As Fronteiras Invisíveis da Europa: Escócia

Caros leitores, após um breve hiato na série, vamos ao texto sobre as Fronteiras Invisíveis da Europa que seria da semana anterior. Um dos textos mais complexos dessa série especial de textos, na verdade, já que trato de uma das relações mais complicadas da Europa. E a fronteira com mais chance de tornar-se “visível” num futuro próximo já que, em 18 de Setembro teremos um referendo que pode decidir a independência da região. Falo da Escócia, que não existe como Estado independente desde 1707, mais de trezentos anos em união política com a Inglaterra, formando o Reino da Grã-Bretanha. Se contabilizarmos a união pessoal, em que um mesmo monarca é o detentor da coroa de mais de um reino, voltamos ao ano 1603, quando Jaime VI da Escócia também se tornou rei da Inglaterra e da Irlanda.

O Reino Unido, com a área correspondente a Escócia destacada.

O Reino Unido, com a área correspondente a Escócia destacada.

Posteriormente, em 1801, com a união política do Reino da Grã-Bretanha e a Irlanda, foi formado o Reino Unido, que existe até hoje. Nos trezentos anos dessa união política, diferenças institucionais existiram, como um sistema de educação próprio e aspectos do direito público interno distintos. Tais diferenças contribuíram para a sobrevivência da cultura e da identidade escocesa; entretanto, como contraste, apenas em 1999 a Escócia ganhou seu próprio Parlamento, um poder derivado baseado no Referendo de 1997. O processo de autonomia escocesa começou apenas em 1979, com um referendo que autorizaria a criação de uma assembleia local. Embora a maioria dos votos tenha sido para a causa local, o referendo não cumpriu a meta de número bruto de eleitores.

Ou seja, a autonomia e, talvez, independência da Escócia é uma demanda histórica. Mesmo no Brasil, do outro lado do Atlântico e sem uma comunidade escocesa numerosa, consegue-se visualizar a cultura escocesa, o tipo de um escocês (além de elementos muitas vezes esquecidos, como o idioma gaélico). Trata-se de uma nacionalidade clara, de um país que não possui autonomia política por mais de três séculos. Essa independência, entretanto, foi buscada desde o século 18, com, por exemplo, os Levantes Jacobitas (você leu certo, não são “jacobinos”, são coisas diferentes). O marco do movimento de autonomia contemporâneo é em 1885, com a criação do Scottish Office e do Secretário para a Escócia. Em 1999, o posto foi absorvido pelo Governo Escocês, o Executivo correspondente ao Parlamento Escocês.

O debate político escocês, hoje, está bem dividido. Mantendo a postura unionista, ou seja, contra a independência escocesa, estão as três seções regionais dos principais partidos políticos nacionais: os Trabalhistas, os Liberal-Democratas e os Conservadores. Os Conservadores são conhecidos popularmente como Tories e são, na prática e nas alegorias políticas, os principais defensores da União; ou, se preferir, os principais críticos da independência. O antigo Partido Unionista foi absorvido pelos Conservadores em 1965. Advogando pela independência estão os partidos locais Partido Nacional Escocês, maioria absoluta do Parlamento local e com dois representantes no Parlamento Europeu, e o Partido Verde local. Os diferentes partidos e grupos da sociedade civil se organizaram em duas campanhas, a “Yes Scotland” (“Sim Escócia”), pela independência, e a “Better Together” (“Melhor Juntos”), pela união.

Manifestante do Yes Scotland, com o rosto pintado com a bandeira do país

Manifestante do Yes Scotland, com o rosto pintado com a bandeira do país

E, como é tradição nessa série de posts, vamos imaginar como seria uma Escócia independente. Com uma área de pouco menos de oitenta mil quilômetros quadrados e uma população de cerca de cinco milhões e meio de pessoas, a Escócia é um país pequeno e pouco populoso. Economicamente (e proporcionalmente) a Escócia seria um gigante, entretanto. A Escócia é um dos países mais industrializados do mundo e é o maior produtor petrolífero da Europa, além de centro da indústria naval. O sistema bancário escocês também é dos principais do mundo; Edimburgo é uma das dez “capitais bancárias” da Europa. A agricultura e a indústria do turismo também possuem boa participação na economia. Os índices socioeconômicos são sólidos, com uma renda per capita anual estimada em cerca de quarenta e oito mil dólares.

Outro aspecto a ser ponderado seria a inserção da Escócia independente nos fóruns e organismos internacionais. Dada a localização geográfica do país, seria essencial sua entrada (ou permanência, se preferirem) na OTAN, como veremos mais adiante. Além disso, o Partido Nacional Escocês já manifestou que, em uma Escócia independente, seria do interesse do governo deles que o país ingressasse na União Europeia. Um tema delicado, isso ocorrendo, seria a participação, ou não, na área Schengen, estabelecida em 1995. A região europeia em que o trânsito de cidadãos de diversos países é liberado.

O Reino Unido não aderiu ao Acordo Schengen, assinado em 1985, por desejar total controle de suas fronteiras. Uma Escócia independente teria que negociar o trânsito de seus nacionais com o restante do Reino Unido, por diversas razões. Ao receio do estabelecimento de uma fronteira rígida entre Escócia e o restante se deu o nome de “Cortina de Tartã”, com a conotação da antiga Cortina de Ferro. Tartã é o nome do padrão quadriculado de cores muito presente na cultura escocesa (não confundir com o nome das peças de roupas, como o kilt, por exemplo.).

