Domingos Montagner e as Raízes do Brasil

Todos já devem saber da lamentável morte do ator Domingos Montagner, afogado no Rio São Francisco, ambos protagonistas da atual novela de destaque da Globo. Montagner teve suas raízes na arte circense, foi inclusive fundador de um circo. O picadeiro, por sua vez, é uma das raízes da cultura brasileira e da Sétima Arte, o Cinema, do qual a teledramaturgia descende.

Um trecho de uma matéria do portal UOL sobre sua morte mostra como a fatalidade também exemplifica outras raízes do Brasil. Nele, um delegado que trabalha tem quase uma década na região, explica que não existe sinalização contra o banho pois “todo mundo que mora aqui sabe que é perigoso e também avisa os turistas”.

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Não se trata de culpabilizar o delegado, ele apenas explicitou o pensamento por trás da falta de sinalização. Colocar uma placa dessas, por mais simples que seria, sequer deve ser sua função, embora ele seja parte de uma sociedade que poderia remediar esse problema. E aí está o problema, tão arraigado em nossa sociedade.

Todo mundo aqui sabe, não precisa fazer nada. Qualquer coisa a gente avisa, pensa o morador bem intencionado. Ih, todo mundo lá sabe, não vou me estressar com isso não, pensa o político ou o burocrata. A gestão do espaço público não é prioridade, mas o seu usufruto. Se eu sei onde é perigoso é o suficiente.

Não é difícil trocar o termo “espaço público” no trecho anterior por cargo, por posto, muito menos em ano eleitoral. E a conclusão é a mesma: a gestão é detalhe, o usufruto é o foco. Se a novela fala dos tempos dos coronéis, esses tempos não estão tão distantes, muito menos resolveram-se as sequelas herdadas.

Temos então uma mistura. Primeiro, a falta de valores de convivência em sociedade, de prezar pelo que pode acontecer ao outro em um terreno que ele desconhece, ao contrário de você. Afinal, é difícil se importar com uma sociedade que muitas vezes não se importa com você. Segundo, uma má gestão pública derivada dessa falta de valores, de confusão de público e privado, o Homem Cordial que emprega o filho do prefeito em detrimento do mais qualificado estudioso filho do desconhecido.

Se isso soa mera baboseira ou fútil exercício de suposta intelectualidade, pode-se ter uma abordagem mais pragmática. Busque o nome da região. Canindé de São Francisco. Verá belas fotos, propagandas de hotéis, restaurantes, passeios de barco, museu. Uma região com grande atrativo turístico, econômico. Que sequer possui uma sinalização sobre os perigos de nadar na região. Não será difícil pensarmos em uma família que deixe de ir para lá nas férias com o temor que sua filha se afogue, ou que um possível investidor decida levar seu dinheiro para outra região. Quem perde com isso?

Segundo a OMS, em 2014, o Brasil era o terceiro país com mais mortes por afogamento do mundo. Claro, temos uma das maiores costas oceânicas do mundo e abundância de rios, mas cerca de dezenove mortes por afogamento a cada dia não é um número desprezível. Em vários casos, possivelmente evitado com uma mera placa, colocada pelas autoridades, pelo delegado, pelos moradores, por quem se importar com sua região. Não adianta apenas quem mora ali, seja onde for nesse país continental, saber.


assinaturaFilipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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11 Comentários

  • Filipe ,por favor me ajuda ,estou em uma discussão séria com meu professor de geografia a respeito do neocolonialismo .Ele elaborou uma questão de prova afirmando que aspectos culturais e étnicos dos africanos não foram levados em conta durante a ocupação da africa, porém, tenho certa convicção de que na verdade esses aspectos foram levados em conta sim ,e foram utilizados para exercer um melhor domínio sobre os países colonizados ,como por exemplo Ruanda ,onde a rivalidade étnica que já existia antes da colonização ,entre Tutsis e Hutus, foi usada como forma de aumentar o domínio dos belgas sobre a região, já que um povo dividido tem mais dificuldade em se unificar contra um explorador.
    A maioria dos sites educacionais afirma o mesmo que meu professor ,porem ,ainda consegui encontrar alguns que apoiam o meu ponto de vista ,e inclusive um livro chamado ”Dividir para Dominar – A Partilha da Africa” ,mas não consegui baixar.Então ,afinal ,a cultura e as etnias locais importaram ou não durante a ocupação africana?

