Rede, PSB, terceira via e Marina Silva

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Caros leitores e amigos,

Depois de semanas focado em política internacional, especialmente na Assembleia Geral da ONU, escrevo um texto sobre a política nacional. Estava com saudades de falar do tema. Vamos lá. Sábado, dia 5 de Outubro de 2013, a ex-Senadora e ex-Ministra do Meio Ambiente Marina Silva anunciou que se filiou ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) e que será a vice do candidato à Presidência da República do partido, o atual Governador de Pernambuco Eduardo Campos. Esse é o fato, de inegável relevância para as vindouras eleições presidenciais, ano que vem. Motivos? Consequências? Possíveis interpretações?

O prelúdio imediato dessa inesperada coligação é, obviamente, a rejeição à criação do partido da Rede Sustentabilidade, movimento político de Marina, pelo Tribunal Superior Eleitoral. Em votação de seis votos contra um, o TSE, após parecer do Ministério Público Eleitoral, não reconheceu as assinaturas da formação do partido que foram rejeitadas por cartórios eleitorais. Cerca de 95 mil assinaturas foram rejeitadas, e o Rede (tratarei no masculino pois se trataria de um partido) ficou aquém em cerca de 50 mil assinaturas do mínimo estipulado por lei, 492 mil (0,5% dos votos para deputados federais).

Marina Silva, aparentemente confusa, na 41ª Assembleia Geral da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) no dia 8 de Abril de 2013.   Foto: Sergio Lima/Folhapress

Marina Silva, aparentemente confusa, na 41ª Assembleia Geral da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) no dia 8 de Abril de 2013.
Foto: Sergio Lima/Folhapress

Marina teria se sentido ultrajada, afirmando em convenção interna do movimento que um “chavismo” se instaurou no Brasil, motivo de suposta perseguição ao seu partido. Numa análise fria do caso específico, a crítica passa longe de proceder. Não foi uma votação apertada, em um órgão formado por Ministros oriundos do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça, além de membros da sociedade civil; ou seja, a escolha de todos os envolvidos, em algum momento, passou pelo Legislativo e pelo Executivo, além do próprio Judiciário, vide que a maioria dos membros do STJ é de juristas de carreira, como magistrados e procuradores. Além disso, o MP era, ao menos até ontem, visto quase como pilar da investigação de crimes e irregularidades, vide a polêmica em torno da PEC 37. Não é exatamente uma composição que possibilite ser definida como “chavismo”.

Além disso, a deficiência em relação ao requerido por lei era clara, não era matéria subjetiva. Por mais que Marina e sua base de apoio tente passar essa imagem (afirmando, por exemplo, que a maioria das assinaturas não reconhecidas foi em cartórios do ABC paulista, local de fundação do Partido dos Trabalhadores), um partido organizado por uma figura política que teve cerca de 19 milhões de votos na última eleição presidencial não conseguir assinaturas suficientes para até uma margem de segurança do mínimo é um tanto incomum. Apenas no estado de São Paulo, maior domicílio eleitoral do país, são 30 milhões de eleitores. Além de um eventual despreparo de um partido nascente e criado às pressas, também é possível colocar essa deficiência de assinaturas como fruto do desgaste da imagem de Marina, que foi agravado pela confusão dos últimos dias que resultou em sua filiação ao PSB.

Em 2009, apenas quatro anos atrás, Marina estava no PT. De lá pra cá, esteve no Partido Verde, tentou fundar o Rede e foi parar no PSB. Vestiu quatro camisas diferentes em igual número de anos. Devido inúmeros fatores, dentre os quais o blogueiro acredita que está o fato de ter sido preterida na sucessão presidencial em favor da então Ministra Dilma Roussef, renunciou ao Ministério do Meio Ambiente e se desligou do PT em 2009. De lá, foi para o PV, pulo natural, vide o fato de sua atuação política, inclusive sua projeção internacional, ser ligado às causas ambientais. Foi de recém-filiada para presidenciável em menos de ano. O PV faz parte de uma grande rede internacional, e é uma sigla presente em basicamente todas as democracias; é um partido consolidado. O PV alemão é a terceira força do país, e o bloco do PV europeu é a quarta maior bancada do Parlamento Europeu. Marina teve cerca de 19 milhões de votos em 2010, 19% do total no primeiro turno. Mas o PV elegeu apenas um senador, quinze deputados e nenhum governador. A candidatura de Marina não fortaleceu o partido, seu nome não trouxe apoio para sua base. Saiu do PT por ter sido, dentre outros motivos, preterida e foi fazer uma campanha voltada para si mesma.

