Nem sonhática, nem pragmática

Em Julho de 2011, ao anunciar sua saída do Partido Verde, Marina Silva afirmou que não era hora de ser pragmática, era o momento de ser “sonhática”. Posteriormente, a ex-senadora e ex-ministra anunciou sua filiação ao Partido Socialista Brasileiro e que seria vice-candidata na chapa de Eduardo Campos para a corrida presidencial. Tais declarações e o episódio da filiação de Marina ao PSB já foram tratados aqui no blog. Após a morte do ex-governador de Pernambuco em um acidente aéreo, Marina Silva era especulada como a futura titular da candidatura, o que foi confirmado recentemente. Ontem, dia 19 de Agosto, foi confirmado o novo candidato ao cargo de vice-presidente na chapa, o deputado Beto Albuquerque, do PSB do Rio Grande do Sul.

Beto Albuquerque estava concorrendo ao Senado federal em seu estado. A pesquisa mais recente, feita pelo Ibope e divulgada no início do mês, aponta que, no Rio Grande do Sul, o candidato do Partido Democrático Trabalhista ao Senado, Lasier Martins, teria 30% das intenções de voto. Tecnicamente empatado com Olívio Dutra, do Partido dos Trabalhadores, que tem 27%; considerando a margem de erro da pesquisa, que é de três pontos percentuais. Beto Albuquerque aparecia em terceiro, com 10% da intenção de votos. O PDT está na coligação de reeleição de Dilma Roussef, ou seja, muito provavelmente o eleito será da base aliada em caso de novo mandato de Dilma Roussef.

O singular foi utilizado já que, no caso específico do Rio Grande do Sul, apenas uma vaga de senador estará em disputa. Em outras palavras, Beto Albuquerque estava praticamente fora da disputa, em terceiro, com larga margem de diferença para os favoritos. No caso de um estado com duas vagas para o Senado em aberto, ainda seria possível o trabalho focado em uma reviravolta. Por um lado, o PSB abre mão de uma candidatura que dificilmente resultaria em vitória, mas ainda é evidente a falta de representatividade eleitoral, atualmente, do nome escolhido. E qual o motivo do texto citar que, muito provavelmente, o vencedor da eleição será da base de uma eventualmente reeleita Dilma Roussef?

Historicamente, o Partido dos Trabalhadores possui muita força no Rio Grande do Sul, estado em que Dilma Roussef iniciou sua carreira política. Nas últimas eleições presidenciais, Dilma teve, em primeiro turno, 46,95% dos votos, o candidato com mais votos. No segundo turno, 49,06% dos votos, contra 50,94% de José Serra. Nas eleições para o governo do Estado, em 2010, Tarso Genro, do PT, foi eleito em primeiro turno, com 54,35% dos votos, contra 24,75% dos votos do segundo colocado, José Fogaça, do PMDB. O mapa abaixo demonstra como a votação do PT foi expressiva na disputa do governo do estado, com 463 dos municípios com maioria do PT, em vermelho.

RS

Qual a origem da diferença de votos de José Serra entre um turno e outro, nas últimas eleições gaúchas? O eleitorado de Marina Silva, então no Partido Verde. Marina obteve, naquele primeiro turno, cerca de 10%. O PSB, então, estava na coligação do eleito Tarso Genro. A porcentagem de votos que Marina Silva obteve no Rio Grande do Sul é igual ao número da intenção de votos que Beto Albuquerque contava na última pesquisa. A escolha de Beto Albuquerque muito provavelmente se dão pela sua força interna ao partido.

Era o líder da legenda na Câmara dos Deputados, onde estava pelo quarto mandato consecutivo. Também foi, por dois mandatos consecutivos, deputado estadual e foi secretário Estadual dos Transportes entre 1999 e 2002, durante o governo de Olívio Dutra; Dutra que era, até essa semana, seu rival pelo Senado. Albuquerque estava no PSB tem mais de duas décadas. Seu vínculo duradouro com o partido, suas força interna e sua longa carreira no legislativo colocaram-no como um possível sucessor político de Eduardo Campos, que transmita imagem similar e cumpra os compromissos assumidos por Campos.

Tais aspectos positivos, como representar a sucessão política de Campos, talvez não sejam suficientes, entretanto. Em uma perspectiva eleitoral. Além de ser um candidato que não estava em evidência nem em sua própria disputa, em um estado em que uma das candidatas conta com muita força, Albuquerque sequer representa um fôlego eleitoral comparado ao último resultado de Marina Silva. Transmitir a imagem de um sucessor de Eduardo Campos não bastaria considerando também um aspecto geográfico.

Enquanto a coligação liderada pelo PSDB colocou junto ao candidato Aécio Neves, de Minas Gerais, o senador Aloysio Nunes, de São Paulo, o PSB fez o caminho inverso. O potencial erro do PSDB foi repetir a história da política café com leite, com seus dois nomes concentrados em apenas uma região. Já o PSB, com Marina Silva e Beto Albuquerque, ignora a região do Brasil com os maiores domicílios eleitorais. Marina Silva pode ser um nome de repercussão nacional, dado seu ativismo político e ter sido ministra, mas não é ligada especificamente ao eleitorado de nenhuma região. Em 2010, Marina teve maioria apenas no Distrito Federal, com bom desempenho na região Norte e no Rio de Janeiro.

Se foi afirmado aqui nesse espaço, quando de sua filiação ao PSB, que Marina Silva abriu mão de ser “sonhática”, hoje pode-se dizer que Marina também abriu mão do pragmatismo. Um candidato cuja eventual força é apenas a continuação da imagem de Eduardo Campos aumenta o tom emotivo que certamente estará na campanha do partido, e só. Albuquerque não traria, de acordo com as pesquisas, um grande eleitorado. Não é um rosto presente na política nacional, tampouco um nome de peso em um grande domicílio eleitoral. Ainda por cima, vem de um estado em que um dos partidos rivais é muito forte. Albuquerque pode ser um nome digno de substituir Campos para o partido, mas não para as eleições.

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A escolha de Aloysio Nunes para acompanhar Aécio Neves foi tema de vídeo no canal do XadrezVerbal no Youtube.

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