A segunda baixa na Crimeia

Caros leitores,

Por motivos profissionais, o blog não teve atualizações nos dois últimos dias; inclusive, haveria um texto específico sobre o Dia de São Patrício, que será publicado nos próximos dias (ou seja, atrasado). O texto que segue não é longo, e contém vários links; embora não sejam imprescindíveis, espero que sejam úteis. Pois bem, ontem, dia 18 de Março de 2014, um soldado ucraniano foi morto na península da Crimeia. Forças russas teriam atacado uma base ucraniana, causando um morto e um ferido. Segundo fontes do governo russo, atiradores ucranianos começaram a escaramuça, causando um morto russo também. Desde a ocupação, inicialmente legal, da Crimeia por forças russas, é (são?) a primeira (duas?) morte causada por troca de tiros entre ucranianos e russos.

Então qual o motivo do título do texto? Uma baixa, em termos militares, é quando um combatente é retirado de combate, pelos seus ferimentos, por ter desaparecido, capturado ou por estar morto. Existe uma frase, de origem desconhecida (possivelmente um Senador dos EUA chamado Hiram Warren Johnson, em 1918), que diz: a primeira baixa da guerra é a verdade. E é inegável que a situação na Crimeia está bastante nebulosa desde a semana passada. Há mais apontar de dedos e troca de acusações, em meio às informações conflitantes, numa situação que já seria complicada. O soldado morto ontem é a segunda baixa dessa crise.

Mapa físico da península da Crimeia

Mapa físico da península da Crimeia

Na perspectiva russa, houve uma ocupação legal (veja o que já foi escrito aqui no Xadrez Verbal), seguida de um referendo em que 96,7% da população da Crimeia respondeu ser “favorável que a Crimeia seja reunificada com a Rússia como membro da Federação Russa”. Posteriormente, da perspectiva local e russa, a Crimeia seria uma República autônoma e independente, que, após tratativas, foi integrada à Rússia de forma “espontânea”, em documento encaminhado para aprovação dos respectivos legislativos. O leitor notará que, muitas vezes, a cidade de Sevastopol (ou Sebastopol) é tratada de forma separada: isso se dá, pois a cidade é considerada um enclave autônomo, tal como o Distrito Federal brasileiro, guardadas as proporções.

Na perspectiva ucraniana, o que existe é uma separação ilegal, que não será reconhecida, do que o governo considera seu território. Além disso, após a morte do soldado ucraniano, o governo do país teria autorizado o uso da força pelas tropas ucranianas; entretanto, tal autorização seria em caso de necessidade de defesa. O Parlamento da Ucrânia também aprovou o entendimento entre o país e a União Europeia, fato que estava na gênese de todo o movimento Euromaidan. No link anterior também está a informação de que Angela Merkel “descarta” o uso da força contra a Rússia.

Do outro lado, temos as reações mais firmes. O Reino Unido classificou o referendo de zombaria, além de suspender todas as relações com a Rússia na área de defesa e segurança. Exercícios navais entre Rússia, França, Reino Unido e Estados Unidos também foram suspensos, bem como a participação russa na próxima cúpula do G8, na semana que vem. Obviamente, EUA e Europa não reconheceram o referendo da Crimeia como legítimo. Algumas sanções bilaterais foram aplicadas, como congelamento de bens e de negociações de vistos de determinados indivíduos ou “envolvidos com a situação”. Joe Biden, Vice-Presidente dos EUA, afirmou que o país considera exercícios militares na região dos Bálcãs. Finalmente, o governo francês foi o mais incisivo e o único que admitiu o uso da força militar, caso “limites” sejam ultrapassados.

Para encerrar esse apanhado geral e concluir a atualização do leitor sobre a situação, antes do referendo, o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e o chanceler russo, Sergei Lavrov, tiveram uma conversa “construtiva” de mais de três horas na embaixada dos EUA em Londres; os resultados, entretanto, não apareceram. Digno de nota que Kerry elogiou Lavrov e o chamou de “muito sincero”; em outras palavras, ele foi aberto e disse que a Rússia não vai se retirar da Crimeia. Por outro lado, ambos concordaram que a Ucrânia necessita de uma “reforma”. As fotos divulgadas mostram o encontro como quase informal e amigável, escolhi uma e coloquei abaixo.

Foto: Secretaria de Estado dos EUA/Reprodução

Foto: Secretaria de Estado dos EUA/Reprodução

No Sábado, dia 15 de Março, a Federação Russa vetou uma resolução do Conselho de Segurança da ONU declarava inválido o referendo que seria realizado no dia seguinte. A proposta, dos Estados Unidos, teve 13 dos 15 votos possíveis a favor. A China, que também tem poder de veto, se absteve (extraoficialmente, a Rússia conta com apoio da China e da Índia, e o fato já foi mencionado por autoridades russas). E, o mais importante, em um longo pronunciamento ao seu Parlamento, Putin afirmou que a Crimeia “sempre será russa”, que a postura russa é de buscar a amizade ucraniana, além de reabilitar o povo tártaro (a Rússia manteve sua postura de reconhecer todos os idiomas praticados como oficiais), mas que o Ocidente “cruzou uma linha” e que, em 2009, os EUA avisaram o mundo que uma independência não precisa de leis internacionais, clara referência ao Kosovo.