Menos de nove meses depois da eleição concluída, Marina saiu de um partido, repito, consolidado e reconhecido, para ser, em suas palavras, “sonhática”, e não pragmática. Pelo contrário, Marina foi bem pragmática. Saiu por saber que o PV não teria tamanho suficiente para catapultá-la ao Planalto e que em um partido estruturado teria que se ombrear com outras lideranças. Foi fundar um novo partido. O seu partido. Junto com alguns outros dissidentes do PV e de outros partidos, cujo maior nome talvez seja Walter Feldman, fundador do PSDB, deu início à Rede Sustentabilidade.  Com bandeiras programáticas muito similares ao PV, visíveis já no nome. A dissidência maior talvez seja apenas que agora é o seu partido. Ou, melhor, era, até a interferência do TSE.  Aos primeiros sinais da inviabilidade do Rede, Feldman afirmou que “sete legendas se ofereceram” e que seria “muito difícil” Marina ir para outro partido. Então, subitamente, em convenção interna, Marina anunciou sua filiação ao PSB (juntamente com outros de sua base, como Feldman), que seria vice na chapa de Eduardo Campos.

Ao ser confrontada com o fato de que isso adia, ou inviabiliza, seu projeto de presidência, respondeu que o sonho estava adiado e que “A minha briga, neste momento, não é para ser presidente da República, é contra o PT e o chavismo que se instalou no Brasil”. A parte do chavismo já foi tratada. Vamos aos outros dois aspectos. Primeiro, se seu sonho está “adiado” e ela pretende insistir na formação do Rede, supondo que Campos seja eleito, ela será uma Vice-Presidenta que também será candidata em 2018? Concorrendo com seu próprio Presidente? Como seria seu comportamento? Puxaria o tapete do governo ao qual pertence, ao qual teria sido eleita? A impressão que fica dessa grande alternância de acordo com as conveniências é a de que seu projeto de governo não é do PT, não é do PV, não é do PSB, é ela mesma.

Finalmente, sobre sua briga ser “contra o PT”. Em 2010, qual era a postura de Marina? Colocar-se como uma alternativa à polaridade entre PT (supostamente, esquerda) e PSDB (supostamente, direita). Reforçar uma imagem de “terceira via”, tal qual o movimento de mesmo nome que teve sucesso na Europa nas décadas de 1980 e 1990. Com essa postura, ela teve quase um quinto dos votos válidos, um número extremamente considerável, vide que seu partido era pequeno e era sua primeira candidatura para presidência. De lá pra cá, e mesmo nas eleições de 2010, ela sempre levanta uma sobrancelha quando seu nome mencionado. Os mais à direita e os conservadores rejeitam-na por supostamente ter um pé na esquerda, com suas causas ambientais e sua origem no PT; os mais à esquerda e os de centro, também a rejeitam, em menor grau, especialmente pela sua postura religiosa em relação alguns temas sociais, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ainda assim, o último grupo é certamente a maioria do eleitorado de Marina. Um discurso raivoso, de “minha briga é contra o PT”, pode desagradar o último grupo, sem necessariamente agradar o primeiro, que ainda a enxerga como uma ambientalista.

Ambientalista que se juntou a um partido que é filiado ao Foro de São Paulo, coligação de partidos de esquerda latino-americanos que é citada em nove de dez blogs e correntes conservadoras em tons pejorativos. Cujo líder e candidato à presidência vem de Pernambuco, estado-natal do ex-Presidente Lula. Cujo apoio, quando Presidente, foi vital para a vitória massacrante de Campos em seu Estado. Além de um discurso que desagrada o eleitorado mais de esquerda, ela se junta a um partido e a um candidato cujos antecedentes certamente não agradam o eleitor de direita ou conservador. Na tentativa de se colocar como terceira via, como uma opção à polaridade de PT e PSDB, de se mostrar como a peça cinza dentre o embate das peças brancas contra as peças pretas, Marina se mostra metade preta, metade branca, indecisa e perdida (exemplo disso foi sua omissão no segundo turno das eleições de 2010). Não conquista nem um, nem outro. Em uma contraditória postura de “vale tudo para ganhar”, tenta agradar gregos e troianos e acaba por desagradar todos.

