

Caros leitores, dando sequência aos textos sobre o Debate na 69ª Assembleia Geral, vamos fazer um apanhado geral de alguns dos discursos de ontem. Obviamente, seria impossível abranger todos os pronunciamentos, então, destaquei alguns de maior impacto ou, ao menos, maior expectativa. Deixei quatro tipos de discursos intencionalmente de fora. Os de vizinhos sul-americanos, o de Montenegro e os de ex-repúblicas soviéticas. Posts específicos serão publicados, cada um com um panorama sobre a América do Sul, a ex-Iugoslávia e a relação entre antigas repúblicas soviéticas e a Rússia. O relacionamento russo que leva ao quarto texto deixado de fora: o pronunciamento de Arseniy Yatsenyuk, Primeiro-ministro ucraniano. Seu discurso será analisado em conjunto com o pronunciamento russo. Sigamos em frente.

Primeiro, o discurso de Felipe VI, recém-empossado como monarca espanhol. O discurso de Felipe VI foi, em certo ponto, idealista, quase nostálgico. Felipe VI defendeu uma posição de proeminência da Espanha no panorama internacional, colocando o país como pronto para colaborar com a paz e com o meio-ambiente. Também advogou em prol da eleição da Espanha para um dos assentos rotativos do Conselho de Segurança para o biênio 2015-2016. Essa defesa, entretanto, baseou-se no papel Histórico da Espanha, que contribuiu para “moldar o mundo”. A História, a arte, o Direito, a importância mundial do idioma espanhol, a posição geográfica do país, em uma “encruzilhada entre mares e continentes”. Felipe também falou da recuperação econômica espanhola, mas, no geral, não tratou de aspectos contemporâneos espanhóis, especialmente a conturbada situação política no país. Para ler, na íntegra e em espanhol, no portal da monarquia espanhola. O que já foi dito de Espanha no Xadrez Verbal?

felipe

Agora, al-Sisi, recém-empossado Presidente do Egito. O discurso de al-Sisi teve um tom nacionalista, como poderia ser esperado de um militar. A intenção parece ser demarcar uma posição, ambiciosa, para o Egito, ou, como evocado, para o Novo Egito. Três eixos principais estão no discurso de al-Sisi. Na política interna, ele destacou a nova Constituição e colocou que o Egito “fez História” nos últimos dois anos, primeiro derrubando a corrupção e o despotismo pela liberdade e, posteriormente, recusando se submeter ao governo “tirano de uma facção em nome de uma religião”. Obviamente, a referência era à derrubada de Mohammed Mursi, eleito Presidente pela Irmandade Muçulmana. O atual líder egípcio afirmou que o país lida com o terrorismo desde a década de 1920, em outra referência à Irmandade Muçulmana; a disputa de poder no Egito já foi tema de texto aqui. O próximo eixo foi a economia.

sisi

Um programa ambicioso, prova do Novo Egito, será lançado para transformar a economia em uma economia de livre-mercado e amigável aos investimentos. Também citou o projeto do Novo Canal de Suez, que “garantirá o futuro” do Egito. Finalmente, al-Sisi falou da conjuntura regional, novamente colocando o país como um aliado na luta contra o “extremismo que ofende o Islã”, com nova indireta sobre a Irmandade Muçulmana e citando o EI. Deu boas-vindas ao novo governo iraquiano, classificou a situação síria como “delicada”, que requer um acordo envolvendo toda a sociedade síria; ou seja, evitou apontar o dedo diretamente para Assad. Finalmente, colocou o Egito como um ator pela estabilidade líbia e que a Palestina é “prioridade” para o Egito; um Estado soberano com capital em Jerusalém Oriental “não deve ser negociado”, pois isso prejudicaria a paz. Encerrou defendo o Egito no CSNU no biênio 2015-2016. A íntegra, em PDF e em inglês. O que já foi publicado sobre o Egito aqui no blog?

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O pronunciamento de Goodluck Ebele Jonathan, Presidente da Nigéria, foi bem curto. Destacou o papel nigeriano na organização da vindoura COP21, reafirmou que o ano de 2015 é essencial para uma reestruturação da ONU e colocou a Nigéria como uma das líderes regionais na luta contra o ebola; fez questão de lembrar que o país está livre do ebola. Na maior parte do discurso, afirmou a necessidade de luta contra o extremismo, mas que essa luta não deve ser restrita ao Oriente Médio. Lembrou-se da situação do grupo Boko Haram, que domina áreas, destrói comunidades e “mata milhares” no nordeste nigeriano. Obviamente mencionou o caso das estudantes raptadas e afirmou que o governo nigeriano não irá desistir de trazer as garotas para suas casas, em liberdade. O pronunciamento, na íntegra e em inglês, aqui.

