São Paulo, país independente

Ontem, no estado de São Paulo, foi feriado (inclusive, esse o motivo do sumiço do blogueiro). O Nove de Julho relembra a revolta do estado contra o governo federal em 1932. Os aspectos históricos sobre esse movimento político e uma ideia coletiva de “paulista” (que, como todo sentimento pátrio, é construído, e pode disfarçar aspectos extremamente negativos) certamente serão retomados aqui nesse espaço. O princípio deste post é debater a ideia, que ressurge com mais ou menos força em todo Nove de Julho, de um separatismo paulista. Existem movimentos e articulações em busca desse ideal. Agora, o que seria de São Paulo caso se tornasse uma nação soberana?

São Paulo país, com sua população (caso ninguém migrasse ou, mais provável, fosse expurgado) de cerca de 41 milhões de habitantes, seria o 32º do mundo (uma Argentina). Sua economia estaria na região de 21ª do mundo (O maior PIB de um estado brasileiro. Um Irã). O IDH seria o 37º do mundo (Uma Hungria. O Brasil, atualmente, ocupa a 85ª posição, e São Paulo é a unidade federativa com terceiro melhor IDH). Aparentemente, nada mal, não? Pois bem, o primeiro índice, populacional, não seria o real. Mesmo no caso de uma secessão pacífica, haveria deslocamento populacional, ainda mais considerando que parte da cultura “paulista” envolve uma “xenofobia”, especialmente contra migrantes nordestinos. Porém, isso ainda cai num campo subjetivo e especulativo. Vamos considerar dados objetivos.

A economia paulista corresponde a cerca de um terço do PIB total brasileiro (Na década de 1980, chegou aos 40%). Cerca de metade do PIB paulista corresponde ao setor terciário, e outros 45% à indústria. Parece muito, mas, sozinha, a economia de São Paulo não se sustentaria. O estado tem um déficit energético de quase 30 mil gigawatts. Com suas trinta e três usinas, São Paulo tem sua capacidade hidrelétrica quase esgotada. O país São Paulo seria, ao menos em curto prazo, um importador de energia elétrica, já que também não conta com recursos minerais para depender de termoelétricas. A solução seria a energia nuclear, mas considerando a densidade demográfica do estado, além de uma solução de longo prazo, seria uma solução arriscada.

A indústria paulista também sofreria. O estado tem produção diminuta de petróleo (apenas 1.7% da produção nacional). Apenas 20% do parque siderúrgico nacional está no estado, que não é produtor de minério de ferro. Na realidade, toda a indústria paulista teria que importar suas matérias primas, já que a produção mineral local é virtualmente inexistente, sendo digna de nota unicamente a produção de insumos para construção civil, como areia. O maior porto do Brasil, em Santos, São Paulo, movimenta cerca de cem milhões de toneladas por ano; a maioria da carga compreende produção agrícola, e em boa parte dos casos, proveniente de outros estados. Curiosamente, ao contrário da imagem construída pela expansão industrial entre as décadas de 1920 e 1960, com grandes parques de produção de automóveis, o setor econômico mais competitivo em São Paulo é justamente a agricultura, correspondente a um terço da produção agrícola nacional.

Então, qual a origem da pujança econômica do estado? O setor terciário. A Bolsa de Valores de São Paulo está entre as cinco maiores do mundo em valor de mercado. Existem quase sete mil agências financeiras no estado, que movimentam quase dois trilhões de reais ao ano. O PIB do estado é de cerca de 1,3 trilhão de reais. Então como o setor financeiro sozinho movimenta mais dinheiro do que o PIB do estado inteiro? Simples, São Paulo é o coração financeiro do Brasil. Sua economia forte deriva do fato de ser um hub, um ponto de convergência do Brasil; logístico (com suas rodovias e hidrovias, além do porto de Santos), produtor (a produção industrial paulista depende dos insumos provenientes de outros estados) e, essencialmente, financeiro. A sede das multinacionais está em São Paulo. Os papéis das empresas nacionais são negociados na bolsa de valores de São Paulo. Quando uma família de renda mensal de quinhentos reais no interior de Sergipe usa parte do dinheiro recebido pelo Bolsa Família no mercado da cidade, em produtos de grandes conglomerados como Ambev, Bunge ou Cargill, ela contribui com o movimento da economia financeira em São Paulo. O mesmo estado que abriga pessoas que acusam a família citada de “parasitas” e termos similares.

Se São Paulo tornar-se independente amanhã, o cenário em alguns anos muito provavelmente seria de fuga de capitais, afinal, ainda haveria 150 milhões de clientes do outro lado da fronteira. De crise de desemprego e de fatores de produção ociosos, causados pela falta de matérias primas e de energia (ao menos, até a mudança de matriz energética. Que demandaria importação de combustível nuclear). Tornar-se-ia muito provavelmente um país agrícola. A economia forte de São Paulo está ligada de forma visceral ao Brasil. São Paulo talvez realmente seja a “locomotiva do Brasil”. Mas, sem o restante do país, não teria vagões. Nem trilhos.

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