Marina pode até trazer benefícios para si, para Campos e para o PSB. Mas, no longo prazo, desgastou sobremaneira sua imagem, com seus discursos e posturas contraditórios e a constante troca de partidos. Tivesse ficado nos últimos quatro anos à frente do PV e trabalhado sua candidatura em uma campanha permanente, tal qual Lula fez de 1994 até 2002, chegaria muito mais forte nesta eleição de 2014, perto até de realizar seu grande sonho, de ocupar a presidência. Ou então, se conformasse com a derrota momentânea de seu partido, ficasse fiel ao seu movimento e consolidasse o Rede nos próximos anos, demonstrando integridade e lealdade, tanto aos seus supostos princípios como à sua base, que a acompanhou na nova empreitada. Não. Virou aliada de última hora, que compromete a própria coligação. Na tentativa de ser a terceira via, Marina corre o risco de se tornar inviável.

Ps: Marina afirmou também, em meio sua revolta contra a perseguição “chavista” que acredita sofrer, que sabe que cerca de duas mil pessoas são pagas para falar mal dela nas redes sociais. Tendo em vista que o último pagamento que recebi foi de uma tradução que chegará às bancas de jornal em Novembro, deixo claro que não faço parte desse grupo. O post foi inteiramente grátis.

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14 Comentários

  • Patética. Falo mal dela de graça,

  • Marina mostra, mais uma vez, que não é diferente dos demais políticos e suas práticas são idênticas aos militantes de todos os partidos.
    A análise “tal ato desagrada tal grupo” e “tal ato desagrada outro grupo” não é diferente da análise que podemos fazer de qualquer político ou partido brasileiros, sem exceção. Basta lembrar das brigas hercúleas de Lula X Collor na campanha eleitoral e depois vê-los aos abraços na aliança política de ambos, ou mesmo lembrar da batalha vulcânica da bancada petista contra o aumento do IPTU paulistano proposto pelo prefeito Kassab e a posição da mesma bancada, em apoio à mesma lei, só que agora sob a batuta de Haddad…
    E o PSDB não é diferente, incita CPIs em arenas em que é oposição e as obsta onde são situação…

    Resumindo: Marina, como figura política “nova” e “independente” é apenas mais uma figura manjada e exatamente igual a todos os demais, e como qualquer político pode, sim, fazer a diferença e emergir como a “terceira via”, basta que os ventos midiáticos e de oportunidade soprem a seu favor, principalmente em termos de mancadas políticas e administrativas de seus contendores, o que, diga-se de passagem, está longe de ser um fato muito difícil de acontecer.

    • Caro Eduardo

      Obrigado pelo seu comentário, estavam ausentes.

      Concordo com você na maioria de suas conclusões, exceção a parte sobre uma eventual terceria via no Brasil. Acredito que sejam necessários mais que ventos midiáticos.

      Um abraço

      • exato, como eu disse, para ser a “terceira via” ela deve contar com os ventos midiáticos (vide as eleições de Collor, Haddad, etc) E oportunidades cedidas por seus concorrentes, essas, na minha opinião, muito prováveis de acontecer.

  • A Marina tem se mostrado, cada vez mais, uma bela de uma oportunista. Concordo com o post: nessa vontade de agradar todo mundo ela não agrada ninguém. Fica patéticamente claro que a única proposta dela é “chegar lá de um jeito ou de outro”, que ela não tem nada de “novo” ou “diferente” pra apresentar.

  • Me parece que ela, ao invés de terceira via, tenta se apresentar como alternativa ao PT, buscando arrebanhar votos conservadores que iriam para o PSDB. Cálculo que até faz algum sentido, já que pro eleitor anti-petista médio pouco importa o partido que o sujeito pertença, desde que se oponha – com chances de sucesso – ao PT.
    Resta saber se aceitará mesmo apenas a vice-presidência ou vai tentar, já pra essa disputa, forçar seu nome como cabeça de chapa.

  • Pingback: Resumo da Semana – 07/10 a 13/10 | Xadrez Verbal

  • ufa! até que enfim consegui entender todo o rolo da marina silva/REDE em um só post, simples, rápido e claro.

  • Pingback: Nem sonhática, nem pragmática | Xadrez Verbal

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