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Curto também foi o discurso de François Hollande, Presidente da França. Hollande afirmou que discursava sob forte emoção, pelo assassinato de seu compatriota, Hervé Gourdel; o jornalista francês teve o vídeo de sua execução por extremistas divulgado na internet. Falou, basicamente, de três aspectos. Condenou o extremismo e reafirmou que a França participará dos ataques aéreos contra o EI. Nesse contexto, afirmou que é impossível melhorar a situação na região sem uma solução para a Síria, e que a “oposição democrática” é a única voz legítima da Síria. Afirmou solidariedade aos países africanos na luta contra o ebola, e que a França está disposta a ajudar. Finalmente, afirmou que a França “toma sua responsabilidade” em melhorar o clima e, por isso, sediará a COP21, em Paris, Dezembro de 2015. O discurso, em PDF e em francês, está aqui.

Recep Tayyip Erdogan, Presidente da Turquia, foi extremamente agressivo em seu discurso. Isso possui aspectos positivos e negativos, mas, resumindo, Erdogan não deixou pedra sobre pedra. Afirmou que a atual Assembleia ocorre cem anos depois da Primeira Guerra Mundial, mas que diversos países ainda sofrem com cicatrizes de conflitos e que, hoje, a ONU sofre com uma crise de legitimidade. Por conta dessa crise, não consegue resolver os problemas da paz. Colocou que condenar a morte de crianças na Síria ou no Iraque e não condenar também em Gaza e no Egito cria uma contradição que “feriu o senso de justiça” de muitos. Seria inaceitável a morte de 490 crianças e mais de três mil feridas como “alvos diretos” na Faixa de Gaza; em outras palavras, colocou a responsabilidade de Israel como ação deliberada.

erdogan

Afirmou que não é compreensível que duas mil mortes por armas químicas sejam um crime e que a morte de duzentos mil por armas convencionais não seja e, nesse contexto, as Nações Unidas apenas assistiram eventos que causaram a morte de milhares. Então, como se fosse possível, Erdogan subiu o tom mais ainda. Afirmou que as Nações Unidas contribuem para legitimar um golpe de estado, pois o presidente eleito do Egito é Mohammed Mursi e a ONU optou por legitimar “a pessoa que realizou o golpe”. “Devemos respeitar a escolha das pessoas nas urnas. Se formos apoiar golpes, porque a ONU existe?”.

Condenou “todas as formas de racismo”, inclusive o antissemitismo e a islamofobia que, de acordo com ele, existe em boa parte da Europa, hoje. Declarou que a criação do Estado Palestino é urgente e, finalmente, que a Turquia era a maior prejudicada com a propagação do conflito sírio, levando os combates para dentro de território turco. Lembrou que um milhão e meio de refugiados sírios foram para a Turquia, que já gastou quatro bilhões e meio de dólares em esforços humanitários. Essa responsabilidade, disse ele, não deveria ser apenas da Turquia, e a ONU deve voltar a representar o mundo inteiro: “O mundo é maior que os cinco”, em referência aos cinco países permanentes do CSNU. O discurso, em PDF e em inglês, aqui. O que já foi dito sobre a Turquia aqui?

Finalmente, o discurso de David Cameron, Primeiro-ministro do Reino Unido. O discurso de Cameron foi monocromático, um pouco decepcionante até. Tratou apenas do combate ao extremismo. Afirmou que na Sexta-feira irá pedir autorização para o Legislativo britânico, objetivando a participação do país nos ataques aéreos contra o EI. Lembrou que o extremismo está no mundo inteiro, e deve ser combatido globalmente; inclusive “em casa”. Impedir discursos de ódio, melhor controle do tráfego aéreo e organização para deter eventuais voluntários da luta extremista; segundo ele, quinhentos membros do EI são britânicos. Citou casos de barbárie em diversos países, afirmou que novas sociedades são necessárias, como foram para “derrotar o comunismo”. Simultaneamente, afirmou, assim como Obama, que não se trata de um “choque de civilizações” e que o Islã deve ser respeitado. Citou brevemente o ebola e encerrou afirmando que “combatemos um mal que requer a união de todo o mundo”. Nenhuma palavra sobre a Escócia ou assuntos europeus. O discurso, em PDF e em inglês, aqui.

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Lembro aos leitores que ele pode assistir os discursos em seu idioma original no site da UN Web TV, além de ouvi-los nos seis idiomas oficiais da ONU no site do Debate. Hoje, no período vespertino, será publicada a análise do discurso do Presidente iraniano, Hassan Rouhani, que abrirá o dia. No período noturno será publicada a análise do discurso do Primeiro-ministro do Japão Shinzo Abe, e do representante da União Europeia. Espero que gostem e que os textos sejam interessantes. Não esqueçam de compartilhar e divulgar a cobertura da 69ª Assembleia Geral.

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Para ficar informado, você pode checar a programação do debate no site da 69ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.

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Como sempre, comentários são bem vindos. Leitor, não esqueça de visitar o canal do XadrezVerbal no Youtube e se inscrever.

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