Resumo e comentários sobre a recente conferência do Pentágono

A imagem que acompanha este post é do roteiro da coluna aberta do podcast do Xadrez Verbal que foi ao ar hoje, sexta-feira, 13 de abril de 2018. Intencionalmente deixei a data do print e quando ocorreu a última alteração no documento.

Aparentemente, um dos cenários possíveis e comentados no programa ocorreu: uma resposta localizada por parte de EUA, França e Reino Unido contra o regime Assad pelo suposto uso de armas químicas, com ataques aéreos na noite dessa mesma sexta-feira. Caso queira entender o uso da palavra “suposto”, sugiro que ouça todo o quadro do programa.

Após os ataques, tivemos uma coletiva de imprensa realizada pelo Secretário de Defesa dos EUA, James Mattis, e pelo Chefe do Estado-maior, Joseph Dunford. Uma declaração foi dada, afirmando que o foco da operação é contra a “capacidade de guerra química” do regime, incluindo bases aéreas de onde partiram ataques. “It’s a one time shot”, “é um tiro único”. Além disso, um centro de comando foi atingido, que especula-se seja do Hezbollah.

A “única ação retaliatória foi de sistemas anti-aéreos sírios”, contra alvos “Especificamente identificados” para “evitar baixas russas”; os russos, entretanto, “não foram pré-notificados (…) As únicas comunicações que ocorreram com os russos antes da operação foram sobre o espaço aéreo, nada mais que isso”.

“Essa onda de ataques aéreos está encerrada (…) Amanhã de manhã poderemos comentar resultados (…) Futuros ataques dependerão do regime Assad ter entendido o recado”. Ao final, Mattis agradece a presença de Dunford pois nos próximos dias “muita desinformação dos que apoiam Assad virá a público”.

Tudo indica que foi mais uma ação pontual contra Assad e seu regime. A grande mudança é a de maior papel francês nessa situação, uma guinada dada por Macron na última semana. Macron, inclusive, disse ter provas da responsabilidade de Assad. Assim como Lavrov disse ter provas de que foi algo montado por rebeldes com apoio ocidental. E nenhum deles mostrou algo.

Uma questão é que tais ataques ocorreram antes da missão da Organização para a Proibição de Armas Químicas, prevista para iniciar amanhã. Tal investigação, caso comprove envolvimento de Assad, contribuiria imensamente para a legitimidade da ação. Talvez desconfiança de como seguirão os trabalhos da OPAQ.

Ou, então, interesses outros. Na imprensa dos EUA muito se comenta da súbita vontade de Trump em atacar, talvez para diminuir o foco na situação interna. Mais uma semana de demissões, fofocas e investigações do FBI contra pessoas próximas ao presidente. Para colaborar com teorias mais nebulosas, enquanto ocorria o ataque do Ocidente, o Daesh, auto-intitulado Estado Islâmico, lançou uma ofensiva contra o exército sírio.

A embaixada russa nos EUA já emitiu uma nota de protesto, categorizando as ações dos EUA como uma agressão a um país soberano e que tal ação pode desdobrar em consequências. Houve comprovado apoio de outros aliados dos EUA, com o uso do espaço aéreo jordaniano e de uma base no Qatar. Nesse momento, certamente o maior risco de retaliação vem de uma resposta iraniana, não russa. Os meios de conflito estão concentrados na região, algo que também foi repassado no programa.

Como sempre, lembro que precisamos aguardar mais desdobramentos antes de conclusões e alarmismos. Não foi o primeiro uso de armas químicas na Síria nem o primeiro ataque aéreo dos EUA contra o regime Assad. O que é realmente preocupante, de forma crescente, é a falta de estratégia definida da maioria dos envolvidos.

Hoje, boa parte dos atores envolvidos na Síria são reativos: ou seja, reagem aos acontecimentos que não desejam. São muito pouco propositivos. Foi o caso desse ataque. Ele foi uma punição ao suposto uso de armas químicas por Assad. E depois? Qual o plano, qual o objetivo? Exceção feita aos russos e israelenses (e talvez aos iranianos) as mesmas perguntas podem ser feitas aos franceses e sauditas que a resposta será quase sempre a mesma. Retórica de uma Síria pacífica, democrática, etc. É isso que falta aos atores nesse grande tabuleiro da Síria, um objetivo estratégico, além dos percalços táticos e da mera troca de peças.


assinaturaFilipe Figueiredo é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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