69ª Assembleia Geral da ONU – Obama, o discurso moral e o Destino Manifesto

Acompanhe o restante da cobertura da 69ª Assembleia Geral da ONU.

Caros leitores, dada o prolongado pronunciamento de Barack Obama, Presidente dos EUA, hoje, na Assembleia Geral da ONU, o terceiro post do dia será exclusivamente sobre Obama. Amanhã, nove horas da manhã, será publicado um novo post com um apanhado geral dos outros pronunciamentos, especialmente focado em Felipe VI da Espanha, al-Sisi, recém-empossado Presidente do Egito, David Cameron, Primeiro-ministro do Reino Unido e Arseniy Yatsenyuk, Primeir-ministro ucraniano; os dois últimos falaram na parte da tarde. Novamente, priorizando a informação, o leitor pode acessar o discurso de Obama, na íntegra e em inglês, no site da Casa Branca. Ou, se preferir, assistir o discurso, na íntegra, no site da UM Web TV.

Obama

Quando esse autor afirma “prolongado pronunciamento”, ele pode estar apenas enrolando o leitor, para fugir de escrever sobre os outros pronunciamentos. Não existe uma regra fixa sobre o tempo de discurso de um chefe de Estado na ONU, mas a convenção dita cerca de vinte minutos, um pouco mais, um pouco menos. Obama falou por quarenta minutos. Cristina Kirchner, Presidenta da Argentina, falou por trinta e seis minutos. Foram os únicos que foram além do número vinte. Então, não, o blog não está te enrolando, caro leitor. E, numa perspectiva pessoal, um discurso com quase o dobro de tempo da maioria dos outros discursos passa longe de ser o ideal, embora, repita-se, não existe regra fixa.

O pronunciamento começa exagerado, no tom moral que norteia a política externa dos EUA, como já debatido nesse espaço. Diz Obama: “Estamos reunidos em uma encruzilhada entre guerra e paz; entre desordem e integração; entre o medo e a esperança.”. Na primeira parte, Obama traça um panorama otimista sobre o mundo, que vivemos no melhor momento para se viver da História, com menos pessoas na prisão da pobreza, com mais pessoas vivendo em governos de sua escolha, com a informação ao alcance da mão, seja vivendo em Manhattan ou “na vila de minha avó, mais de duzentas milhas distante de Nairóbi (capital do Quênia)”. Que a própria instituição da ONU é algo magnifico, onde a comunidade internacional se reúne para resolver pacificamente os problemas, ao contrário do passado de guerras mundiais.

Então, como no roteiro de um drama, Obama dá uma súbita guinada. Lembra-nos dos estragos e dos perigos do ebola. Que a “agressão russa na Europa” lembra os dias em que grandes nações atropelavam as menores, em busca de ambições territoriais. Que a brutalidade de terroristas na Síria e no Iraque nos força a olhar “no coração das trevas”. E a primeira metade do discurso girou nos temas da crise ucraniana e russa, além da necessidade de uma ONU representativa. Obama afirmou que a Rússia “desafiou a ordem pós-guerra” e que a ONU deve garantir o cumprimento de normas internacionais.

Lembrou o caso do avião provavelmente abatido na Ucrânia, indiretamente culpando os russos, e que os EUA irão impor “um preço” à Rússia pelas suas ações. Que “a América” acredita no Direito como base nas nações, e não no “bully”. Colocou essas afirmações como “simples verdades” (o termo “verdade” foi usado três vezes em cinco frases) e que a Rússia deve vir “para o lado certo da História”, no tradicional maniqueísmo moral da política externa dos EUA. Finalmente, dispõe a colaborar com a Rússia, como colaboraram para frear o armamentismo nuclear e o armamento químico Sírio. Claro, tal colaboração seria possível “se a Rússia mudar seu caminho”; não exatamente uma disposição ao diálogo.