Agora que o leitor está informado e contextualizado, o que se pode analisar disso tudo? Retomando o ditado que originou o título, onde está a verdade? Considerando que um lado anula o outro, provavelmente, a verdade está em lugar nenhum. A ocupação russa, inicialmente, era legal, como já tratado aqui, e realmente havia o risco de conflitos internos em meio aos protestos ucranianos. A realização de um referendo, entretanto, com, primeiro, perguntas mal formuladas, realizado em menos de duas semanas, sem nenhum debate aberto ou troca de informações e, segundo e bizarro, um referendo que tratava de um país que ocupava a região, não é nem um pouco legítimo.

Sinceramente, não duvido de que essa seja a vontade do povo crimeano, mas a condução do processo é absolutamente vazia. E, embora houvesse a presença da imprensa internacional (que não relatou nenhum incidente), nenhuma organização monitorava o referendo. Em mais um “veneno remédio” da postura russa, é apropriado que as respectivas declarações tenham sido encaminhadas para os legislativos, russo e crimeano; mas a velocidade das aprovações também é espantosa, uma fast track que sempre gera suspeitas.  Na retórica internacional, até o momento a Rússia tem sido impecável. Lavrov negocia, pois o governo russo sabe que negociações são necessárias, enquanto Putin enfrenta, se aproveitando do costumeiro discurso moral de Obama.

O governo ucraniano é quase um refém na situação. Sabem que não podem fazer frente ao poder russo na região, e essa seria uma decisão, embora possível, deveras estúpida. Ao mesmo tempo, não reconhecerão o que consideram uma violação de seu território. Para manter sua posição, entretanto, dependem da Europa e dos EUA; mesmo para negociar, já que o Kremlin não reconhece o atual governo ucraniano nem seus representantes. Chega a ser trágico que o principal país de toda a crise seja o com menos possibilidade de voz ativa.

Os EUA e a Europa (ainda não me atrevo em usar OTAN, como se toda a organização, cuja finalidade é a segurança, agisse em concerto) estão fazendo o que podem, entre uma trapalhada e outra. Merkel é a maior interessada, pela proximidade, em diversos níveis, de seu governo e de seu país com o governo de Putin e a Rússia; talvez, justamente por isso, ela mantenha uma postura quase estoica, evitando movimentos bruscos nesse confuso tabuleiro. A Inglaterra e a França mantêm a retórica mais agressiva, talvez para compensar o que foi visto durante a crise da Síria: uma aparente falta de sintonia entre um lado e outro do Atlântico dentro da OTAN.

Polônia e Turquia, por enquanto, usam uma retórica afinada com os EUA; os dois países da OTAN são importantíssimos na atual crise, já que a Polônia tem a maior fronteira terrestre com a Ucrânia ocidental e a Turquia está diretamente oposta à Crimeia, do outro lado do Mar Negro. E chegamos ao ponto principal: os EUA. Washington tenta emular a política russa, com Kerry negociando e Obama confrontando. A diferença é que Obama mantém sua retórica moral, que não está rendendo mais frutos, e patina nas sanções concretas. Enquanto tenta punir certos membros do governo russo, ele hesita em atingir o alto escalão e teme escalar o conflito ao agir contra o país como um todo.

Ainda nos atos concretos, os EUA enviaram alguns aviões de combate para a Polônia, além, é claro, de sua capacidade de projeção de força em qualquer ponto de globo; mas, como já dito aqui, a capacidade russa de força militar na região é imensa, justamente devido à prioridade que sempre foi dada ao papel russo ali. Então, a “ameaça” de Obama não é concreta; ao mesmo tempo em que ele tenta demonstrar força, o que desagrada os liberais que buscam uma negociação e temem uma escalada, ele não demonstra força suficiente, o que desagrada a parcela que defende uma postura mais incisiva e não gera apreensão no comando russo. A política externa do segundo mandato de Obama é extremamente confusa e atrapalhada (e será tema de post próprio por aqui).

A última constatação é a pior possível. Talvez tais análises, desse blogueiro ou de outras fontes, não adiantem nada. Novamente, menciono meu texto de alguns dias atrás. Qualquer análise dependia da manutenção do controle sobre a situação, já tensa. Mas os primeiros tiros já foram dados. O “primeiro sangue” já foi derramado, em péssima adaptação de outra expressão da língua inglesa. A racionalidade não é mais uma certeza. Quando temos um cadáver no cenário, tudo pode mudar rapidamente, seja uma súbita corrida para a mesa de negociações, buscando evitar mais mortes, seja uma retribuição na mesma moeda. Resta saber quantas outras baixas teremos.

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A maioria dos links é do portal UOL ou do site OperaMundi para que o leitor possa acessar as informações em português. O blog não tem, nesse momento, nenhum vínculo com nenhum dos dois sites.

Além disso, recomendo também a leitura dessa pequena matéria com a opinião de Gorbachev, ex-Premiê da União Soviética (que goza de muito prestígio no Ocidente, embora eu tenha algumas restrições que não cabem aqui no momento).

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