Xadrez Dominical – Aviões de passageiros abatidos

Caros leitores, progressivamente o blog vai voltando ao normal. Caso o leitor não tenha visto o aviso, essa semana foi de recuperação médica. Nada de demais, mas faltava inspiração para me dedicar ao blog. Agradeço a paciência e a compreensão de todos vocês, e nesta semana vindoura o blog e o canal no Youtube voltam com força total, falando de Oriente Médio, eleições, o retorno das Fronteiras Invisíveis da Europa e da série de textos sobre a Alemanha no entreguerras.

Pois bem, dado que ano passado eu já fiz um Xadrez Dominical sobre a Queda da Bastilha, tive que escolher outra data ou evento da semana para o tema do post de hoje. Infelizmente, como muitos de vocês devem saber, durante a semana um Boeing 777 da Malaysia Airlines caiu na região de Donetsk, foco de confrontos entre o atual governo ucraniano e separatistas pró-Rússia. Tudo indica que o avião foi abatido por um míssil disparado do solo, de autoria ainda investigada.

Destroços do vôo MH17 na Ucrânia

Destroços do vôo MH17 na Ucrânia

O fato, é claro, chocou a opinião pública, já que foram 298 vítimas inocentes de um conflito, além do fato de um avião civil, de passageiros, ter sido tratado como alvo militar. Por mais estarrecedor que seja, o fato não é tão isolado quanto parece. Diversos outros aviões de passageiros já foram abatidos por militares, de diversos países. Fiz uma seleção de alguns casos, com alguma referência sobre o evento. Vamos então ao Xadrez Dominical de aviões de passageiros abatidos.

Os casos aqui selecionados excluem aviões militares (mesmo que abatidos em circunstâncias condenáveis, como o caso israelense da Operação Tarnegol) e excluem os aviões, mesmo que civis, abatidos em situações flagrantes de conflito. Por exemplo, vários aviões de passageiros foram abatidos durante a Segunda Guerra Mundial. Também exclui atentados terroristas, por razões óbvias. Todos os links introdutórios são do portal Aviation Safety Network, que busca compilar dados de todos os acidentes aeronáuticos e colaborar com a melhoria das condições de voo. Os links trazem informações como rota aproximada, local da queda, entre outros.

O primeiro caso espelha o evento dessa semana. Em Quatro de Outubro de 2001, um Tupolev Tu-154, da Siberia Airlines, vôo 1812, foi abatido pelas forces armadas ucranianas sobre o Mar Negro. O avião ia de Tel Aviv, Israel, para Novosibirsk, Rússia. Não houve sobreviventes, com setenta e oito mortes no total. O governo ucraniano admitiu a responsabilidade oito dias depois do acidente e pagou, como indenização, cerca de duzentos mil dólares para as famílias de cada vítima, totalizando cerca de quinze milhões.

O Tu-154 do vôo 1812

O Tu-154 do vôo 1812

O segundo caso é do voo 655 da Iran Air, de Teerã para Dubai, abatido em Três de Julho de 1988. O Airbus A300 foi derrubado por mísseis do cruzador USS Vincennes, da Marinha dos Estados Unidos. O episódio é ainda mais absurdo pelos fatos do avião estar em sua rota habitual, dentro do espaço aéreo iraniano e o cruzador dos EUA estar em águas territoriais iranianas. Todas as pessoas dentro do avião, duzentos e noventa ao todo, morreram.

Selos iranianos que lembram do episódio e de suas vítimas

Selos iranianos que lembram do episódio e de suas vítimas

O governo dos EUA jamais admitiu responsabilidade ou pediu desculpas, pagando indenizações após o caso ir para a Corte Internacional de Justiça. De acordo com a postura oficial do governo, o navio estava se “defendendo”, embora todas as evidências digam o contrário e sustentem que foi um ato negligente em uma área sob tensão, durante a guerra Irã-Iraque. Você pode assistir, no idioma original, um especial do canal de televisão ABC, dos EUA, sobre o episódio, aqui embaixo.

,

 

O terceiro caso é talvez o mais conhecido caso de avião de passageiros abatido. O voo 007 da Korean Air Lines, ou KAL007, abatido em Primeiro de Setembro de 1983 por um caça Su-15 da União Soviética. O voo ia de Nova Iorque para Seul, via Anchorage, no Alasca. Todas as 269 pessoas morreram. O episódio gerou semanas de troca de acusações entre soviéticos e o governo dos EUA, com muitas informações sendo divulgadas apenas após o colapso da URSS, oito anos depois. Os soviéticos afirmavam que os EUA usavam aviões civis como “escudo”, disfarçando a passagem de aviões espiões RC-135, ou até mesmo colocando equipamento de espionagem nos aviões civis e ordenando que sobrevoassem território soviético.

Capa da revista TIME após o episódio

Capa da revista TIME após o episódio

É comum esquecermos que a região do Ártico foi foco de muita tensão durante a Guerra Fria, mas era ali que se concentravam boa parte do arsenal aéreo e de mísseis do conflito. O caso foi chocante e ainda mais deplorável pois o caça soviético, pilotado pelo Major Genadi Osipovich, fez contato visual, tendo disparado tiros de advertência. Embora o 747 tenha ignorado a abordagem do caça soviético, estava confirmado, para o piloto, que se tratava de avião civil; se ele repassou a informação ou não para seus superiores, não se sabe. A União Soviética manteve que o abate foi legal. As famílias foram indenizadas, mas pouquíssimos vestígios das vítimas foram encontrados, dadas as condições climáticas da região.