Por todas essas razões, muito do debate e da apreensão pelo Reino Unido não é motivado por “Como seria a Escócia?”, mas por “O que o Reino Unido perde?”. E um dos principais campos dessa perda seria militar. Estima-se que cerca de 20% do contingente total das forças armadas do Reino Unido sejam escoceses. Hoje, o contribuinte escocês fornece cerca de três bilhões e meio de libras para o orçamento de defesa do Reino Unido; o Yes Scotland advoga que uma Escócia independente gastaria um bilhão de libras a menos. Finalmente, a questão territorial é importantíssima.

Dada a localização geográfica, dominando as rotas aéreas pelo hemisfério Norte e as rotas marítimas pela Escandinávia e o Ártico, é na Escócia que estão algumas das principais bases da Força Aérea Real e da Marinha Real. Principalmente, é base do sistema de mísseis nucleares Trident, que, supostamente, não teriam como serem realocados. Ou seja, uma independência escocesa causaria, ao menos num curto prazo, falta de capacidade nuclear por parte do Reino Unido. Cogita-se que, para o mantimento de boas relações e objetivando a entrada escocesa na OTAN, algumas bases estratégicas poderiam ser “alugadas” ao Reino Unido, tal qual aconteceu com diversas bases russas após a dissolução da União Soviética (como as bases da Crimeia, motivo de crise recente).

E qual o cenário militante em relação ao tema? A Escócia, hoje, possui um movimento militante radical nacionalista, o Siol nan Gaidheal (Linhagem dos Gaélicos), classificado como “protofascista” pelo Partido Nacional Escocês. Historicamente, o grupo militante ativo na Escócia era o Exército de Libertação Nacional Escocês, fundado nos anos 1980 por Adam Busby. Seu filho, Adam Busby Jr., foi preso em 2009, após o envio de cartas com ameaças para figuras do cenário político. A ação de maior repercussão do ELNE foi em 1983, quando enviaram pacotes com explosivos para Lady Diana (ainda não havia casado com Charles, o herdeiro do trono inglês) e para a então Primeira-Ministra Margaret Thatcher. Essa carta-bomba chegou ao governo inglês e foi aberta por um parlamentar, mas a explosão falhou.

O sentimento popular é, como esperado, bem dividido. Boa parte das pesquisas eleitorais pré-referendo mostram que o Sim para a independência flutua entre 35-40%, e o Não flutua entre 38-43%, com uma margem grande (cerca de 20%) de indecisos. Ou seja, é muito difícil fazer alguma previsão. Na mídia o debate também é acirrado, com os dois grupos políticos articulados e as pessoas públicas escocesas divididas. Para dar um exemplo aleatório, três dos atores escoceses mais conhecidos (independente de juízo de valor) colocam-se em posições distintas. Sean Connery defende a independência escocesa, Ewan McGregor é publicamente contra e Gerard Butler afirmou que não tomará uma posição pública.

Essa divisão da opinião pública escocesa pode ser vista no futebol, ingrediente comum nos textos dessa série. Na verdade, o futebol talvez seja o mais conhecido termômetro dessa divisão na sociedade escocesa. Considerada por alguns a maior rivalidade entre clubes do mundo, o clássico de Glasgow, entre Celtic e Rangers, chamado de Old Firm, é também um duelo político. Nos últimos trinta anos, cerca de vinte mortes foram causadas direta ou diretamente pelo confronto. O Celtic, como o nome já deixa claro, verde e branco, reconhece o idioma gaélico, possui como símbolo um trevo irlandês. Seus torcedores são, em sua maioria, escoceses católicos que favorecem a independência e enxergam o poder de Londres como estrangeiro e a religião protestante como invasiva. Cantam louvas ao Papa e hasteiam a bandeira irlandesa.

Foto da arquibancada durante um Old Firm. Note em primeiro plano os torcedores verdes, com bandeiras da Irlanda e do País Basco, em solidariedade, visto como país também dominado por estrangeiros. Do outro lado, de azul, os torcedores do Rangers, com a Union Jack.

Foto da arquibancada durante um Old Firm. Note em primeiro plano os torcedores verdes, com bandeiras da Irlanda e do País Basco, em solidariedade, visto como país também dominado por estrangeiros. Do outro lado, de azul, os torcedores do Rangers, com a Union Jack.

O Rangers é azul e branco, seus torcedores hasteiam a bandeira do Reino Unido (a Union Jack), cantam God Save the Queen e xingam o Papa. São de maioria protestante e conservadores, e definem-se como Britânicos. Representam o establishment protestante que governava a Escócia antes da autonomia regional. E, claro, existem também as torcidas mais nativistas, que evocam, por exemplo, a identidade escocesa e as Highlands, independente da disputa política. Exemplo flagrante disso é um cântico da torcida do Aberdeen, da cidade de mesmo nome, terceira maior da Escócia. F*ck the blue, f*ck the green, F*ck the Pope, f*ck the Queen, We support Aberdeen. Acredito que não é necessária a tradução.

Todos esses elementos, políticos, históricos e econômicos, são motivo para o debate acirrado que existe hoje na Escócia. Certamente será tema de mais textos por aqui. Como dito na introdução, em 18 de Setembro saberemos se essa fronteira continuará invisível.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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