O mesmo tipo de proposta foi feito ao Irã. Obama colocou-se disposto ao diálogo com o governo iraniano, para garantir um programa nuclear pacífico. Novamente, desde que o Irã “aproveite essa oportunidade”. Nessa primeira parte, Obama também destacou os esforços dos EUA para contribuir contra a epidemia do ebola, que pode “levar sofrimento” para o mundo todo, e fez um trocadilho interessante. Comentou a construção e cooperação no eixo Ásia-Pacífico e que os EUA continuarão como “a Pacific power”; pode soar como uma “potência pacífica”, mas o contexto e o uso da maiúscula na transcrição deixam claro que é um recado sobre o Mar da China: uma potência do Oceano Pacífico.

A segunda metade do longo discurso foi sobre o Estado Islâmico, Oriente Médio e Islã. Obama afirmou que a comunidade internacional precisa se unir para destruir o “câncer do extremismo”; para isso, talvez não possam seguir um “livro de regras de outro século”, em outro claro recado sobre a representatividade da ONU. Afirma que o extremismo religioso na região é uma “perversão” de uma das maiores religiões do mundo e que o Islã prega a paz; por isso, rejeita a ideia de um “choque de civilizações”, para tristeza de Samuel Huntington. Curiosamente, Obama utiliza então o discurso dos críticos aos meros ataques militares: que as condições sociais do Oriente Médio e do Norte da África criam as condições para o extremismo.

Segue para afirmar que “a entidade conhecida como” Estado Islâmico é uma representação “do mal”, e deve ser destruída, pois assassinos conhecem apenas o idioma da força. Afirmou que os EUA lutarão para “cortar seu financiamento”; oras, a maior suspeita recai justamente sobre a Arábia Saudita, um dos principais aliados dos EUA na região, como analisado no texto do ovo da serpente. Obama elencou comunidades islâmicas e exemplos de muçulmanos que rejeitam o EI e o extremismo, como exemplos de convivência pacífica. Finalmente, falou que a situação mais urgente é na Síria, em que a população está entre o extremismo e o “regime brutal” de Assad, sendo necessária uma transição política. Novamente, lembremos que o financiamento da guerra civil síria veio de governos ligados ao dito Ocidente.

Finalmente, Obama coloca que as condições para superação do extremismo são na sociedade civil, e fornece exemplos de fomento de liberdades individuais em comunidades islâmicas. Afirma que “fala diretamente com a juventude muçulmana” que eles descendem de uma tradição de conhecimento, inovação e riqueza cultural e social, e devem rejeitar o extremismo. Em um breve trecho, afirma reconhecer o problema do conflito entre Israel e Palestina e, embora destaque os foguetes de Gaza, faz uma pouco-habitual crítica velada ao aliado, sendo inaceitável que “tantas vidas de crianças palestinas tenham sido tomadas”.

Ao fazer o que parecia um mea-culpa, Obama afirma que os EUA também possuem seus problemas, e lembrou o caso do jovem negro assassinado por um policial em Ferguson, Missouri. Isso, entretanto, seria uma demonstração da “força da América”, que reconhece seus problemas e os encara, lutando para melhorar a convivência racial e solucionar seus diversos problemas. Citou Eleanor Roosevelt (na verdade, Obama citou diversas passagens e pessoas, literalmente, o que contribuiu muito para seu longo discurso), que afirmou que os direitos humanos estão “nos pequenos lugares”; sendo assim, o fortalecimento social contribuiria para a luta contra o extremismo.

Em um balanço final, o discurso de Obama trouxe alguns pontos incomuns ao virem das palavras de um presidente dos EUA, como os aspectos sociais como origem do extremismo e a crítica à Israel. No entanto, foi um discurso cansativo e repetitivo, cheio de citações e, principalmente, do discurso moral e do Destino Manifesto dos EUA. Para o ouvinte dos EUA, deve ser apropriado colocar a política do país como uma “luz” para o mundo; as aspas estão ali, pois isso é literalmente o que Obama disse ao encerrar. Para o ouvinte dos outros países ou um mais crítico, a análise pode ser outra. Criticar a Rússia por “deslegitimar” a ONU, esquecendo-se da invasão ilegal do Iraque em 2003, ou repetir que os EUA são “o lado certo” da História, o Destino Manifesto, além da evocação do discurso moral de “proteger as crianças” (crianças são citadas onze vezes no pronunciamento) por quarenta minutos pode ser cansativo e esvaziar o conjunto do que foi dito.

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Para ficar informado, você pode checar a programação do debate no site da 69ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.

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