Como afirmado acima, o caso é dos mais conhecidos, inclusive pela natureza de tensão política e conspiração que o envolve; então, diversas fontes estão disponíveis, e o episódio é tratado em vários meios, até em filmes. Outro exemplo da importância do ocorrido é que ele motivou, em parte, a ampliação do sistema de localização de aeronaves por satélite, até então segredo militar dos EUA; isso está na origem do moderno GPS civil. Recomendo o episódio da série Mayday, do Discovery Channel, sobre o evento. Infelizmente, apenas no áudio original.

 

O quarto caso é do voo El Al 402, que, em 27 de Julho de 1955, ia de Londres para Tel Aviv, com escalas em Viena e em Istambul. Foi abatido por dois caças MiG-15 da Bulgária, após entrar no espaço aéreo do país. Todas as cinquenta e oito pessoas morreram. O período era marcado por tensão entre os dois blocos antagonistas da Guerra Fria, e o avião não estava programado para sobrevoar a Bulgária, país então sob ditadura comunista. Não se sabe os motivos do avião ter errado a rota, possivelmente condições meteorológicas. O governo búlgaro inicialmente negou envolvimento, mas, posteriormente, admitiu responsabilidade, indenizou as vítimas e os pilotos foram afastados. Novamente, o caso possui o componente do reconhecimento visual do alvo, dados os armamentos dos aviões. Ambos sabiam que disparavam em um avião civil.

Memorial judaico para as vítimas do voo 402, no cemitério Kiryat Shaul em Tel Aviv

Memorial judaico para as vítimas do voo 402, no cemitério Kiryat Shaul em Tel Aviv

O quinto e último caso é do voo 114 da Libyan Arab Airlines. O voo iria de Trípoli, na Líbia, para o Cairo, Egito, com escala em Benghazi. Em 21 de Fevereiro de 1973, o 727 saiu de Trípoli e teria se perdido no norte do Egito, por condições climáticas e falha de equipamento. Entrou em espaço aéreo israelense, na península do Sinai (que hoje pertence novamente ao Egito), onde foi interceptado por dois caças F-4 Phantom da Força Aérea Israelense. A tripulação teria se recusado a cooperar, ou ignorado os sinais de advertência, o que motivou o abate. Cento e oito pessoas morreram e cinco sobreviveram, inclusive o copiloto.

Embora, oficialmente, Egito e Israel estivessem em estado de guerra, o período não era de hostilidades, retomadas meses depois, na Guerra do Yom Kippur. Os aviões israelenses, assim como em outros casos citados, fizeram contato visual, inclusive com sinais manuais pelas cabines dos aviões. O copiloto sobrevivente corrobora essa versão; entretanto, houve condenação internacional do episódio, inclusive por parte dos EUA. O governo israelense classificou o episódio como um “erro de julgamento” e pagou indenizações para as famílias. Especula-se que a área era de sensibilidade maior que o habitual dada a proximidade com as instalações nucleares de Negev, onde Israel desenvolveria urânio para uso bélico.

O 727 da LAA

O 727 da LAA

E qual seria então a menção do post de hoje, além das cinco dicas habituais? Não existe nenhum caso similar registrado no Brasil, oficialmente. Se entrarmos em “teorias da conspiração”, o Marechal Castello Branco, ex-Presidente que havia recentemente deixado o cargo, faleceu em um acidente aeronáutico no Ceará, em uma aeronave Piper Aztec, no dia 18 de julho de 1967. A aeronave que conduzia o ex-Presidente foi atingida na cauda pela ponta da asa de um caça da Força Aérea Brasileira, um Lockheed TF-33, perdendo a deriva. Depois de entrar em parafuso chato, o avião chocou-se com o solo e todas as pessoas a bordo morreram, com exceção do co-piloto.

Alguns afirmam que o episódio foi deliberado, já que Castello queria organizar eleições diretas e já entregar o poder para os civis; em contraste, a “linha-dura” buscava ampliar o autoritarismo do regime e sua duração. A linha-dura militar acabaria prevalecendo, e paira a suspeita de que Castello teria sido assassinado pelos rivais políticos. Colabora para essa teoria da conspiração o fato do inquérito militar ser cheio de contradições, como pode ser visto nesta matéria da revista IstoÉ. Você também pode ler sobre o acidente aqui neste blog. A escritora Rachel de Queiroz, durante o programa Roda Viva de Primeiro de Julho de 1991, desmente essa teoria. Castello estava visitando a fazenda da escritora, falecendo no voo de retorno.

Gostaram, não gostaram, mais dicas? Comentem a vontade!

*****

Como sempre, comentários são bem vindos. Leitor, não esqueça de visitar o canal do XadrezVerbal no Youtube e se inscrever.

*****

Caso tenha gostado, que tal compartilhar o link ou seguir o blog?

Acompanhe o blog no Facebook e no Twitter e receba notificações de novos textos e posts, além de outra plataforma de interação, ou assine o blog com seu email, na barra à direita da página inicial. E veja esse importante aviso sobre as redes sociais.

 

 

 

Anúncios

2 Comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s