  • Bom texto Filipe, interesses que mascaram a falta de segurança. Eu morei alguns anos da minha infância às margens do São Francisco em Buritizeiro-MG, e lá na época (1985), não se via placas de alertas, mas as pessoas sabiam dos perigos. Quando li a triste notícia do afogamento, pensei: “Gente, ninguém sai mergulhando no Rio São Francisco assim não, é perigoso.” Um costume popular, dos perigos e armadilhas que se escondem nas calmas e ameaçadoras águas do Velho Chico. Uma pena. Uma fatalidade que poderia ter sido evitada.

  • Pingback: Domingos Montagner e as raízes do Brasil: Ainda vivemos nos tempos dos coronéis | metro27

  • Pingback: evenflo secure step baby gate installation

  • Filipe, Boa parte dos óbitos são de crianças e adolescentes.
    Supondo que se tive uma placa não iria adiantar pois um homem de 54 anos com a experiência de vida, não se intimidaria por ela e nadaria com a segurança. E lembrando que pelo tempo que ele convive com a região ele já deveria saber do perigo. Foi uma fatalidade. Quando vc tiver filhos você vai entender a frase: “água até o umbigo”.

    Agora vou avacalhar.
    E esse seu fetiche por placa não serve de segurança pois nas estradas e ruas tem um monte e não respeitam nem aquelas de radar com multa automática. Se vc colocar uma placa é possível mais gente ir mergulhar para ver se é perigoso mesmo.

  • Felipe Augusto de Souza

    Concordo plenamente. Por vezes eu tento dividir o “cordial” do “vou empregar o filho do meu amigo do que o estudioso desconhecido” com a outra parte de “todos sabem que é perigoso” e “não é minha responsabilidade colocar a placa lá”. Como você disse, qualquer um poderia ter colocado a placa para avisar o perigo.

    O Brasil tem certamente os dois, mas acredito que diferentes sociedades tem isso em diferentes formas. Conheço um pouco dos estados unidos (não falo isso com tanta convicção e nem como “teoria da conspiração”). Mas eles tentam colocar que os valores da socidade é liberdade individual e, de certa forma, levando o “meritocracia” junto. No caso deles, eles não empregariam o filho do amigo, mas possivelmente nenhum cidadão iria colocar lá a placa.

    Claro que as coisas não são binárias, mas são dois valores distintos. Um é que a sociedade pode funcionar melhor se não aceitamos ou oferecermos vantagens de amigos. O segundo é que independente de vantagem ou desvantagem, agir pela sociedade pode trazer frutos.

  • Sua reflexão me fez lembrar de umas férias que passei em Bertioga, litoral de SP. Havia um trecho no mar, com uma placa fincada, alertando para o perigo de afogamento. A praia estava vazia e eu fazia caminhada com minha mãe por lá. Na ida vimos algumas pessoas, um grupo com umas 10 pessoas, talvez uns 5 adultos, 2 adolescentes e 3 crianças. Uma família, que com tanto espaço para montar sua farofada, resolveu ficar lá perto da tal placa. Nós passamos o caminho da ida, passando na frente do Forte. Ao checar pelo do pier de pesca, resolvemos voltar. E o que vimos? Adolescentes, crianças e um dos adultos, no mar, brincando diante da placa que alertava para o perigo e indo cada vez mais pro fundo.

    As placas ajudam? Sim e muito. Mas para algumas pessoas é simplesmente inútil mesmo.

    Lamentável o ocorrido com esse ator, que deixou esposa e filhos pequenos.

    Abraços, Filipe.

  • Primeiramente gostaria de parabenizar a você Felipe, e a equipe do Xadrez Verbal, pelo excelente trabalho que vem fazendo, já acompanho vocês a algum tempo, mas só agora tive coragem de fazer um comentário kkkk, gostaria de fazer uma pequena sugestão de tema, sobre as raízes do Brasil, sobre textos retratando a realidade do interior do nosso país, acredito que um tema importante até mesmo para entendermos como o pensamento no interior do país diverge do pensamento praticado nas capitais.
    Peço desculpas de fugir do tema da postagem, mas desde já agradeço, abraço e boa sorte.

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