A estrela vermelha na bandeira brasileira

Contenha-se, caro leitor de extrema esquerda, a revolução não começou. Acalma-se, caro leitor de extrema direita, não é necessário ligar para os generais pedindo um golpe. Este post será sobre História e simbolismo político, não para noticiar a revolução ou insuflar os patriotas.

Nesses últimos dias, como discutido superficialmente aqui, estranhos ares pairam no Brasil. Dentre essa estranheza, existe uma parcela da população que ainda teme o “fantasma do comunismo”, como se ainda estivéssemos na Guerra Fria. Ontem, ao participar de um tópico de discussão, li que “vermelho não está na bandeira do Brasil”, numa alusão ao citado fantasma e ao nacionalismo proto-fascista “apartidário” que tem renascido. Mas, um fato pouco conhecido, é que o vermelho já esteve na bandeira do Brasil. Ainda mais, a estrela vermelha!

Nos primeiros dias após a dita proclamação da República, não havia consenso sobre o desenho da bandeira nacional. Oficialmente, a bandeira republicana teve apenas dois desenhos. O primeiro, de 15 de Novembro de 1889, desenhada por Rui Barbosa e inspirada na bandeira dos Estados Unidos da América, e o desenho de 19 de Novembro de 1889 que, com ligeiras alterações (como a adição de estrelas representando novos estados), é usada até hoje e amplamente conhecida. Posteriormente, existiram diversos desenhos rejeitados (inclusive a bandeira que atualmente simboliza o estado de São Paulo), em tentativas de criar uma bandeira “original”, já que a bandeira republicana brasileira era (ou ainda é) criticada por ser mera repaginação da bandeira imperial.

Num período aproximado de dez dias, entre 15 e 25 de Novembro de 1889, a troca dos símbolos pátrios ainda engatinhava, sem uma regulamentação definitiva. Muitos clubes republicanos e instituições continuaram a usar a bandeira imperial, substituindo ou tapando a coroa por símbolos republicanos, como o barrete frígio vermelho, símbolo da Revolução Francesa. No caso do Cruzador Almirante Barroso, da Marinha do Brasil, foi adotada uma estrela vermelha, substituindo a coroa imperial. O caso do Cruzador Alte. Barroso é bem documentado, em meio à essa miríade de bandeiras improvisadas.

Arte representando como seria a bandeira hasteada no Cruzador Alte. Barroso

Arte representando como seria a bandeira hasteada no Cruzador Alte. Barroso

A escolha se deve ao fato de, à época, a estrela vermelha ser interpretada “meramente” como um símbolo da vontade popular, um símbolo republicano (que vem de res publica, “coisa pública”). O vermelho ganha esse significado a partir do Levante de junho de Paris de 1848 (agradeço ao Victor de Almeida pelo apontamento), quando renova-se o barrete frígio vermelho revolucionário de 1789. Posteriormente, por possuir tal significado, será usado pelos revolucionários russos de 1917 e, consequentemente, associado ao comunismo. Associado tão fortemente que, hoje, muita gente imediatamente liga uma estrela vermelha, ou meramente a cor vermelha, ao comunismo e a um contexto ideológico da Guerra Fria. Ironicamente, uma embarcação militar brasileira já enfurnou as cores de uma estrela vermelha.

Agora, por que o blogueiro está contando esse causo? Mera curiosidade? Não necessariamente. Em meio aos atos e manifestações, está implícito um descontentamento relativo a diversos símbolos. Símbolos partidários sendo destruídos ou desqualificados, sob a prerrogativa de que “não nos representam”. Símbolos que estariam desvalorizados, como a bandeira nacional, louvados. Uma cor que simboliza uma ideologia “não presente na bandeira do Brasil” é repudiada. A bandeira do município de São Paulo foi arrancada da prefeitura. Uma revolta que, dentre outros aspectos, é dirigida também aos símbolos, como se aquela simbologia fosse a única possível, uma interpretação exclusiva. Num mar de descontentamento, desconsideram outros contextos de análise, seja em relação à obsolescência de seus próprios conceitos pessoais, seja objetivando a renovação do símbolo repudiado. Já que, com os últimos protestos mundo afora, a obra V de Vingança está tão em voga, vou recorrer a uma fala de V: quem concede poder aos símbolos é o povo. Sozinho, um símbolo não é nada.

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A fonte do autor para o post foi o volume V da coleção História Naval Brasileira, publicada pelo SDM. Além disso, o blogueiro trabalhou, por quase dois anos, no Centro Cultural da Marinha em São Paulo, e recomenda a visita.

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